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As luzes e as sombras de Bruno de Carvalho

Crise? Menos de um ano após as eleições que reconduziram o líder leonino, o Sporting enfrenta nova instabilidade diretiva. Este sábado, às 14h, há uma Assembleia Geral decisiva para o futuro do presidente - e do clube

Lídia Paralta Gomes

Bruno de Carvalho é presidente do Sporting desde março de 2013

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Como é que alguém que foi eleito presidente de um clube com quase 90% de votos parece estar, menos de um ano depois, com um pé fora dele? Basta, por estes dias, ser Bruno de Carvalho.

Depois de uma semana agitada, com uma assembleia-geral (AG) que acabou mal, o presidente do Sporting bateu o pé e colocou condições claras à continuidade: demite-se caso não sejam aprovados em AG, no dia 17, os novos estatutos e o regulamento disciplinar (são necessários 75% dos votos dos sócios) — os mesmos pontos que tanta celeuma provocaram na AG de dia 3 — e também se não ocorrer uma repetição do resultado que lhe valeu a reeleição em março, ou seja, que pelo menos 86,13% dos sócios votem na sua continuidade.

O Sporting vê-se assim, a meio da época, na iminência de uma crise diretiva. Desnecessária para muitos sportinguistas, surpreendidos e preocupados com o timing de Bruno de Carvalho e com o seu estilo de comunicar. Pedro Varela, o homem por trás da página “Bancada de Leão” nas redes sociais, deixa reparos à forma como o presidente do clube lidou com as críticas na AG do último sábado. “Estiveram presentes dois tipos de sportinguistas: aqueles que, tendo votado ou não em Bruno de Carvalho, estavam genuinamente lá para discutir uma determinada proposta de alteração de estatutos. E depois estava uma minoria contra tudo. E ele deu mais importância a estes, que só contam 10%, esquecendo-se dos outros 90%”, sublinha Varela, que votou em Bruno de Carvalho nas últimas eleições, bem como nas duas anteriores, mas que lamenta o facto de o presidente entrar em conflitos desnecessários.

“Uma das maiores vitórias do Sporting nestes anos é que o Relatório e Contas e o estado financeiro do clube não são problema, porque os sportinguistas veem que, dentro do possível, estão ambos no bom caminho. Há transparência, temos orçamento para lutar no futebol, estamos bem nas modalidades, conquistamos títulos — embora falte o futebol. O que ele não percebeu foi que os adeptos só queriam discutir e perceber, o que é normal quando se mexe em estatutos. Isso para mim foi o maior erro na AG: ele viu isso como uma afronta.”

Um estilo controverso

Pedro Varela acredita que essa “afronta” terá levado Bruno de Carvalho a “precipitar-se” na decisão de marcar para sábado, dia 17, uma nova AG, em que estará em cima da mesa a sua demissão, numa altura em que a sua imagem pública tem “um desgaste brutal”, refere Diogo Agostinho, um dos autores do blogue “És a Nossa Fé”.

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Nestes tempos em que o presidente do Sporting utiliza o Facebook como meio preferido de comunicação com os adeptos, também é online que se discute o futuro do clube. “É uma maneira de estar”, frisa o economista, que considera que, em termos de comunicação, o líder leonino devia resguardar-se mais.

No entanto, também deixa claro que, embora haja “um descontentamento de estilo” por parte de muitos adeptos, Bruno de Carvalho nunca agiu de outra forma e ainda assim foi eleito com quase 90% nas últimas eleições. “Goste-se ou não, se há coisa que é marcada e vincada em Bruno de Carvalho é o seu estilo. E é assim desde o primeiro dia.”

Parece haver então uma ambivalência latente face à figura do presidente do Sporting. “Acho que toda a gente lhe reconhece capacidade e competência. Mudou claramente o Sporting: chega ao clube e cria um choque, com um discurso ambicioso. Mas o estilo é que cria aqui questões”, continua o economista.

André Nobre também escreve no blogue “És a Nossa Fé”. Diz não ser “adepto da forma e do estilo” do presidente do clube, mas coloca essa opinião em perspetiva face à obra feita. “Atendendo aos compromissos sucessivamente cumpridos para com os sócios e adeptos, parece-me que relevar extraordinariamente a forma e o estilo do presidente seria deixar que o aspeto prevalecesse sobre o conteúdo, o que me parece dispensável. Por outro lado, considerando o ambiente hostil e absolutamente opaco do desporto português, entendo que dificilmente seria possível outra atitude face às adversidades externas que o Sporting sucessivamente enfrenta.”

Nobre sublinha a “estabilidade possível em termos de treinadores”, o simbolismo “do processo judicial com a Doyen”, a “atenção às modalidades”, a “reestruturação financeira e o pavilhão” como marcos essenciais.

A oposição

mario cruz/lusa

Pedro Madeira Rodrigues, candidato derrotado nas últimas eleições do Sporting, garante que “não há nenhum complô” de bastidores no clube. “Eu tenho sido a voz mais crítica e tenho sido muito mansinho”, diz, considerando a atitude de Bruno de Carvalho “extemporânea” e criticando o timing da AG: “Esta mudança nos estatutos não deveria ter sido proposta agora. Qualquer pessoa de bom senso entende que se deveria ter esperado pelo final do campeonato.”

Ao contrário de Diogo Agostinho e de Pedro Varela, que veem os objetivos de Bruno de Carvalho difíceis de alcançar, Madeira Rodrigues não acredita em queda de poder no sábado: “Até Godinho Lopes e Soares Franco ganharam as AG. Tipicamente, estas coisas estão controladas. Há muita gente que tem medo, e mesmo que haja uma surpresa e ele não ganhe recandidata-se”, sublinha.

E Pedro Madeira Rodrigues, será candidato à presidência do Sporting? “Não estou a pensar em qualquer candidatura neste momento, mas sei que estou muito mais bem preparado para ser presidente do que estava há um ano. Sinto obrigação é em dar a cara. Faço um apelo a todos os sportinguistas para que deem a cara agora, não esperem que o presidente caia para depois aparecerem como salvadores da pátria.”

Entretanto, o Expresso sabe que João Benedito, antigo guarda-redes de futsal do Sporting, tem já reunidos alguns elementos para uma potencial candidatura, embora manifeste resistência em avançar na atual conjuntura. O advogado Rogério Alves é outro dos nomes que também têm sido falados nos bastidores.

Texto publicado originalmente na edição de 10 de fevereiro de 2018 do semanário Expresso