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Sporting, a Edinhar 380 dias depois (ou como as coisas más tendem a repetir-se)

Edinho, o trintão e veterano e experimento avançado português, entrou a oito minutos do fim e bateu um penálti que tramou o Sporting, nos descontos, um filme repetido quase um ano volvido. Os leões empataram (1-1) em Setúbal e correm o risco de ficar, outra vez, com menos pontos que o FC Porto e com mais 45 minutos jogados

Diogo Pombo

MÁRIO CRUZ/LUSA

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Tinha acabado de acontecer o seguinte:

A bola fugira um pouco a Fábio Coentrão, não era fácil, o passe que intercetara viera com força e fizera com que a soma da bola redonda com o pé achatado fosse igual a um fuga de um metro; ficou a meio caminho entre ele e o adversário, um mini-duelo do faroeste; e o jogador do Vitória atirou-se de carrinho, forma mais segura, mais agressiva e com mais probabilidades de ser ele a ficar em sua posse;

A teoria em que ele pensou costuma ser correspondida pela prática, nos casos em que, do outro lado, não está alguém cuja mente se lembra de tocar a bola com a sola de um pé e desviá-la com o outro, enquanto roda o corpo, rodopio a que o futebol chama roleta, ou que os mais românticos apelidam de roleta de Zidane. E tento romantizar sobre um momento compressado em dois segundos um jogo que tem noventa minuto porque, até aí, ao trigésimo minuto, é a coisa mais interessante que acontece em Setúbal (para não escrever a única).

E, não saindo do maravilhoso mundo da probabilidades, era provável que assim o fosse, inclusive, até ao intervalo. Mas, afinal, foi apenas o segundo momento mais cativante. No minuto seguinte, uma de éne carambolas da partida foi recuperada e usada rapidamente pelo Sporting, que deixou Gelson com a bola e Bruno Fernandes a fazer uma diagonal à sua frente. O extremo lançou o médio na área, o remate fez o 1-0, ele tornou-se em um dos melhores marcadores portugueses do campeonato (sete golos) e animou o jogo.

Embora pouco, mesmo só um pouco. A equipa que Jorge Jesus repetiu, ou seja, com Rúben Ribeiro e os do costume, começou por ter muito da bola e até a usá-la a um ou dois toques, a procurar tabelas junto à área e a abusar dos toques no novo cabelo aloirado e oxigenado. Mas o Vitória, ao fim de quinze minutos, recuou as linhas, fechou os espaços por dentro e saía direto em contra-ataques à procura de Gonçalo Paciência ou João Amaral. Dois irrequietos com bons pés e carga de trabalho reserva para quem os marcava.

O jogo foi-se tornando uma sucessão de passes falhados, faltas e contra-faltas, bolas sem fazerem escala a meio campo. Um conjunto de más ou precipitadas decisões, provocadas pela forma rápida e pressionante e agressiva em que ambas as equipas reagiam às bolas que perdiam, como a que obrigou Piccini a atrasar um passe que João Teixeira quase apanhou antes de Rui Patrício.

A maneira como o Vitória corria, apertava e lutava alterou-se, aos poucos, após o intervalo. Não que o fizesse em menor medida, mas porque as fazia com menos tino - jogadores a tentarem condicionar os adversários sozinhos, sem apoios, ou defenderem em linha uns com os outros, sem darem coberturas ou precaverem a hipótese de alguém ser batido.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Uma explicação formal que o informalismo traduz assim: os sadinos desorganizaram-se. Portanto, durante uns 20 minutos, o Sporting controlou o jogo e expôs o que de bom um tipo como Rúben Ribeiro lhe pode dar. O médio moveu-se mais e melhor nas costas dos adversários, perto da área, e jogou fácil, ao primeiro toque e a tabelar para deixar alguém em melhor posição do que ele. Quase como num treino, quando os treinadores colocam um jogador como joker, sempre da equipa que tem a bola, para haver sempre vantagem nos números e uma alma que ligue passes.

Este maior jogo associativo dos leões resultou, apenas, num livre de Acuña que Coates desviou de cabeça e quase marcou (58’); e um alívio atabalhoado do guarda-redes Cristiano que o extremo argentino, encostado à linha e a meio do campo, devolveu em chapéu (69’). Depois, o Sporting padeceu do que já várias vezes infligiu esta época a si próprio. Relaxou, abrandou e confiou que ter a bola, só por ter, chegava.

Como a gíria, o cliché e o lugar-comum nos dizem, dominou o jogo sem o controlar.

E coisas como um chutão para a frente sem nexo, de Fábio Coentrão, deram num contra-ataque do Vitória em que Costinha cruzou rasteiro e João Amaral não marcou porque Coates, em cima da linha, cortou a bola. Coisas como jogadores a não aguentarem a bola no pé ou e a livrarem-se dela, na base do basta a bola estar longe da nossa baliza e perto da deles. Sim, Bruno Fernandes ainda rematou ao poste, aos 88’, mas isso apenas urgiu os sadinos a darem aquele tudo por tudo que, às vezes, resulta.

Resulta, sobretudo, quando quem o tem de conter é mole, meigo e permeável a uma mudança de intensidade alheia. O Sporting manteve a linha da defesa avançada enquanto o resto da equipa já pouco pressionava e uma das bolas que o Vitória atirou para as suas costas encontrou Edinho. O trintão e veterano e experimentado avançado sentiu Mathieu a tocar-lhe, caiu na área, o árbitro apitou o que o VAR confirmou, e o próprio Edinho enganou Rui Patrício a nove metros de distância.

Jorge Jesus chamou “uma desconcentração” e disse que “o futebol é assim” e proferiu a frase “um excelente jogo que estávamos a fazer” para o culminar de um jogo em que o Sporting, convenhamos, se colocou a jeito. Baixou de intensidade, desconcentrou-se e 380 dias volvidos, sofreu outro golo, de penálti, de Edinho, que desta vez não provocou uma derrota (na Taça da Liga, a época passada), mas apenas um empate para o campeonato.

Ou não, porque pode ser muito mais do que isso - caso o FC Porto vença e volte a ser a equipa com mais pontos no campeonato, mesmo com 45 minutos de jogo a menos. E terá sido isso a fazer Fábio Coentrão chorar, Jesus agoirar e vários jogadores do Sporting levarem as mãos à cara, no fim.

MÁRIO CRUZ/LUSA