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Doumbia, o que já sabes dizer em português? “Sei dizer bom dia e boa tarde. A partir daí, tudo se desenvolve”

Custou €8,7 milhões e foi a terceira contratação mais cara da época para o Sporting. Seydou Doumbia tem 29 anos de uma vida que o tirou da Costa do Marfim para o levar ao Japão. Passou depois pela Suíça, Rússia, Itália e Inglaterra para, agora, estar a “aprender coisas todos os dias” com Jorge Jesus no Sporting

Diogo Pombo

FOTO JOSÉ SENA GOULÃO/EPA

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Como começaste a jogar à bola?
Foi no meu bairro, em Abidjan, na Costa do Marfim. Comecei a jogar quando era muito pequeno, na rua, com os meus amigos. E, voilá, foi aí que comecei a ter prazer em jogar.

Eras o melhor entre os teus amigos?
Não, não, não, havia muitos que eram melhores do que eu. Tínhamos muitos bons jogadores e partilhávamos o hábito de nos divertirmos.

O teu objetivo, em criança, sempre foi ser avançado?
Na verdade, não, mas no meu bairro jogava sempre mais à frente. Marcava golos, sim, e pensava: ‘Porque não ficar por ali?’ Os anos foram passando, comecei a jogar numa escola de formação e foi aí que tudo começou.

A tua família encorajava-te?
[Ri-se] Eles encorajaram-me menos do que eu precisava para ser jogador de futebol. Mas eu sabia o que queria fazer e onde queria chegar, portanto, lutei por isso. A partir daí, efetivamente, apoiaram-me.

Como era a vossa vida em Abidjan?
Era difícil, verdadeiramente difícil, um dia de cada vez. Mas, de qualquer forma, passei bons momentos.

Como é que foste parar ao Japão com 17 anos?
Tinha acabado de ser o melhor marcador do campeonato da Costa do Marfim e fui contactado por um empresário, que me disse que havia um clube no Japão que estava interessado em mim. Tinha propostas de França, de clubes como o Lille e o Guingamp, mas não consegui obter o visto de trabalho, porque nessa altura existiam alguns problemas entre a França e a Costa do Marfim. Por isso, quando chegou a proposta do Japão, disse: “OK, vai ser uma boa experiência.”

E foste sozinho?
Não, fui com o meu pai, que tratou de mim. Ficou duas semanas lá comigo, mas, a partir daí, fiquei sozinho, porque tinha que trabalhar.

Qual foi a coisa mais estranha que te aconteceu?
Ó, tudo era estranho para mim [ri-se]. Chegas a um país em que tudo é difícil, era uma cultura completamente diferente da minha. Nunca tinha visto coisas assim: comerem sushi e carne crua. Foi muito difícil.

Aprendeste a falar japonês?
Sim, sim. Quando falo, eles percebem-me. Era praticamente o único africano que jogava na primeira divisão do Japão, portanto tinha que fazer os possíveis para me adaptar. Estava obrigado a falar [mais risos]. Comecei a aprender, a praticar, e quando falava eles conseguiam entender-me.

Do Japão segues para a Suíça e depois vais para a Rússia. Porquê?
Tinha ofertas da Suíça e, como tinha um amigo a jogar lá, chamado Thierry Dubaï, que tinha vindo do mesmo centro de formação no qual tinha jogado na Costa do Marfim, o meu pai falou com ele.

Era mais fácil viver na Suíça?
Sim, muito mais. Tinha a língua e também os meus amigos que já jogavam no Young Boys. A integração foi muito mais fácil do que no Japão e passei duas épocas magníficas por lá. Depois, Rússia.

Como é que isso aconteceu?
Quando vi a história do CSKA de Moscovo, caiu-me bem. Em 2005 tinham conquistado a Taça UEFA.

Ganharam-na contra o Sporting aqui em Lisboa.
[Solta uma gargalhada]. E a cada ano jogavam na Liga dos Campeões, o que era um sonho para mim desde que estava na Costa do Marfim. Achei uma opção interessante.

Aprendeste russo?
Não, não, isso não consegui aprender. Acho que é mais difícil que o japonês, além de que me sentia mais adaptado ao Japão do que à Rússia.

Nos últimos anos, houve problemas com o racismo no futebol russo.
Bom, esse tipo de problemas existem um pouco por todo o mundo. É verdade que, num jogo de futebol, no meio de um estádio onde toda a gente grita, havia algumas pessoas que não fazem ideia do que é futebol e se punham a fazer gestos errados. Quando lá cheguei, já sabia com o que contar e não ia dar atenção a essas coisas. Sempre me senti bem integrado.

Achas que haverá esse tipo de problemas durante o Mundial?
Não sei pronunciar-me sobre isso. Em todo o lado há pessoas inconscientes. Não sei como vão gerir isso, mas espero que tudo corra bem.

