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Sporting: Posts, ironias, críticas e uma Taça de Portugal pelo meio. Este é um filme que já todos vimos, não é verdade?

Recados no Facebook, mensagens em conferências de imprensa, opiniões discordantes e uma final da Taça de Portugal por disputar. O processo de Jorge Jesus faz em muito lembrar aquele que levou ao despedimento do seu antecessor, Marco Silva

Lídia Paralta Gomes

Gualter Fatia/Getty

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Última jornada, campeão decidido, mas 2.º lugar ainda em aberto. Há milhões da Champions para ganhar e o Sporting tem a vantagem de depender de si próprio para garantir pelo menos a pré-eliminatória da Liga dos Campeões, depois do nulo com Benfica de há uma semana.

Mas o Sporting joga pouco, perde na Madeira, Rui Patrício não agarra uma bola fácil e os adeptos ficam enfurecidos com os jogadores, com um ano em que, para lá do título, se falha o objetivo seguinte, aquele que minimiza a ferida do insucesso desportivo com a pomada do dinheiro europeu.

E a posição de Jesus fica muito frágil.

Estes processos não acontecem por uma derrota, por um jogo menos brilhante, por um objetivo não conseguido. Acontecem por desgaste e Jesus parece agora numa situação de risco, um risco que nem uma vitória na Taça de Portugal parece ser suficiente para conter.

Porque esta foi uma época que termina com muitos danos entre balneário e direção. Há jogadores de costas voltadas com o presidente e as últimas declarações de Jorge Jesus e Bruno de Carvalho fazem crer que entre os dois tudo também já foi mais cor de rosa.

Mas já não vimos este filme algures? E precisamente antes de Jorge Jesus chegar a Alvalade?

Vamos então recuar três épocas. Há três anos o Sporting estava, mais coisa, menos coisa, na mesma situação. Com Marco Silva no comando, terminaria a liga de 2014/15 no 3.º lugar, mas com hipótese de acabar a temporada com uma vitória na Taça de Portugal, mesmo que o ambiente fosse tudo menos bom.

A vitória na Taça, o primeiro troféu dos leões em sete temporadas, não seria suficiente para Marco Silva ficar: a relação entre o treinador e Bruno de Carvalho há muito estava deteriorada, praticamente desde a pré-época e o treinador acabou despedido por justa causa.

O caso Rojo, o post no Facebook, o fato oficial

O mal-estar entre Bruno de Carvalho e Marco Silva começou em plena guerra entre Doyen e Sporting pelo passe de Marcos Rojo. Num particular com o Nacional de Montevidéu, e perante a possibilidade iminente do argentino deixar o Sporting, a Doyen terá pedido para Rojo não jogar. Bruno de Carvalho recusou, mas Marco Silva, cujo empresário era muito próximo de Nélio Lucas, CEO da Doyen, não utilizou o argentino. Na conferência de imprensa sublinhou que não tinha de justificar a sua opção.

Marco Silva também se terá demarcado de uma suposta tentativa de agressão de Rojo a Bruno de Carvalho, negando estar presente, apesar de alguns responsáveis do Sporting dizerem o contrário. Ainda no início da época, o treinador mostrou-se solidário com Rojo e Slimani, suspensos pela direção por alegadamente terem forçado a saída de Alvalade.

Marco Silva saiu do Sporting em rutura com Bruno de Carvalho depois de conquistar a Taça de Portugal

Marco Silva saiu do Sporting em rutura com Bruno de Carvalho depois de conquistar a Taça de Portugal

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Bruno de Carvalho viu nestas atitudes falta de solidariedade do treinador e após derrota por 3-0 com o V. Guimarães, em novembro, crítica a equipa num post do Facebook. Marco Silva responde nas conferências de imprensa, onde frisa que prefere criticar “cara a cara”.

Em finais de dezembro, mesmo em pleno blackout do Sporting à comunicação social, a imprensa desportiva dá como certa a saída do treinador, que acaba por se manter até ao fim da temporada mas sempre com a porta de saída à vista. Poucas dias depois da conquista da Taça, estava confirmada a saída do treinador, ficando para o anedotário do futebol português uma das justificações apresentadas pelo Sporting para avançar com o despedimento por justa causa: o facto de não ter utilizado o fato oficial do clube numa eliminatória da Taça de Portugal, frente ao Vizela.

