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Sporting, cu bo ti fim de mundo

O Sporting venceu (1-0) o Moreirense e irá ao Dragão, na sexta-feira, com menos cinco pontos do que o FC Porto. Mas também irá sem Gelson Martins, que fez com que os leões garantissem a segunda vitória consecutiva no campeonato nos descontos e foi expulso, porque tirou a camisola nos festejos para mostrar uma mensagem em crioulo a Rúben Semedo - da qual se pode retirar um resumo para o que o Sporting tem sido no último par de semanas

Diogo Pombo

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

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Estamos no verão, ensanduichados entre os dias do compra, vende, empresta, negoceia e regateia jogadores, ou do diz que faz tudo isto. Vemos o Sporting, arrojado como tem sido nos nos últimos anos, a puxar os cordéis que pode para investir, a rechear-se de jogadores, este ano é que é - e a força do que tem de ser mais forte parece quando se é um clube português que gasta 47,9 milhões de euros em jogadores para ter uma equipa ganhadora.

E se, por essa altura, dissessem que a equipa para o qual o clube prioriza, mais que tudo, ser campeã nacional, iria estar a jogar assim, desta forma e com estes jogadores, a precisar de ganhar para, cinco dias depois, ir ao Dragão jogar com menos cinco pontos que o líder para, também lá, ter de vencer, talvez não acreditasse.

Mas, seis meses depois de gastar tanto dinheiro (e semanas após investir mais algum, perto de 16 milhões, no mercado de inverno), cá está o Sporting a jogar com um extremo a fazer de lateral esquerdo, um médio que tanto é trinco como oito a ser improvisado a lateral direito, um verdadeiro trinco a estrear-se como titular no campeonato à 24ª jornada e dois avançados que, juntos, têm um golo marcado no campeonato. Uma equipa retalhada pelo acumular de jogos, cansaço e pelo "síndrome gripal" que deixou "metade da equipa doente", diria Jorge Jesus, no final.

E, contra o Moreirense que é o último classificado e com um treinador novo (Petit) desde há uma semana, esta espécie de manta de retalhos demora a cozer-se.

A culpa não é, necessariamente, de Acuña, Battaglia ou Petrovic, os primeiros dois com ritmo e darem intensidade pelas alas, o terceiro a quase não falhar passes, a recuperar bolas e a dá-las a quem compete ser criativo com elas. A ser de alguém, até seria mais de Montero, ainda algo lento e sem explosão para explorar espaços, ou de Doumbia, um avançado incapaz de se adequar ao estilo de uma equipa que se habituou a dar e a receber aos primeiros toques de Bas Dost, e não aos raides forçados e por vezes trapalhões contra os defesas.

A culpa será de uma equipa que, ao final de fevereiro, com uma prova (Taça da Liga) e a disputar outras três, parece estar viciada nos seus próprios hábitos, previsível nas tabelas e toques que antes apanhavam os adversários surpresos com a sua imprevisibilidade. Um tempo que hoje sabemos ter estado ali entre setembro e outubro, quando o Sporting ganhava jogos atrás de jogos cá dentro e era batido, mas batia-se muito, lá fora, contra Barcelona e Juventus. Um pico de intensidade, rotação e qualidade de jogo que quase nunca se vê contra o Moreirense.

Porque rara é a jogada com mais do que cinco passes no meio campo adversário, em que não haja uma segunda bola ganha ou um ressalto pelo meio. Em que não se dependa apenas e só de Gelson para haver uma aceleração que desposicione adversários, em que não se espere para Bruno Fernandes ter a bola e, só aí, alguém atacar a profundidade ou partir em desmarcação.

Os leões têm as suas oportunidades, mas é depois de um ressalto em Doumbia que Bryan Ruiz pica a bola e Bruno Fernandes, à frente do guarda-redes, remata por cima; é após um remate atabalhoado e frouxo de Gelson, que lhe bate no corpo, que Ruiz fica isolado na área para, da mesma maneira, rematar para Jhonatan defender; é a atacar uma segunda bola perdida na área que Battaglia, ao segundo toque, a pontapeia para ela se ir perder na bancada. Apenas a segundos do intervalo há uma jogada entre Bruno Fernandes e Ruiz que acaba com a cabeça de André Pinto a falhar no desvio de uma bola à qual Bas Dost chamaria golo.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

O Sporting não era pior do que o Moreirense, mas não era tão melhor quanto, em teoria, deveria ser. E isso, aos poucos, fez Zito, Aouacheria, Arsénio e Tozé, acima de tudo tipos rápidos e frenéticos, explorarem o espaço e a apatia que existiam para rodearam a área anfitriã em várias jogadas.

Uns espaços e uma apatia que não esmoreceram, mesmo com uma entrada na segunda parte em que os leões foram mais intensos, verticais nos passes e, no fundo, menos erráticos - chegaram ao intervalo com 77% de passes certos e uma bola rematada na baliza. Gelson Martins, a vagabundear mais para longe da direita, rematou por duas vezes para Jhonatan parar ou desviar. Coisas que aconteceram já depois de Bilel Aouacheria marcar - e o VAR anular - na ressaca de um canto a favor dos leões, num contra-ataque em que a prevenção montada do Sporting foi desfeita em três passes.

Minutos volvidos, seria desmontada por um livre cruzado para a área, onde André Micael cabeceou a bola para Rui Patrício fazer a melhor parada do jogo. Que é como quem diz, salvar o Sporting, em casa, de se ver em desvantagem contra o último classificado do campeonato. Ficaria, contudo, a perder no número de jogadores aos 61 minutos, quando o árbitro mostrou um segundo amarelo a Petrovic, por Zizo cair sem que o sérvio lhe tocasse. Rafael Leão tinha acabado de entrar e o croata Misic, pouco depois, estrear-se-ia pelo Sporting.

A partir daí, o Sporting foi bolas longas, jogadores afastados uns dos outros, vários visivelmente cansados, demasiado espaço dado a defender, jogadas desconectadas e sem tino. Manteve-se seguro, em parte, porque o Moreirense, ansioso pelo ponto que já via e talvez zeloso por antecipação, também abrandou e não soube acalmar a bola nos seus pés.

Mesmo assim, caiu do céu o que aconteceu aos 90’+2, ou de um passe de Rafael Leão da esquerda para o outro lado do campo, ou da coxa de um adversário que desviou o cruzamento de trivela de Gelson Martins para a baliza. Tal como em Tondela, o Sporting marcava um golo e decidia um jogo do campeonato nos descontos. A sofrer, a lutar, a correr muitas vezes sem nexo, a batalhar com jogadores desconectados.

Na garra e na raça, até ao fim, três palavras que estavam na mensagem em crioulo (“cu bo ti fim de mundo”) que Gelson Martins mostrou, em apoio a Rúben Semedo (ex- jogador do Sporting que está em prisão preventiva, em Espanha) após marcar. Valeu-lhe valeu o segundo amarelo, a expulsão e o direito a ver o clássico contra o FC Porto na bancada. Mas, mesmo sem ele e com este futebol mais emperrado e aos solavancos, que fecha jogos a custo e à última, estas duas vitórias tardias mantiveram o Sporting na luta pelo título.

Até ao fim - ou, pelo menos, até sexta-feira.