Tribuna Expresso

Perfil

Sporting

A história repete-se: o presidente e o líder da Mesa da AG às turras no Sporting

Agora vemos Bruno de Carvalho a trocar argumentos publicamente com Jaime Marta Soares, mas antes vimos Godinho Lopes e Eduardo Barroso a criticarem-se em campo aberto, até ao anterior presidente do Sporting se demitir e abrir caminho a BdC. É verdade que as circunstâncias e o contexto são diferentes, mas esta é uma história a que já assistimos - o líder da direção do clube e o dirigente que pode convocar um ato para o levar a votos a contestarem-se em público

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Partilhar

O clube é o Sporting. As coisas chegaram a um ponto em que o presidente, publicamente, anda às turras com o líder da Mesa da Assembleia Geral; esse dirigente responde com pistas de que poderá convocar extraordinariamente os sócios, para se pronunciarem sobre a continuidade do presidente; e o Sporting fica rodeado de dúvidas, rumores, questões e, claro, instabilidade.

É, de facto, o que está a acontecer entre Bruno de Carvalho e Jaime Marta Soares nas últimas 48 horas, mais coisa menos coisa. Mas este cenário não se aplica apenas ao hoje e agora. Sem sabermos, ainda, onde tudo isto vai parar, já houve um ontem e um passado em que a descrição feita em cima também poderia assentar. Um tempo que inventou as condições para o Sporting ter o presidente que tem nesta segunda-feira de abril, em 2018.

Houve um dia, em 2013, em que Bruno de Carvalho venceu umas eleições, convocadas antecipadamente, porque o presidente que o antecedeu se demitiu face a muitas coisas que jogavam contra ele - os maus resultados desportivos, a instabilidade de treinadores e jogadores que isso causava, as críticas dos adeptos, a instabilidade no clube - e a ameaça de um dirigente em convocar uma Assembleia Geral extraordinária.

Esse tempo começou em março de 2011, quando Godinho Lopes é declarado como presidente do Sporting, já a noite ia longa e próxima das 6 horas. A eleição está imersa em polémica, o principal adversário, Bruno de Carvalho, que perde por 360 votos, contesta os resultados, mas consegue eleger o candidato à Mesa da Assembleia Geral da sua lista. É Eduardo Barroso e a novidade tão tarde aparece nessa noite que ele nem comparece na cerimónia de tomada de posse.

Com essas suspeições, embora se vão desvanecendo com o tempo, o clube planeia a época e esses dirigentes, mesmo ali chegados vindos de sítios distintos, atinam um com o outro. “O Sporting está uno, indivisível e pluralista. Devo dizer que o trabalho está a ser feito de forma positiva, unificadora e estou de alma e coração com os corpos dirigentes. O meu empenho está em apoiar este presidente”, refere, pujante e contente, Eduardo Barroso, sobre o Godinho Lopes que, meses antes, não apoiava.

Aí estamos em junho de 2011.

O conhecido médico cirurgião, popularizado, com os anos, pela sua presença televisiva, mantém-se como um líder da Mesa da Assembleia Geral apoiante em novembro, quando a equipa de futebol começa a titubear após uma série de 10 vitórias consecutivas. “O presidente acha que não devemos meter tudo em causa em função dos resultados desportivos. Eu estou com ele. Godinho Lopes tem uma dedicação exemplar, com uma vontade que tudo corra bem. Estamos consigo quer a bola entre ou não”, garante.

E, em fevereiro de 2012, tudo muda. As derrotas aparecem mais vezes e direção de Godinho Lopes, bem portuguesa, despede Domingos Paciência. O campeonato é motivo de desesperança, entra Ricardo Sá Pinto e a lei da garra, esforço, querer e correr dá uma pujança à equipa, que chega às meias-finais da Liga Europa e à final da Taça de Portugal. A época termina sem títulos e com um 4º lugar no campeonato.

A temporada seguinte arranca com o mesmo treinador, variados jogadores vendidos e contratados e dois vice-presidentes já saídos do clube, a mal: Carlos Barbosa, por alegados “motivos profissionais” e, meses depois, Paulo Pereira Cristóvão, por ser constituído arguido no caso judicial que investigava a armadilha feita a José Cardinal, árbitro assistente de Artur Soares Dias, antes de um jogo entre o Sporting e o Marítimo, para a Taça de Portugal.

Repetem-se os empates, as derrotas sucedem-se e Eduardo Barroso só espera até agosto até mostrar o seu desagrado, com o gatilho da venda de Matías Fernandéz à Fiorentina. “Estou muito desiludido, mas se calhar é um ato de gestão brilhante, se o explicarem.... Posso não achar que seja, mas se me explicarem e explicarem também aos sócios do Sporting que face aos condicionalismos era um ato de gestão correto se calhar ficamos todos a dizer, 'olha boa medida'”, aponta, em entrevista à “Antena 1”.

