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Jesus foi enganado uma vez, não quer ser enganado uma segunda

Na última temporada, um Sporting pouco concretizador na Taça da Liga acabou eliminado pelo último dos critérios de desempate: a média de idades. Este ano, e para evitar qualquer imbróglio parecido, Jorge Jesus foi com tudo para o ataque no encontro frente ao U. Madeira, da 2.ª Liga. Resultado: o Sporting esmagou os insulares, quais máquina debulhadora, marcado seis e deixando mais uns quantos por marcar. Na diferença de golos, já ninguém os engana

Lídia Paralta Gomes

JOSÉ SENA GOULÃO/EPA

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No ano passado, o Sporting viu-se afastado da Taça da Liga depois de ter sido preciso ir ao fundo do poço dos critérios de desempate para encontrar o vencedor do seu grupo. Com os mesmos golos marcados e sofridos, Sporting e V. Setúbal foram obrigados a fazer contas à média de idades dos jogadores. Os leões, mais velhos, ficaram de fora - coisas que acontecem em competições tão curtas.

Depois de empatar com o Marítimo no primeiro jogo da fase de grupos, Jesus avisou desde logo que a Taça da Liga sim, tem importância e não, não é para esnobar, como dizem os nossos amigos brasileiros. E isso viu-se logo no onze apresentado frente ao U. Madeira, equipa em dificuldades na 2.ª liga. Mesmo com algumas alterações, a coluna vertebral manteve-se, com Mathieu e Coates, William ao centro, Gelson nas alas e Doumbia na frente, ele que brilhou na última vez que foi titular. E na 2.ª parte não houve cá poupanças: como as coisas não ficaram resolvidas nos primeiros 45 minutos, Jesus colocou os pesos-pesados Bas Dost e Bruno Fernandes, deixando Doumbia em campo.

Porque Jesus não queria só ganhar o jogo, queria ganhar por muitos, fechar já a questão da diferença de golos e passar o Natal um pouco mais descansado, sem pensar na debácle do último ano passado. Foi enganado uma vez, não quer ser uma segunda.

E os jogadores fizeram-lhe a vontade, nomeadamente na 2.ª parte, depois de um primeiro tempo menos intenso mas em que mesmo assim o Sporting marcou cedo. Aos 20 minutos a até aí muito boa resistência do U. Madeira quebrou, mas foi preciso um erro de todo o tamanho de Sagna que, pressionado à saída para o ataque por Doumbia, perdeu a bola para o marfinense que resolveu, e passe a redundância, resolver tudo sozinho, fintando quem lhe aparecia à frente e a rematar, mesmo tendo colegas mais bem colocados. O remate saiu subtil, talvez até meio enrolado, mas foi eficaz.

Na 1.ª parte, e apesar da falta de intensidade que amiúde enfureceu Jesus - Bryan Ruiz ainda está meio perro -, o Sporting ainda enviou duas bolas aos ferros, uma por Podence aos 31 minutos e Coates aos 43’. Mas o Sporting nunca foi exatamente uma equipa dominadora, situação que mudou de forma drástica com a entrada de Bas Dost e Bruno Fernandes na 2.ª parte, já depois de Mathieu aumentar para 2-0, respondendo de cabeça a um canto na esquerda.

Bas Dost jogou e fez jogar

Bas Dost jogou e fez jogar

JOSÈ SENA GOULÃO/EPA

Com Dost e Fernandes, o Sporting tornou-se uma espécie de máquina debulhadora, um triturador de almas. Logo após entrarem, ambos tiveram boas oportunidades, mas para a história fica mais o que fizeram jogar. Foi com eles já em campo que Doumbia fez o 3-0, aos 61’, de novo após um canto, mas é o 4-0 que mostra a importância dos dois jogadores neste Sporting: Bruno Fernandes isolou Bas Dost com um passe longo, a rasgar, ainda antes do meio campo e o isolado holandês, numa clara candidatura ao Prémio Nobel da Paz, passou para o lado, onde estava Gelson ainda mais sozinho em frente à baliza.

Eram quatro, podiam por esta altura até ser mais, mas o Sporting não tirou o pé do acelerador e foi por ali abaixo: aos 80’ uma jogada de entendimento do ataque leonino deixou Coates em frente à baliza e o central uruguaio imitou o seu colega no eixo da defesa, colocando também o seu nome no marcador com um belo remate com a parte exterior do pé. E nem um minuto depois, Iuri Medeiros, também ele aposta de Jesus no 2.º tempo, fez um daqueles movimentos à Robben - da ala para o meio - e rematou em arco, naquilo que podemos chamar de “golo de belo efeito”.

Chegados à meia-dúzia, o Sporting continuou ao ataque: Bruno Fernandes ainda tentou de longe um par de vezes um golo que merecia, mas este acabou por não aparecer e, diga-se, os jogadores madeirenses, pelo que fizeram na 1.ª parte, não mereciam tal humilhação.

Não era preciso porque já estava há muito construído o belo presente de Natal que os jogadores leoninos deram a Jorge Jesus. E não foi só o resultado, foi o fazer ver que este Sporting, a mentalidade deste Sporting, é muito diferente da do último ano.