Da Rússia foste para Itália, onde jogaste com Totti na Roma.
Magnífico! Fiquei impressionado com a sua maneira de ser. Já tinha jogado contra ele na Liga dos Campeões, mas quando cheguei a Roma tive a oportunidade de o conhecer e passei momentos muito bons só por o poder ver e apreciar [ri-se]. Ele é uma lenda do futebol.

Jogaste na Suíça, no Japão, na Rússia, em Itália e até em Inglaterra. Onde achas que é mais fácil marcar golos?
Acho que é difícil em todo o lado. Já passei muito bem em alguns campeonatos e em outros senti dificuldades. Não é evidente que o melhor marcador de Inglaterra vá jogar para a Rússia e também marque muitos golos. Em todos os países tento manter-me concentrado no meu objetivo para tentar ajudar a equipa. Se terminar como melhor marcador, melhor.

Esse é sempre o teu foco?
O meu objetivo é ganhar o campeonato. E contribuir com tudo o que tenho para esse objetivo. Depois, como avançado, o meu segundo objetivo é acabar como o melhor marcador.

Foi mais fácil habituares-te a viver em Lisboa do que nos outros sítios onde estiveste?
Desde o primeiro dia que cheguei que tudo tem sido fantástico. Os jogadores, o staff, e mesmo o presidente. Isso permitiu que me tenha adaptado mais rapidamente e continua a ser assim. Sinto-me bem e contente pela forma como fui recebido.

Isso depende também da ajuda que o clube dá aos jogadores novos?
Em tudo. Primeiro, um jogador tem que ser aceite pelos companheiros. Depois, pela equipa técnica. Não aconteceu aqui, mas já houve clubes em que não fui bem acolhido, nem ajudado, em que passei mal, o que faz com que a adaptação seja mais difícil. Parecia que stressava a cada dia em que chegava ao balneário, para falar com as pessoas. Isso não aconteceu aqui no Sporting. Encontrei um ambiente muito bom.

Com quem falas e te dás mais?
Falo praticamente com todos. Temos que misturar tudo, um pouco de francês, um pouco de inglês, mas o mais importante é que nos entendamos [ri-se]. Muitas vezes o Mathieu e o Salin têm de me ajudar e traduzir.

Falas sobre golos com o Jorge Jesus?
Converso com ele quase todos os dias porque, agora, “vivo” com ele cada dia e cada treino.

Como é que vocês comunicam?
Alguns jogadores ajudam a traduzir o que o treinador quer, porque ainda não compreendo tudo de português.

O que te pede ele?
O que todos os treinadores pedem aos seus jogadores: que trabalhe bem e, como diz todos os dias, que me adapte ao sistema que está a implementar e à sua filosofia. Cheguei há pouco tempo e tento entender tudo isso, porque é o mais importante para me integrar na equipa.

Achas que, nesse sistema, és compatível com o Bas Dost?
Sim, posso jogar com toda a gente, seja o Bas Dost, o Alan [Ruiz], o Bruno [Fernandes] ou com outros jogadores, tudo é possível. Faço o máximo para estar à disposição da equipa, que é o mais importante. Tento sempre adaptar-me ao sistema do treinador.

Porque jogas com o número 88?
Não te sei dizer. Comecei a jogar com esse número na Rússia. Acabei a minha primeira época lá como melhor marcador e usava o número oito. Depois quis mudar um pouco e tive a ideia de juntar um oito ao outro. Ficou assim.

Mas na seleção não podes jogar com esse número, pois não?
Não, não, não é possível [risos]. Com a Costa do Marfim uso o sete, que usei quando joguei no Japão e na Suíça.

Já estiveste retirado da seleção da Costa do Marfim.
Por duas vezes. Como digo sempre, cada vez que sou convocado para a seleção, tento dar o máximo para, um dia, dar um troféu ao meu país. Algo que já recebi, em 2015 [venceu a CAN]. Mas, antes disso, é verdade que tive uns problemas com um selecionador, não entendia o porquê de me estar a culpar. Preferi afastar-me para refletir sobre o que iria fazer, se queria parar, ou não. Foi por causa disso.

O que fazes nos tempos livres?
Não cheguei assim há tanto tempo. Quando acabo tudo o que tenho para fazer, tento descansar. Entretanto, tive de começar a aprender português, com um professor e tudo, é basicamente isso que tenho feito.

É mais fácil do que o japonês?
[gargalhada] Sim, isso é certo! Quando o treinador fala já há muitas palavras que consigo entender. É muito, mas muito mais fácil do que o japonês.

O que já sabes dizer?
[Hesita] Bom...

Não vale palavrões.
[Volta a rir-se]. Sei dizer “bom dia” e “tudo bem?”, e a partir daí desenvolve-se.