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O filme de 72 horas que empurrou Bruno para o exílio começou há quatro anos

Os problemas com o plantel não eram de agora, mas de 2014. Aquele post precipitou o fim da relação entre os jogadores e o presidente que chegaram quase a vias de facto na reunião de sábado, em Alvalade. Esta é uma história de Facebook, claques, notas de culpa e de duas formas distintas de olhar para o futebol

Pedro Candeias

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As coisas começaram a dar para o torto quando Bruno de Carvalho entrou no Facebook para criticar as equipas A e B pelas derrotas contra o Vitória de Guimarães e Atlético Clube de Portugal. Foi em novembro de 2014 e Adrien Silva, William Carvalho e Rui Patrício não gostaram das críticas. BdC não gostou que eles não tivessem gostado das críticas.

Abriu-se o debate filosófico: os futebolistas acham, sempre, que um presidente não tem nada que se meter na vida de um balneário; este presidente acha que os futebolistas são prime donne que vivem numa redoma. Era uma questão de tempo até estas ideias colidirem ruidosamente no futuro.

Só que em 2014 ainda havia uma válvula de escape para aliviar a tensão: BdC atribuiu o mediatismo do FacebookGate a um plano desenhado pelo treinador Marco Silva para lhe fazer a cama, e cavalgou este argumento publicamente. E então, na época seguinte, saíram Marco Silva e alguns futebolistas que tinham o mesmo agente do técnico – e entraram Jorge Jesus e muitos futebolistas pedidos por ele que varreram os ressentimentos para debaixo do tapete.

Um novo treinador, sportinguista do coração e acabadinho de chegar do clube rival com três títulos de campeão e duas finais da Liga Europa no currículo, iria consertar o plantel. A estratégia tinha lógica e seguiu em frente, com mais ou menos atrito, um futebol vistoso e de ataque e um campeonato perdido por apenas dois pontos.

Até que, em janeiro de 2017, Bruno de Carvalho irrompeu inesperadamente aos berros porta adentro no balneário do Desportivo de Chaves, após o empate (2-2). Os tais futebolistas, mais Bas Dost, enfrentaram o presidente numa discussão que aqueceu ao ponto de Bruno de Carvalho ter de sair por onde tinha entrado.

Para o plantel, aquela não era a hora nem o lugar para conversas assim; para o presidente, a hora e o lugar e o contexto são indiferentes quando se quer passar a mensagem. Afinal de contas, é ele quem paga as contas e quem paga as contas é quem manda.

Pois que, no dia seguinte, Adrien Silva e William Carvalho, capitão e sub-capitão, gravaram um vídeo à SportingTV a assumir problemas banais entre homens que jogam à bola e um presidente sempre presente que não gosta de perder pontos. William e Adrien pareciam acreditar tanto no que estavam a dizer, como o médico perante a fratura exposta do paciente que diz: “Isto não vai deixar marcas”. Mas deixou, e esta era segunda vez que os capitães se punham contra BdC; até chegar a terceira teríamos de esperar oito meses.

Novamente, uma questão de timing.

O capitão de saída

Estava escrito nos astros que algo iria correr mal com a transferência de Adrien. Se já antes fora assim, porque iria ser diferente naquele verão de 2017? O jogador e os clubes eram os mesmos, Bruno de Carvalho continuava igual. E quando as negociações entre o Sporting e o Leicester duraram até às tantas no dia 31 de agosto de 2017, aconteceu que Adrien ficou em pousio até janeiro: com clube, mas sem poder jogar. Bruno de Carvalho e o clube atiraram as culpas para os ingleses, William e Rui Patrício torceram o nariz à argumentação e, sobretudo, não gostaram de ver Adrien suspenso no éter; se aquilo tinha acontecido com o capitão, podia acontecer-lhes também.

Depois do Mundial2018, decidiram, Alvalade ficaria para trás.

E assim correu o marfim, com Bruno de Carvalho dentro e fora do Facebook, o Sporting dentro, fora ou mais menos afastado da corrida do título, o Benfica a ser apertado pelo Ministério Público e pela Polícia Judiciária, as televisões a arderem com comentadores, as suspeitas penduradas por denúncias anónimas e BdC a ser vitoriado numa AG que serviu para legitimar o que já fora legitimado nas urnas - a sua quase unanimidade entre os sportinguistas e a carta branca para exigir aos adeptos que deixassem de ver TV e de ler jornais desportivos.

Bruno de Carvalho tinha esticado o seu estilo até ao limite, mas ainda assim era possível encapsular aquilo dentro da realidade brunista. Depois, o Sporting perdeu com o Atlético e a realidade mudou para sempre.

Os miúdos mimados

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Bruno de Carvalho vestiu a pele de especialista e escreveu no Facebook que Gelson pusera mal o pé, que Coates e Mathieu eram avançados do Atlético, que Coentrão e Bas Dost tinham levado cartões amarelos despropositados.

