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Gelson recebeu sms de membro de claque a avisá-lo do ataque em Alcochete

Carta de rescisão de Rui Patrício revela mais pormenores sobre a invasão em Alcochete a 15 de maio. Acuña foi interrogado por Bruno de Carvalho sobre bate-boca entre jogadores e membros da Juve Leo, no Funchal.

Hugo Franco, Pedro Candeias e Rui Gustavo

ANTONIO COTRIM

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Gelson Martins recebeu um sms de um membro da claque da Juventude Leonina a alertá-lo que "os agressores estavam a chegar e iam fazer merda" na Academia, na tarde de 15 de maio. Esta é uma das revelações da carta de rescisão de Rui Patrício, a que o Expresso teve acesso.

Ainda segundo o documento, Gelson Martins viu a mensagem tarde demais, já depois de o plantel do Sporting ter sido alvo de violência por parte de cerca de 50 membros da Juve Leo.

Ainda segundo o guarda-redes, um dia antes das agressões em Alcochete, numa reunião com os jogadores em Alvalade, o presidente do Sporting Bruno de Carvalho perguntou a Acuña: "Porque fizeste aquilo ao chefe da claque? Logo a ele, tenho um problema tremendo. Estiveram-me a ligar a noite toda os gajos das claques, a dizer que te queriam apanhar, que queriam a tua morada...".

Bruno de Carvalho referia-se ao bate-boca entre adeptos do clube (entre eles Fernando Mendes, durante vários anos o líder da Juve Leo), e alguns atletas do clube (entre eles Acuña) no aeroporto do Funchal, depois da derrota do Sporting contra o Marítimo, no último jogo do campeonato, e que ditou o afastamento da equipa da Liga dos Campeões.

Nessa reunião, os jogadores ficaram a saber que Jorge Jesus tinha sido despedido e foram surpreendidos por Bruno de Carvalho de que o treino em Alcochete para preparar a final da Taça de Portugal seria antecipado de quarta para terça-feira.

Quando chegaram à Academia, no dia seguinte, os atletas "estranharam" a ausência em Alcochete do team manager André Geraldes. Nesse dia, Geraldes foi referido no "Correio da Manhã" como sendo o intermediário entre o clube e empresários para aliciarem jogadores de futebol e árbitros de andebol. E no dia seguinte, seria constituído arguido na Operação Cashball da Polícia Judiciária.

Rui Patrício descreve com nitidez os episódios de violência e de terror vividos em Alcochete, entre as 17h09 e 17h19.

"Os encapuzados eram cerca de 40 indivíduos que barricaram os jogadores no balneário, impedindo-os de saírem e lançando tochas de fumo que dificultavam a visão. Entraram a perguntar por determinados jogadores: Acuña, Battaglia, William e por mim.... Alguns agressores agarraram o William, bateram-lhe e pediram-lhe para tirar a camisola, porque não era digno dela."

Depois, revela Patrício, "gerou-se uma enorme confusão". Os agressores "atiraram petardos, agrediram os jogadores a soco, pontapé, com cintos e bastões, arremessaram objetos (a máquina de água foi arrancada e arremessada contra Battaglia)".

O ex-capitão do Sporting confirma que Jorge Jesus foi também alvo das agressões e que os atacantes lançaram tochas contra os carros dos jogadores e equipa técnica.

"A memória que tenho mais nítida é a de que estava no balneário e ouvi um barulho no corredor, quando de repente aparecem pessoas a gritar, de cara tapada. Primeiro mandaram tochas para dentro do balneário, depois entraram e começaram a agredir os jogadores e a ameaçar. Eu estava perto do William quando uma pessoa o agride. Eu meto-me à frente para o separar do William e [o agressor] agarra-me o braço e tenta torcê-lo e meter atrás das costas e a empurrar-me. Consegui tirar o braço. Depois veio outro e pára à minha frente, quando diz: "Queres ir-te embora filho da p....", "Partimos-te a boca toda" e faz o gesto como me fosse agredir. Depois aparece o Salin e afasta-o."

BdC "tresloucado"

Rui Patrício revela ainda o conteúdo de mensagens enviadas por Bruno de Carvalho para os jogadores bem como várias reuniões recentes tidas com o presidente do Sporting.

"Vocês são uns meninos mimados. Eu sou o presidente, faço o que quiser e escrevo o que quiser, onde quiser", terá afirmado numa dessas tensas reuniões, em abril.

Rui Patrício descreve o que viu: Bruno de Carvalho "estava exaltado e com ar de ditador, alucinado e visivelmente tresloucado, tendo-me acusado e ao William de sermos os organizadores do protesto, por querermos sair do clube há muito tempo". Por "inúmeras vezes, dirigindo-se a mim aos berros afirmou: 'Pensas que estás a falar com quem?'"