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Não há milagres, eles rasgaram mesmo

Há uma semana, Jesus avisara que são sempre os mesmos a jogar e que as lesões, mais cedo ou mais tarde, iam aparecer. Num jogo intenso, bem jogado e com muito vaivém, o Sporting perdeu Acuña e Dost e só não perdeu (2-2) com um belo Braga porque Bruno Fernandes marcou, de penálti, no último minuto

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Vamos ter em conta o seguinte cenário:

Treinador A - ele treina uma equipa que vai no 4º lugar do campeonato com tiques de grandeza, fruto de um plantel que, segundo o presidente que nele manda e paga os salários a toda a gente, é o melhor que o clube teve na última década, ao ponto de o comparar ao que, há seis anos, chegou à final de uma Liga Europa, um feito importante na vida que se vive em Braga. O que talvez seja verdade, porque nessa equipa a que António Salvador repete elogios, há Xadas, Ricardo Horta, Danilo, Vukcevic ou Ricardo Ferreira, tipos que facilmente caberia no plantel de um dos grandes.

Treinador B - ele treina a equipa que é mesmo grande, tem mais dinheiro, mais opções e milhões para gastar, que bem gastou para estar em 2º lugar e andar a mostrar boa imagem na Liga dos Campeões, onde não ganha pontos mas colhe vitórias morais contra equipas maiores, bem maiores. O Sporting tem Dost, Bruno Fernandes, Gelson, Coates e Acuña, tipos tão bons que são sempre titulares e jogam sempre, evidência que este treinador gosta, com cautela, pois com tanto jogo e exigência eles “acabam por rasgar”. Palavras dele.

Se fizermos o A+B, uma soma em que os treinadores também chamam grande um ao outro e o A até diz do B que “é o melhor treinador dos últimos 15 anos” do Sporting, podíamos esperar um jogo intenso, rasgado, com muitos ataques, remates e coisas a acontecerem perto das áreas.

E o resultado desta conta confirma-se nos cruzamentos tensos e perigosos, homens a atacar a profundidade e uma equipa a pressionar a saída de bola que, logo aos quatro minutos, tem um avançado isolado e quer fazer um chapéu ao guarda-redes, para estragar tudo. Essa equipa é o Braga de Abel Ferreira, que aperta a campo inteiro, pressiona a saída de bola e chega muitas vezes perto da área durante a primeira parte.

É a equipa que Jorge Jesus diz que joga como um grande, e verdade é, porque sustenta o jogo de pressão em Danilo, Vukcevic e Fransérgio, três médios que são quase três Battaglias, ou seja, que correm, lutam, perseguem e nunca abrandam, um triplicar de coisas que, no Sporting, apenas o Battaglia verdadeiro oferece com fartura. Uma tríplice entente que anula o jogo interior que os leões procuram - até com Gelson, a pedir muito a bola ao centro - e, na única vez que encontram, Bruno Fernandes não remata na cara de Mattheus e decide passar para o lado, na área.

O Braga, mais intenso e faltoso (12 faltas contra três) para travar o jogo de tabelas do Sporting, é também mais rápido e vertical, uma tendência que lhe dá éne cruzamentos tensos para a área e um remate malandro de Ricardo Horta. A organização e bloco alto dos minhotos anulam a existência do Sporting ao centro do campo e reduzem ao cabeceamento de Coates, num canto, e ao livre batido por Bruno Fernandes, as vezes em que Mattheus tem de ir à relva parar remates.

A bola tinha que parar para os leões serem perigosos.

ANTÓNIO COTRIM / Lusa

Um jogo dividido e repentista, a ir a bordo de um vaivém, com uma equipa a atacar tanto quanto a outra (15-14), contudo, passou a um jogo não de grande contra grande, mas de grande contra alguém mais pequeno. O Sporting entrou na segunda parte mais intenso, a arriscar, com as linhas mais subidas no campo e a querer forçar tudo. Os jogadores do Braga recuavam, defendiam mais atrás, deixaram de ligar contra-ataques e fizeram-nos pensar como um jogo na quinta-feira ainda pesa, e muito, ao domingo.

E uma questão que parecia dependente do tempo, foi mesmo isso, uma questão de contar os minutos até Bas Dost rematar, de primeira e com estilo, um cruzamento de Bruno Fernandes da direita. Foi já depois do holandês e de Podence terem desperdiçado remates, que não deram um golo a um jogo que o merecia antes dos 66’.

Os minhotos pareciam de rastos, sem pernas e mortos num esforço europeu que mói os músculos no campeonato. Talvez estivessem, mas não tanto quanto os leões, para quem o golo era um alívio por não terem de continuar a puxar tanto pelas pernas, mortas e de rastos, que também traziam da Europa.

Enquanto Abel colocava Fábio Martins e João Carlos Teixeira, outros dois que cabiam em qualquer grande, Jesus tirava Bas Dost pelo mesmo que tirara Acuña, antes do intervalo - uma lesão muscular. E o Braga crescia e mandava e encostava o Sporting à área com os remates de Fransérgio e João Carlos Teixeira, as diagonais com bola dos extremos e o pulmão de Danilo, que parecia expandir-se com o cansaço dos leões. Que nunca é bom.

Porque quando se está cansado não se pensa da mesma forma, pensa-se pior e mais lentamente, como Coates pensou ao querer ir com tudo uma bola dividida com um jogador mais rápido e mais fresco do que ele. O uruguaio derrubou Danilop e Dyego Sousa bateu o penálti do 1-1. Pouco depois, com o contínuo bombardeamento minhoto, houve outra falta sobre Fábio Martins, à entrada da área, cuja lei da vantagem culminou numa bomba disparada por Danilo, que ainda tocou na barra antes de formalizar o 1-2.

Em quatro minutos (85’ e 89’), o Braga que já dominava e controlava o jogo, virava-o e já o ganhava. O Sporting, de rastos, sem ligar jogadas e a precipitar-se em contra-ataques sem um jogador com pernas para eles, passou o resto do tempo a bater bolas aéreas para a área. Uma delas fez Ricardo Horta imitar Coates. O extremo quis pontapear a bola sem matutar sobre o assunto, derrubou Alan Ruiz e deu a Bruno Fernandes o penálti com que empatou tudo a segundos do fim.

Jesus bem dissera que não há milagres, mas houve este para que um jogo grande, entre equipas cansadas, mas grandes, ficasse num 2-2 que o Braga, durante muito tempo, fez por ficar a favor dele. O Sporting acabou com os jogadores de rastos, ou "mortos", como eles disseram após os jogos contra o Barcelona e a Juventus. Um tipo de jogos que já tinham causado, a certa altura, as lesões Mathieu, Coentrão e William, e que ajudaram a que Acuña e Dost se lesionassem, agora.

Porque no futebol jogam os melhores e, voltando a Jesus, às vezes isso tem consequências, como ele dissera há uma semana: "São sempre os mesmos a jogar e isto não há milagres, há um ou outro que tem de rasgar".

PATRICIA DE MELO MOREIRA