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E agora, já se pode respirar?

Num jogo com sete golos, três penáltis, muitos remates e praticamente 23 jogadores em campo, com tanto uso que se deu ao VAR, o Sporting foi capaz de sair do Restelo com a vitória (3-4) contra um Belenenses ousado e espetacular. Os leões ficam a três pontos do Benfica e só dependem deles para chegarem ao segundo lugar do campeonato

Diogo Pombo

ANT\303\223NIO COTRIM

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Não vos querendo maçar com a velha, embora sempre pertinente, desigualdade de dinheiros, salários, orçamentos - e, por conseguinte, desnível na qualidade de jogadores, equipas e futebol praticado -, é sempre bom ver uma equipa no lado desfavorecido desta vida a comportar-se desta maneira, contra uma equipa que prospera na ponta oposta.

Uma maneira cujos traços vos resumirei, já a seguir, assim que descrever a forma como uma equipa correu contra o tempo no Restelo e, nem com três minutos de jogo, teve Licá a rematar, na área, uma bola que Rui Patrício defendeu não agarrou e, depois, tentou socar dali para fora, acabando por esmurrar a cara de Yazalde. O golpe desferido pelo guarda-redes, batido na cara do avançado, descortinado pelo videoárbitro e rematado por Yebda deu o 1-0 ao Belenenses.

É aqui que fomos obrigados a suster a respiração.

Precisamente a equipa de parcos recursos, bons e medianos jogadores e aspirações tímidas, que em janeiro passou a ter Silas. Com a insistência do futebolista recém-virado treinador, o Belenenses adotou a tal forma de louvável de jogar: os pés do guarda-redes a serem, os centrais abertos a construírem pela relva, a equipa a querer sair com a bola controlada desde trás, toda a gente a preferir jogadas apoiadas, passes curtos e todos a avançarem juntos, no campo.

Esta maneira de jogar, sendo a equipa e o clube como são, é louvável. Porque se vê uma equipa pequena a igualar uma grande no número de passes, na posse de bola, no domínio territorial do campo e nos quilómetros que obriga os adversários a correrem atrás, coisa que nenhum futebolista aprecia.

Mas, a certa altura, especialmente em jogos como este, surge aquele lema de tudo na vida não ser só uma questão de querer, mas de poder.

O Belenenses, querendo ousar-se desta maneira, também deixa mais espaço entre os defesas e a baliza, e entre os jogadores no geral. Ou seja, expõe-se mais o erro. E como foi errando muito, tipos como Bruno Fernandes, Bas Dost, Gelson Martins e Acuña lembraram da cruel e árdua realidade que, muitas vezes, significa o tal poder.

O médio inventou duas vistosas assistências - sobretudo a primeira, um passe cortado pelo ar, a 40 metros -, o avançado marcou um golo só com dois toques, o extremo português mostrou a arte da desmarcação veloz para marcar outro e o argentino a naturalidade com que se recebe e se roda com a bola, para a rematar. O jogo aberto, dinâmico e divertido tinha mais culpa no lado do Belenenses, mas era o Sporting que ganhava por 1-3 ao intervalo.

Um resultado que, perante as circunstâncias, achou por bem guardar, resguardando-se na vantagem no marcador, na qualidade dos jogadores e no controlo que, de facto, tinha sobre o jogo. Os leões abrandaram, já com um sem rotinas Wendel em campo e Acuña à esquerda da defesa (saiu Fábio Coentrão). Deixaram de ser tão agressivos a atacar os muitos espaços que existiam, face às maneiras de fazer as coisas que coincidiam em campo.

Os do Restelo, puxados por Silas e pela intensidade que foram aumentando, foram-se aproximando mais da área e rematando à baliza de Rui Patrício. Queriam ressuscitar no jogo e assim que o calcanhar de Fredy ligou uma tabela com Florent, conseguiram-no: o lateral correu até à área, cruzou rasteiro e Licá, de primeira, rematou para voltar a abanar com as coisas.

Cinco minutos passaram até o relaxamento do Sporting dar tempo à saída de um passe longo e abrir espaço nas costas de Acuña. A bola lá entrou, o mesmo Licá chegou primeiro e o argentino depois. Houve um empurrão nas costas e um penálti que Fredy bateu com tabela no poste - e passou, definitivamente, a haver um 23º jogador no campo.

Essa foi a segunda vez que o videoárbitro deu uma ajuda e a última foi a dez minutos do final, quando ele viu uma cotovelada de Yebda na cara de Bas Dost, após ver o holandês deitado na relva. No meio de tudo isto e da imensidão de espaço aberta por um jogo que o Belenenses quis manter aberto, desde o arranque - porque, nestas partidas, são os pequenos que o ditam -, Florent fez uma bola bater na barra da baliza de Patrício.

Nesta espécie de caos provocado à força, metáfora para um jogo de futebol com equipas a especularem com o espaço, os passes e um jogo de posse, ganhou quem tem os melhores jogadores, mas não ganhou só por isso. O dito pequeno Belenenses, uma vez mais, roubou a bola (49%-51%) a um Sporting chamado grande, superando-o nos passes (481-357), nos remates (11-13) e nos toques na bola (620-502). E, quase, nos golos.

E nesse quase houve o aproveitamento do Sporting, cuja vitória frenética e suada chegou para aproveitar o resultado do clássico e ficar a três pontos do Benfica. Pronto, já podem respirar.