Tribuna Expresso

Perfil

Sporting

“Já vos disse mil vezes: se quiserem eu vou-me embora.” Se, dia 17, os sócios quiserem, Bruno de Carvalho vai mesmo

Após uma Assembleia Geral conturbada, as críticas de alguns sócios e a dúvida, a pairar no ar, sobre se iria, ou não, demitir-se, Bruno de Carvalho passou mais de 40 minutos a discursar perante os jornalistas e as televisões. Ao fim de queixas, críticas, desabafos, analogias e opiniões dadas sobre outras coisas mais, o presidente do Sporting deixou para o fim o que o motivara a estar ali, e nós a ouvi-lo – haverá nova AG a 17 de fevereiro e se os dois primeiros pontos da ordem de trabalhos não passarem com, pelo menos, 75% dos votos, e o terceiro com 86,13%, Bruno de Carvalho demite-se

Diogo Pombo

MANUEL DE ALMEIDA

Partilhar

Bruno de Carvalho convocara para este segunda-feira, às 18h, uma comunicação. A coisa atrasou-se, começou mais tarde e, depois de estar mais de 40 minutos em monólogo, dirigindo-se aos sócios e aos sportinguistas - como se numa Assembleia Geral (AG) estivesse -, o presidente leonino comunicou o que, realmente, motivara a sua intervenção - a 17 de fevereiro haverá nova AG, com três pontos.

O primeiro serão os novos estatutos, o segundo o regulamento disciplinar e o terceiro a manutenção dos órgãos sociais. Com uma nuance: se algum dos dois primeiros pontos não passar com, pelo menos, 75% dos votos, Bruno de Carvalho apresenta a demissão. Caso eles passem e, no terceiro, não houver uma "manifestação de apoio" semelhante às últimas eleições, em março de 2017, o presidente também se demite. Ou seja, na ordem dos 86,13%.

Em baixo está transcrita a intervenção de Bruno de Carvalho acerca deste tema. Para lá dos quatro parágrafos que se seguem, poderá ler algumas das outras coisas (críticas, queixas, analogias e desabafos) que o presidente do Sporting disse até chegar à razão central para a sua intervenção.

Sobre o nova Assembleia Geral, a 17 de fevereiro

"Meus amigos, tudo se inverteu neste momento. Fizemos uma reunião, estivemos reunidos com a messa da AG e com o Conselho FIscal e disciplinar, também com os administradores da SAD. No próximo dia 17, às 14h, vamos fazer uma Assembleia Geral no Pavilhão João Rocha. Vai ter três pontos: 1) novos estatutos; 2) regulamento disciplinar; 3) se querem, ou não, a saída imediata dos órgãos sociais. Mas, quero-vos alertar para o que aconteceu na última AG."

"Se algum dos pontos anteriores não passar, é preciso 75%, imediatamente nós demitimo-nos do Sporting. Está na altura de os sportinguistas mostrarem se querem este presidente e estes órgãos sociais. Se algum ponto falhar os 75% dos votos, falha e apresentamos a demissão. No terceiro ponto, tem que haver o mínimo que tivemos nas eleições [86,13%]. Não aceito estar a ser injuriado e difamado. Para mim, basta. Neste momento, basta. Não vou admitir que o Sporting, comigo aqui, volte aos tempos antigos. Sei o que fiz e como o fiz. Querem, querem, não querem, perfeito.

Há, pelo menos, um excelente candidato a mexer-se nas sombras. Ele está prontinho para deixar de andar na sombra. Decidam. Esta foi a última vez que eu, enquanto presidente do Conselho Diretivo, tomo uma atitude destas. Na próxima vez que sentir que não tenho apoio, que as pessoas confiam - e não estou a dizer concordarem com tudo -, é a vez que saio em definitivo. Isto não é uma chantagem, é um ser humano que já não aguenta mais. Aguento com metade de Portugal à cabeça, mas não com os sportinguistas. Ponham ordem na casa porque, se não o puserem, este, que não está agarrado ao lugar, também vai para a bancada. Sem problema nenhum."

"Já me basta ter de aturar os outros. Tirando esta Assembleia Geral, façam como entenderem, mas com respeito. Respeitando-me a mim, os órgãos sociais e o nosso trabalho. Na próxima será a vossa voz e a vossa decisão, se podemos continuar, ou não. Até lá, vemo-nos na quarta-feira."

Bruno de Carvalho, a vítima

"As pessoas têm noção da exposição pública e dos meus posts no Facebook, mas não têm noção o que é viver uma vida de completo sequestro há cinco anos. Não cinco, já são sete. Muitas vezes, vou lendo nas redes sociais e ouvindo os fóruns de opinião, e há uma série de confusões: que o presidente não gosta de ser criticado. É falso, não tenho problema."

"Agora, não vamos confundir diferenças de opinião e opiniões contrários, com ofensas gratuitas e difamação. Isto não tem a ver com os nossos rivais, mas sim voltar a ver o Sporting, internamente, a voltar aos tempos antigos. Isso não quero. Acho que muita gente que gosta de mim e do meu estilo de presidência exagera na minha defesa. Mas acho que as pessoas têm que perceber quem é atacado por metade de Portugal, a toda a hora e a todo o segundo."

Os erros

"Há sempre aquele velho chavão, de que 'você também comete erros'. Claro que cometo erros, como comete a Madre Teresa de Calcutá e toda a gente. Todos os dias coloco na balança as minhas decisões. Até hoje, não tenho dúvida nenhuma que houve muito mais decisões certas, do que as que não foram.