O Facebook terá também um papel importante no que poderá ser uma saída sem glória de Jesus de Alvalade. É que foi a partir da célebre publicação de Bruno de Carvalho na rede social após a derrota do Sporting em Madrid, frente ao Atlético, que as trocas de palavras mais ou menos crípticas entre treinador e presidente avolumaram.

Jesus, depois de surgir na história como uma espécie de mediador no conflito entre o plantel - que terá chegado a ameaçar não treinar e, de forma concertada, publicou nas redes sociais uma nota de repúdio às declarações de Bruno de Carvalho - e o presidente, deixou claro de que lado estava, ao sublinhar, em público, que o mais importante num clube “são os jogadores”.

Em entrevista publicada esta semana pelo Expresso, as declarações de Bruno de Carvalho são de quem, aparentemente, não ficou nada satisfeito com a tomada de posição do treinador.

“Então acha que um treinador permitiria que os jogadores fizessem aquilo que se escreveu ao seu presidente? Que os jogadores tinham virado as costas ao presidente, gritado com o presidente, que se tinham recusado a treinar e por aí fora. Só pode ser invenção da comunicação social, não é? Porque se fosse verdade era gravíssimo”, disse o presidente do Sporting, num tom que parece em tudo irónico.

Jesus está a terminar a 3.ª temporada à frente do banco do Sporting, sem ter conseguido o objetivo do campeonato

Jesus está a terminar a 3.ª temporada à frente do banco do Sporting, sem ter conseguido o objetivo do campeonato

Gonzalo Arroyo Moreno/Getty

A escalada do desconforto aumentou após o dérbi da última semana, depois do pai de Bruno de Carvalho - que entretanto abandonou as redes sociais - criticar Jorge Jesus pela exibição da equipa, num jogo que terminou empatado a zero.

“O pai do presidente como sócio tem direito a ter opinião. O meu presidente é o filho e tenho a certeza que não se revê naquilo que o pai disse”, respondeu Jesus na conferência de imprensa de antevisão ao jogo com o Marítimo, quando instado a comentar o caso.

Bruno de Carvalho, em resposta, sublinhou que tinha “pedido internamente às pessoas para comentarem o caso” e que tinha pena que tal não tivesse sido respeitado.

E nos entretantos, o Sporting perdeu na Madeira e falhou o objetivo possível da época, com os adeptos a responderem com insultos aos jogadores, nomeadamente a Rui Patrício e William Carvalho, vistos como os instigadores da revolta do plantel após o infame post de Bruno de Carvalho e que Jorge Jesus sempre tem defendido em declarações públicas.

De acordo com o “Correio da Manhã”, há mais questões a minar a relação entre Jesus e Bruno de Carvalho. O diário garante que as relações pioraram após a derrota do Sporting com o Sp. Braga para o campeonato e que o principal destinatário da mensagem do presidente no Facebook após a derrota de Madrid era mesmo o treinador. Bruno de Carvalho não terá gostado ainda que Jesus chegasse a acordo com o Benfica nos tribunais e que nesse processo que o opunha ao clube da Luz, do qual saiu no final da temporada 2014/15 para assinar pelo Sporting, tenha sido representado por Rogério Alves, visto como um potencial rival de Bruno de Carvalho nas próximas eleições para a liderança do clube.

A decisão de Jorge Jesus em vedar a entrada do presidente no balneário para as palestras antes dos jogos também não terá caído bem em Bruno de Carvalho, diz o “CM”.

Por Alvalade, tranquilidade é coisa que há muito não existe e com os adeptos de costas voltadas para a equipa, a corda poderá mesmo partir para o lado de Jorge Jesus. O técnico tem mais um ano de contrato com o Sporting e caso Bruno de Carvalho queira avançar para a rescisão, poderá ter de avançar com os 7 milhões de euros brutos que o técnico aufere anualmente.

Outra solução poderá passar por uma saída de Jesus para outro clube que esteja na disposição de indemnizar o Sporting. Nos últimos dias foi noticiado o interesse do Al-Hilal da Arábia Saudita.