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Ai Jesus, seu mentiroso

Mesmo uma versão algo lenta, pouca intensa e pressionante só às vezes do Sporting chegou para vencer (2-0, com golos de Fredy Montero) um Viktoria Plzen que não é, nem talvez venha a ser, o "bico-de-obra" de que JJ falava. Os leões estão bem encaminhados para chegarem aos quartos-de-final da Liga Europa

Diogo Pombo

Octavio Passos

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Fábio Coentrão, o mole, o contrário de corpo tonificado, o supostamente longe da melhor forma da carreira Fábio Coentrão, acaba de recuperar uma bola na metade do campo do Sporting; ele arranca e explode numa corrida como, até aqui, vivalma tinha disparado no jogo; vai, corre e não abranda o sprint até estar na iminência de chocar contra um checo, já bem perto da área; solta a bola para a esquerda, continua em frente. E recebe a bola picada por Bryan Ruiz com um improvisado e acrobático pontapé.

Essa acrobacia desvia a bola para a pequena área, onde cai no peito de Fredy Montero que a amortece para o pé direito com que o colombiano, como um laçarote que embeleza o embrulho de um presente, marca um golo em Alvalade, a meio da semana, à hora de jantar, com o estádio meio despido de gente. Esta jogada rápida, cativante, de futebol vertiginoso e bem executado, acontece aos 45’+1 e nem mais um segundo houve para jogar na primeira parte.

E, sim, se por acaso estão a pensar no porquê de ter saltado logo para aqui, há vários bons motivos - que, inversamente lógicos, são maus.

Porque só nesse minuto se viu algo de merecível relato. Algo que fugisse à pobreza que se contagiou a quase tudo o que um Sporting com campeões europeus de seleções (Rui Patrício e William), vencedores de Ligas dos Campeões (Jérémy Mathieu) e participantes em Mundiais (além dos já citados portugueses, também Coentrão, Coates e Ruiz), e um Viktoria Plzen, pronto, com um onze só com jogadores checos e de um país que, neste mundo redondo da bola, já viveu dias bem melhores.

Antes do golo, Bryan Ruiz, à entrada da área, já picara uma bola que Bruno Fernandes, sem a deixar bater na relva, rematara sem acertar na baliza. Bonito, mas ineficaz. Foi o quarto remate do médio, quase o único a preocupar-se, sempre, em fazer passes para a frente, que quebrassem linhas, pelo meio dos insistentes cruzamentos de Acuña (que ainda rematou à barra) para os comentadores televisivos nos relembrarem que Bas Dost não estava em campo, e das demasiadas bolas jogadas para o lado, lentas e sem pressa.

Tanta era a letargia, falta de ideias e pouca rapidez do jogo ofensivo dos checos - daí, em parte, o Sporting só fez a primeira falta aos 26 minutos - que essa condição parecia contagiar-se aos leões, pouco agressivos a atacarem os buracos de espaço entre as linhas de uma equipa previsível, cuja única (parca) vantagem residia em ter tipos maiores, mais fortes e pesados que beneficiavam quantos mais duelos físicos houvesse.

Mas, para piorar os males do Viktoria Plzen, poucos se viam porque não se aproximavam da velocidade dos dribles de Gelson, mesmo que inconsequentes, ou das tabelas de Ruiz e Bruno Fernandes, embora para se livrarem mais da pouca pressão dos checos do que para atacar a baliza.

NurPhoto

O Sporting era, é e, prevendo, continuará a ser melhor que o Plzen, de tal maneira que um ligeiro carregar no acelerador no arranque da segunda parte bastou para haver outro golo, num dos momentos em que se vê a fibra das equipas: numa recuperação e saída de bola checa, os leões pressionaram logo, Bruno Fernandes recuperou a bola, lançou Montero, o colombiano fez um adversário rodar o corpo, ganhou espaço e o pé esquerdo ajeitou o 2-0.

O Sporting ainda manteve o ritmo, fez-se um caçador de bolas perto da área adversária, pressionando as saídas de bola e acelerando as jogadas em que partia de trás. Montero pedalou numa bicicleta de volante torto. Uma cavalgada de Bruno Fernandes acabava, na área, a rematar contra o guarda-redes, correspondendo a um fuga de pressão de William e uma receção e um passe de lã de Montero. Houve cruzamentos perigosos e remates esperançosos, como um de William.

Ou seja, durante algum tempo, os leões jogaram à vontade, com espaço, ao ritmo que queriam, a levarem a melhor dos duelos e a passarem a bola quase sem pressão.

Só que as facilidades, às tantas, provocaram a mais previsível das consequências. A equipa relaxou, os jogadores, aos poucos, distraíram-se e as más decisões apareceram. Coates perdeu uma bola e tocou-a com a mão, William fez uma falta quando tinha cobertura a um adversário sem espaço para avançar, ambos viram um cartão amarelo que os tirará do jogo da segunda mão, na República Checa, na próxima semana.

E ali entre os 75 e os 85 minutos, o modo de atacar do Plzen - que consistia, sempre, em levar a bola até um dos extremos, deixando-se sem apoios e hipóteses a curta distância, para que ele a curvasse num cruzamento rumo à área - assustou o Sporting um par de vezes. Avançados isolados, pés quase a desviarem passes, uma equipa inferior e limitada a ameaçar ser perigosa como qualquer conjunto de futebol é se lhe oferecerem tempo e espaço.

Duas coisas que o Sporting dispôs, com bola, durante quase toda a partida, como na última jogada em que Rúben Ribeiro desmarcou um Mathieu ainda com pernas para fechar um contra-ataque a sprintar e a rematar. O Viktoria Plzen é uma equipa lenta, previsível, pouco criativa e sem gente que arrisque coisas com a bola, em nada condizente à expressão “bico-de-obra” que Jorge Jesus utilizou, antes do jogo, para descrever a tarefa que seria eliminar estes checos.

Os leões, sim, tinham e talvez continuem a ter vários jogadores lesionados, sim, continuam a estar num momento de forma assim-assim, com demasiados nomes aparentemente cansados em demasia.

Mas, não, mentiroso só pode ser quem diga que os checos poderiam incomodar o Sporting por aí além - a não ser, claro, que a equipa de Jesus piore a pouca intensidade, velocidade e pressão que hoje colocou em campo.