"Não podemos, numa Assembleia Geral, ter sócios que acham que em vez de uma democracia, vivemos numa anarquia. Que chamam o presidente de mentiroso e oferecem porrada às pessoas do Conselho Diretivo. Um deles até esteve na TVI24 ontem. Se é este Sporting que querem, o Sporting da treta e da manipulação, que se criou uma mentira pegada no que toca aos estatutos e ao regulamento disciplinar, então as pessoas, se quisessem, podiam não aprovar. Mas há uma coisa que não posso admitir: trabalhar 24 sobre 24horas e chegar a um AG e não me deixaram discutir os pontos."

Os votos nas Assembleias Gerais

"O clube não é meu. Agora, brincar com o nosso trabalho, não. Votem 100% contra. Às vezes são quatro ou cinco da manhã e estou a trabalhar, e merece chegar a uma AG e perguntar se é a altura certa para discutir isto? Jogos e joguinhos para discutir Assembleias Gerais? Vocês tomam as decisões que quiserem, ponto final. O amplo debate deve ser na AG e aquilo que fizeram foi uma falta de respeito. Continuo a dizer: se tivessem votado todos contra, não estávamos aqui hoje. Não estamos agarrados a lugar nenhum, nem queremos ganhar tudo. Não são admissíveis várias coisas que têm acontecido."

As injúrias e as ofensas que duram "há sete anos"

"Dizem que sou uma pessoa que está contra todos aqueles que dizem mal. Não sou contra ninguém. A minha distinção é entre sportinguistas e sportinguistas com azia. Até no xadrez fico aziado e, muitas vezes, demonstro isso publicamente e vocês ainda mandam vir comigo. Meus amigos, estou a ser completamente humilhado, difamado e injuriado por sportinguistas há sete anos. Sportinguistas."

A sua intervenção na Assembleia Geral

"Também estou abrangido pelos estatutos e pelo regulamento. Eu quero-me perpertuar para quê? O que ganho em perpetuar-me no Sporting? Ganho o não poder sair de casa. Sinceramente, custa-me que continuemos manipulados por grupinhos. Meus amigos, ninguém abandonou a AG, retirei os pontos e vim-me embora. Ser ofendido em casa? Pelo amor de Deus, calma. Nunca ofendi ninguém, disse o que tinha para dizer nos meus três minutinhos da tanga, e pronto."

"O Sporting não é uma brincadeira e jamais o será para nós. As pessoas dizem as coisas de forma gratuita e pensam que não têm consequências. Disse-vos que estive para não me candidatar e as pessoas acham que é tudo mentira, porque preciso e me agrada imenso."

"As pessoas têm que ser livres, não ser libertinas. Têm que estar à vontade e não à vontadinha. Pessoas a filmarem e a passarem a órgãos de comunicação social? A mandarem e-mails a pessoas de outros clubes e vocês preocupados em mudança de estatutos porque o presidente quer controlar o clube? Já vos disse mil vezes, se quiserem eu vou-me embora."

As queixas e os desabafos

"É normal que eu diga de um ex-presidente, que diz que o meu lugar é no manicómio, que ele é um sportinguista aziado? Ou dizerem que sou um garoto, uma trampa, que vou falir isto tudo, mas à frente são só sorrisos. Sinceramente, acham que não me preparei o suficiente para não saber onde andam esses grupos todos? Estou aqui para trabalhar. Não podemos andar sempre com o chavão dos 90% dos votos e que o presidente está legitimado. Viu-se. Uma pessoa chega, quer falar e requerimento para o homem não falar. Excelente, magnífico, é realmente um clube fantástico."

"Não vale a pena andarem na televisão a dizerem que sou mentiroso. Ponham-me um processo, então. Meta e logo se vai comprovar se o que disse é verdade, ou não."

"Isto que se anda a passar no Sporting passa-se há quase 120 anos. Desde que nascemos que temos este sentimento auto-fágico. O mais importante para mim acabou por não ser discutido na AG. Ia falar de cada um dos nomes que publiquei e dizer o porquê. Não consegui. Era lá que queria ter discutido isso. Nem dos estatutos consegui falar. Não, continuamos aqui com a brincadeira da sensibilidade. O Sporting está acima de todos nós, óbvio. Mas quem cá está e, comprovadamente, faz um bom serviço ao Sporting, tem de ser protegido."

"Somos, provavelmente, a direção mais clara do mundo."

E, já agora, mais alguns (sobre o Facebook)

"Se não tivessem sido os meus contantes Facebooks, vocês teriam videoarbitro no raio que vos parta. E as denúncias que fiz? Contra o A, o B e o C e, afinal, agora é tudo arguido? Tenho uma mulher, gira ainda por cima, e três filhas, para que acham que vou para o Facebook? Faço por ser aquilo em que acredito e as pessoas votaram no indivíduo que é assim, que fala assim e que vai para o Facebook. Chega de conselhos, obrigado, tenho pai e mãe vivos."

"Não abram a pestana não, enquanto sportinguistas."

"Cheguei a um clube falido e disse que um dos primeiros objetivos desta direção eram títulos europeus. Já temos cinco."

  • “Tanto tem mudado no futebol à conta do meu Facebook”

    vídeo

    Durante a conferência de imprensa desta segunda-feira, Bruno de Carvalho perguntou aos sócios do Sporting se estavam "doidos" quando votaram nele, uma vez que agora comparam-no a "um ditador, um coreano". O presidente do Sporting falou ainda sobre o Facebook e as suas publicações na rede social, que ajudaram a "mudar o futebol". Bruno de Carvalho dá como exemplo o videoárbitro.