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Juntos, ou pelo menos unidos, somos mais fortes

Todos a puxarem uns pelos outros, a insistirem celebrar os golos todos juntos e a unirem-se em "comportamentos de notório reforço positivo e encorajamento entre os atletas", como disse Ana Bispo Ramires, psicóloga clínica e desportiva, à Tribuna Expresso. Não há jogos que se ganhem só com isto, mas se há coisa que, após o bate-pé com Bruno de Carvalho, os jogadores mostraram contra o Paços de Ferreira – e podem mostrar frente ao Atlético de Madrid (quinta-feira, 20h05, SIC) – foi isto: uma "extrema união"

Diogo Pombo

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Mais outra cabeçada de Bas Dost na bola dá golo e ele, costumeiro como é, vira-se para a bancada mais próxima, agita os braços abertos e grita. Se há algo no ato de marcar um golo que foi banalizado com o tempo é ver os jogadores a aglomerarem-se no festejo. A euforia do autor contagia a alegria de quem o rodeia, é normal. Mas, ali, é diferente e a diferença está na forma como os outros nove jogadores de campo correm até ao holandês, até todos estarem abraçados. Até se juntarem numa roda apertada, como se um sussurro guardasse um segredo proibido.

Mais um toque do pé esquerdo de Bryan Ruiz na bola, que é um remate e arqueia a bola e resulta em outro golo. O costa-riquenho vira-se para um canto do relvado, corre e pára quando chega aos jogadores do Sporting que ali estão a aquecer os músculos.

Sejam de campo ou de baliza, todos se vão ali juntando. Há quem chame os suplentes, tudo de pé já, e acorra ao festejo conjunto. Forma-se um abraço com dezenas de braços e parece que este 2-0 ao Paços de Ferreira significa mais do que marcar o segundo golo a uma equipa inferior, pior em tudo o que é jogo, que está dez lugares abaixo na classificação.

Tenha sido, ou não, combinado ou apalavrado, estas demonstrações públicas de todos a remarem na mesma direção e de um por todos e todos por um tem um significado maior.

Cumpridas, mais ou menos, 72 horas após a ira facebookiana de Bruno de Carvalho, os jogadores responderam com um texto instagramado. E o significado de tais gestos no jogo contra o Paços terá sido uma demonstração de que, por estes dias, em que conflitos já nascem ou são amplificados nas redes sociais, eles estão ligados com uma “extrema união”.

Viram-se jogadores do Sporting a partilharem “manifestações de grande entusiasmo, validação e reforço de coesão”, destacou à Tribuna Expresso Ana Bispo Ramires, psicóloga clínica que validou tudo como “natural”. Assim como as palmas incentivadoras, os gritos de apoio a um passe falhado ou um remate desastrado, os gestos que tentam puxar a motivação de quem se tem a jogar ao lado. Coisas que a especialista em psicologia de performance desportiva considera serem “comportamentos de notório reforço positivo e encorajamento entre os atletas”.

Pequenas manifestações, explica, que podem acontecer “em eventuais situações de erro ou insucesso”. O tipo de situações das quais até La Palisse se riria, pois não há jogador que não erre ou se engane durante um jogo de futebol. Os passes falhados, as desconcentrações, as falhas de marcação, o adversário fugir e ninguém o acompanhar, reduzir isto ao máximo depende de muitas coisas.

E ter os jogadores unidos, a puxarem uns pelos outros, com o "eu" a sentir que pode ser melhor porque toda a gente o apoia e diz que vai conseguir, é uma delas.

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Foi sempre a união, em parte, que fez as equipas do Manchester United, em 1999, do Liverpool, em 2005, ou da Roma, esta terça-feira, fugirem às trevas de uma derrota que se julgava certa. O futebol é um jogo de pés, cabeças, jogadas e intenções e modos de querer fazer as coisas que chocam e que ganhe o melhor - onde, às vezes, também ganha a equipa que for mais unida, tiver mais garra e quiser mais.

Um finca-pé público com o presidente, com suspensões e processos disciplinares ao barulho, não é a causa ideal para que os laços entre os jogadores dos Sporting fiquem como parecem estar. Mas é isso que bem pode ajudar a equipa esta quinta-feira, quando tentar virar a derrota (2-0) da primeira mão, contra o Atlético de Madrid. “A questão de fundo será se, a viver uma fase de natural adversidade, [o Sporting] consegue ou não manter os níveis de coesão alcançada, se os resultados desejados não surgirem”, explica Ana Bispo Ramires, que trabalhou durante 10 anos no departamento de futebol do Benfica e, mais tarde, com Luiz Felipe Scolari e com Rui Patrício, guarda-redes do Sporting.

O desejo é ganhar por 3-0, se os espanhóis não marcarem, ou fazer, pelo menos, quatro golos, caso o Atlético faça um, e por aí fora na vida das probabilidades. Os de Madrid, porém, têm o pormaior de apenas irem com 10 golos sofridos em 2018 e de não se importarem de deixar a bola no adversário, de bom grado, para criar o engodo de ser ele quem está no controlo das operações.

Os jogadores que Diego Simeone põe a correr, como malucos em desespero, também perfazem a equipa da Liga Europa que, em média, menos remates concede a quem os defronta (9.8 por jogo, segundo o WhoScored). Havendo necessidade de remontar uma eliminatória, eles são o adversário que menos se desejaria encontrar. E se, mesmo com tanta aparente união, entreajuda e grupo fortalecido, o resultado não for o pretendido, “é expectável” que “treinador e capitães possuam as competências necessárias” para esse tal desafio de manter a equipa como está.

Portanto, a comportar-se como quem pensa que juntos - ou, pelo menos, unidos como parecem estar -, são mais fortes.