O timing, outra vez: o post foi lançado à internet minutos depois da derrota, e na conferência de imprensa perguntaram a Jesus o que achava daquilo. O tema cristalizou, os acontecimentos sucederam-se a uma velocidade vertiginosa, as informações atropelaram-se, o bom-senso também, e tudo ruiu no momento em que Bruno de Carvalho ligou em direto para a CMTV.

Luís Filipe Vieira vintage.

Logo na manhã seguinte, sexta-feira, os jogadores foram a Alvalade e exigiram a presença de Bruno de Carvalho: queriam que “o presidente dissesse as coisas na cara”, mas o presidente estava numa audiência na PGR e não se “iria encontrar” com eles. “Nós esperamos o que for preciso”, disseram, só que esperaram por Godot e no entretanto combinaram com Jorge Jesus e com a estrutura leonina uma reunião para sábado.

A conversa morria ali e era assim que estava para ser, não tivesse um dos jogadores recebido uma chamada da Juve Leo, a poderosa claque de Alvalade: “o presidente disse-nos para colocarmos tarjas a insultar-vos no jogo”.

BdC tinha pisado a linha vermelha pela última vez.

Os capitães, fartos de BdC e com a saída do Sporting em perspetiva, forçaram a posição e engrossaram a voz: arregimentaram as tropas e publicaram um longo texto contra o presidente do Sporting Clube de Portugal que o apanhou completamente desprevenido.

A resposta foi pronta e violenta: os 19 futebolistas (depois, 17) “mimados” tinham assinado o manifesto anti-BdC - e que não participaram numa ação de solidariedade da Fundação Sporting num jogo anterior - estavam automaticamente suspensos.

À noite, as portas da SAD foram fechadas e ninguém estava autorizado a cruzar os corredores enquanto os advogados redigiram as notas de culpa que começaram a cair nas contas de e-mail dos futebolistas por volta da uma da manhã. Desrespeito à hierarquia, desobediência ao presidente, violação do código de conduta, etcetera.

Virtualmente, era o fim. Na realidade, o pior ainda estava para vir.

Alguns insultos, duas reuniões

Na manhã de sábado, plantel, direção e equipa técnica encontraram-se frente a frente em Alvalade e ainda os jogadores estavam a pôr o pé na porta, já Bruno de Carvalho os insultava e berrava contra aquilo que considerava ser a suprema traição. Dois ou três deles não se contiveram, houve ameaças físicas e gente com sangue frio suficiente para travar uma rixa desigual. Jorge Jesus foi um deles.

A reunião posterior ao final da tarde em Alcochete foi mais urbana e nela se decidiu que a suspensão daria lugar ao processo disciplinar; acima de tudo, acordou-se que Jesus iria jogar com os melhores frente ao Paços de Ferreira. Havia uma ténue esperança de que o plano iria correr bem: o Sporting ganharia, os adeptos aplaudiriam os futebolistas, os resultados é que contam, a vida continua, isto é só bola.

Havia também um problema por resolver: o plantel não queria BdC no banco de suplentes. Nunca quis, mas agora queria ainda menos, mas ninguém lho disse, esperaram apenas que ele chegasse a essa decisão por si. Só que Bruno lá entrou, assobiado, vaiado, insultado, enquadrado dentro de cartazes que pediam a demissão, sentando-se ao lado de André Geraldes, o team manager do SCP. Pela primeira vez na sua vida de presidente, a vida que sempre sonhara e para a qual trabalhara, Bruno de Carvalho sentiu-se posto de lado pelos jogadores e pelos adeptos; na flash interview, o treinador daria o golpe mestre. “Estive sempre do lado do Sporting Clube de Portugal, que é o lado dos jogadores”. BdC estava isolado e fragilizado, mas ainda tinha luta dentro dele para três últimos contra-ataques.

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Primeiro: sem avisar ninguém, entrou na sala de imprensa depois do jogo, disparou contra os adeptos (“vão insultar a família deles”), deixou recados ao treinador (“eu nunca vesti outra camisola que não a do Sporting”) e garantiu que não se demitiria. Se os sportinguistas quisessem, havia um lugar para isso – a AG.

Segundo: chamou de traidor a Jaime Marta Soares, no Facebook, por querer convocar uma Assembleia Geral que lhe destruiria o sonho presidencial.

Terceiro: encerrou a sua conta no Facebook, garantindo que não era ele quem perdia, mas o Sporting, pois ficaria sem a voz ativa que alertara o país para “os vouchers”, que conseguira “a consagração de Peyroteo” e que “denunciara os corruptos”.

Depois, foi conduzido pelos mais próximos ao exílio napoleónico. Regressar não depende apenas dele.