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A análise possível a uma final que teve mais aspetos emocionais do que técnico-táticos

Depois de uma semana turbulenta, um Sporting algo apagado foi derrotado na final da Taça de Portugal por um Aves (2-1) com uma estratégia simples e clara, explica o analista Tiago Teixeira

Tiago Teixeira, analista de futebol e criador do blogue Domínio Tático

Jorge Jesus na final da Taça de Portugal 2017/18

Pedro Fiuza/Getty

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Não podia ter terminado pior a semana mais negra da história do Sporting. É óbvio que a (não) preparação do jogo e o estado emocional dos jogadores teve influência no desfecho da final da Taça de Portugal, mas os problemas que o Sporting demonstrou no Jamor foram recorrentes em muitos momentos da época.

Do lado do Desportivo das Aves, a estratégia de Zé Mota resultou na perfeição.

O Aves entrou em campo organizado em 4-3-3 (sem bola aproximou-se de um 4-5-1), num bloco médio e compacto. O plano de Zé Mota passou por não recuar demasiado a sua linha defensiva e com isso dificultar a chegada do Sporting a zonas próximas da baliza de Quim de forma apoiada.

No 11 inicial, a equipa das Aves teve um trio de meio campo muito experiente, com Tissone como médio defensivo e com Braga e Vítor Gomes como médios interiores. Nas alas, dois jogadores rápidos para sair em transição e na frente Alexandre Guedes, avançado que é capaz de segurar a bola de costas para a baliza e esperar pelo apoio dos colegas.

Com bola, a equipa do Aves procurou sempre as transições rápidas para criar perigo. O lance do primeiro golo foi o exemplo perfeito da estratégia que Zé Mota preparou para a final do Jamor.

Recuperação da posse de bola, variação do centro de jogo (muito mal Ristovski a permitir a Amilton rodar e dar continuidade à transição ofensiva) para uma zona com menos jogadores do Sporting (eram muitos perto da bola quando Amilton a recebeu, mas a transição defensiva foi nula) e a superioridade numérica em zonas de criação estava conseguida (apenas Coates e Mathieu atrás).

Do lado do Sporting, e apesar de dois bons lances nos primeiros 15 minutos, as dificuldades em ataque posicional foram, como em tantos outros jogos, bem visíveis.

Estas dificuldades para criar situações de golo devem-se, de um modo geral, a dois fatores:

1 - À ideia de jogo de Jorge Jesus, que assenta mais na pressa com que quer chegar perto da baliza adversária do que na paciência na circulação de bola. Foram muitos os momentos do jogo em que os jogadores mais recuados do Sporting procuraram um passe mais longo em vez de circularem a bola com o objetivo de criar o espaço necessário para progredir de forma apoiada.

2- Os jogadores que Jorge Jesus escolhe do meio campo para a frente. A ausência de jogadores criativos, numa equipa que joga tanto tempo em ataque posicional e contra adversários que não oferecem muito espaço dentro do seu bloco, reflete-se muito na incapacidade que o Sporting revela no momento ofensivo. Com exceção de William Carvalho e de Bruno Fernandes, o perfil de jogadores do Sporting no meio campo e ataque não prima em nada pela criatividade, o que se traduz numa grande incapacidade para, entre outras coisas, criar pelo corredor central, onde há menos tempo e espaço para pensar e executar.

Guedes marcou os dois golos do Aves na final da Taça de Portugal 2017/18

Guedes marcou os dois golos do Aves na final da Taça de Portugal 2017/18

Pedro Fiuza/Getty

O facto de Jorge Jesus tentar arranjar maneira de colocar Battaglia e William juntos no meio-campo apenas prejudica o Sporting em ataque posicional, uma vez que para colocar o médio argentino, William tem que ocupar uma posição mais subida, onde não tem tanta influência na construção. Nos corredores laterais há Acuña, que além de não ter nenhuma qualidade no 1x1 ofensivo, não tem qualquer pingo de criatividade, e Gelson, que apesar dos desequilíbrios que consegue criar pela sua velocidade peca muito na decisão, o que compromete vários lances que inicialmente tinham mais potencial.

Muitos adeptos disseram durante toda a época que Francisco Geraldes e Matheus Pereira ainda não estavam preparados para fazer parte deste plantel e que os empréstimos a Rio Ave e Chaves foram a melhor decisão, mas, tendo em conta o que acabei de referir sobre o plantel do Sporting, não podia estar mais em desacordo. A qualidade técnica e criatividade de ambos fez muita falta a este Sporting e podia ter ajudado muito a tornar o ataque posicional da equipa de Jorge Jesus menos previsível.

Posto isto, parabéns ao Desportivo das Aves pela conquista da Taça de Portugal!