No dia seguinte, sem ripostar ou atacar, Godinho Lopes assegura que ambos conversam regularmente por telefone e atribui os comentários do dirigente ao “ambiente de férias e descontração” que o rodeio, por estar “fora de Alvalade e de Lisboa”. Ainda não é uma guerra, mas abre-se uma troca de palavras a campo aberto.

Tudo o que é resultado desportivo piora e, em outubro, já com Luís Duque e Carlos Freitas demitidos da direção do futebol, o presidente despede Sá Pinto e decide-se por Franky Vercauteren.

O treinador belga ainda nem tempo teve para tentar melhorar a vida futebolística do clube e já Godinho Lopes revela, na RTP, que tem problemas com o cirurgião feito líder da Mesa da Assembleia Geral: “O doutor Eduardo Barroso por vezes comporta-se como um adepto e é importante que perceba que de facto é presidente da assembleia geral”. Na mesma entrevista, queixa-se do escrutínio feito por “uma série de comentaristas [televisivos] que vivem à conta do Sporting”. Onde é que já ouvimos, ou lemos, algo parecido?

Domingos Paciência era o grande trunfo de Godinho Lopes

Domingos Paciência era o grande trunfo de Godinho Lopes

João Relvas/Lusa

O choque de uma direção com uma Mesa da Assembleia Geral

Em dezembro, a contestação aumenta bastante, fala-se que Vercauteren já foi despedido e nem o sabe. Eduardo Barroso, mesmo desanconselhado por membros dos órgãos sociais, dá uma entrevista ao jornal “A Bola” que é uma espécie de ameaça codificada nas entrelinhas. “Eu se fosse a ele demitia-me e ia a votos para legitimar a posição. É preciso ouvir os sócios, sim. Mas não tem de ser uma AG para destituir a Direção! É para ouvir os sócios. Só isso”, argumenta, dizendo que estava a ponderar o que fazer, duvidoso se seria possível ter uma AG sem “gritos ou peixeiradas” com o clima que detetava em torno do Sporting.

Um clima ao qual Godinho Lopes nem dois meses resiste.

Já com Jesualdo Ferreira como treinador e a equipa a arrastar-se em resultados e exibições que a têm na vizinhança de uma 10º lugar no campeonato, o presidente apresenta a demissão. O insucesso desportivo, as críticas e as incerteza da estabilidade na relação com Eduardo Barroso cada vez mais certa, fazem Godinho Lopes abdicar do cargo diretivo a 4 de fevereiro de 2013.

As eleições que seriam ganhas por Bruno de Carvalho são convocadas por Eduardo Barroso para o mês seguinte. Ele também sai para dar lugar a Jaime Marta Soares, o sucessor na liderança da Mesa da Assembleia Geral.

Tudo nem sempre corre às mil maravilhas, mas sempre melhor do que a convivência entre os anteriores detentores dos cargos. Os resultados no futebol melhoram, as contas mais ainda, investe-se ao ponto de seduzir o treinador do maior rival e o Sporting, é um facto, melhora em quase todos os aspetos.

Até que, feitas quatro épocas completas com Bruno de Carvalho, e sem que o Sporting se agarrasse a mais do que três taças em épocas separadas (uma Taça de Portugal, 2014/15, uma Super Taça, em 2015/16, e uma Taça da Liga, já em 2017/18). À medida que o investimento no futebol cresce, aumentam em igual medida as intervenções do presidente no Facebook, por ele descrito como o “único canal de informação próprio” que tem. Agradam a uns, desagradam a outros, como tudo na vida, até ao dia em que desgostam comprovadamente os jogadores da equipa principal, que demonstram publicamente na passada sexta-feira.

Aí se deu início a uma guerra de contra-posts em redes sociais entre futebolistas e um presidente, que cresceu ao ponto de obrigar os adeptos a escolherem lados e a manifestar a escolha no estádio. Repartidos os aplausos e os apupos, Bruno de Carvalho bateu o seu pé por não gostar do que ouviu.

E Jaime Marta Soares, captando todos esses sons, decidiu, ao que parece, apontar o dele rumo a uma Assembleia Geral extraordinária que, a ser convocada, levará a votos o mandato do presidente do clube, por não considerar que o Sporting possa estar em paz com Bruno de Carvalho.

Agora, com ou sem paz, parece improvável que Bruno de Carvalho faça o que Godinho Lopes fez, há cinco anos. E incerto é o que poderá acontecer (como votarão os sócios) caso Jaime Marta Soares faça o que Eduardo Barroso apenas intuiu que ia fazer.