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A fuga confirmada para as Arábias: "Jorge Jesus is Al Hilal"

É assim, a chegar a um clube de uma liga menor, de competitividade menor, a levar uma palmada nas costas do dono do Al Hilal e a dizer " It's strong", que Jorge Jesus sai do Sporting. O treinador português foi confirmado na noite desta terça-feira no maior clube da Arábia Saudita

Diogo Pombo

Jorge Jesus sai do Sporting com 154 jogos, repartidos entre 98 vitórias, 25 empates e 31 derrotas.

JOSé Sena Goulão/Lusa

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O sheik e dono do Al Hilal, ao centro, Jorge Jesus a um lado e, do outro, um tradutor, que alegremente traduz o que (presume-se) o treinador português terá dito. Depois, o patrão do clube árabe solta umas quantas palavras em inglês e dá uma forte palmada nas costas do português.

"It's strong", diz ele, curvando os braços, em gesto de força, forçando o inglês.

Assim se resume, mais ou menos, o vídeo em que o Al Hilal confirmou o que era um rumor há vários dias: Jorge Jesus é o novo treinador do maior clube da Arábia Saudita. Ou, como escreveria o clube, numa versão inglesa do anúncio:

"Jorge Jesus is Al Hilal".

E o português, sentado e atento ao que vai sendo dito, com um sorriso plastificado na cara, vai acenando de vez em quando. Findas três épocas no Sporting e findo o ano em que mais teve de lidar com desavenças (para utilizar uma palavra simpática) internas, Jesus sai de Portugal como, há três anos, não queria ter saído do Benfica.

Vai treinar para uma liga menor, sem visibilidade, sem prestígio, sem a competitividade dos maiores campeonatos europeus, onde o senso comum nos fazia crer que tardava a chegar apenas devido às dificuldades linguísticas.

Porque, mais do que Jorge Jesus ser, como sempre foi, ciente do que é e pode oferecer a qualquer clube de futebol, também o mundo, que via as suas equipas jogar, tinha noção do que ele é: o mais titulado e bem sucedido e unânime treinador português a treinar em Portugal na última década.

Uma imagem assente, sobretudo, nas cinco temporadas de Benfica, durante as quais colou o nome a três campeonatos, cinco Taças da Liga, uma Taça de Portugal e outra Super Taça - apesar do par de finais europeias perdidas - enquanto orquestrava, mesmo que oscilante e inconstante, um futebol ofensivamente atrativo e artístico, quando tudo se alinhava a favor deles.

Era suposto que os 154 jogos feitos no Sporting, repartidos por 98 vitórias, 25 empates e 31 derrotas, o deixassem mais glorificado, titulado e granjeado do que a Super Taça e a Taça da Liga que leva do clube de Alvalade.

Títulos parcos em prestígio, emagrecidos ainda mais pela inconstância que conviveu com Jesus e o Sporting nas últimas duas épocas, após uma primeira que pulverizou um recorde de pontos e, ainda assim, ficou aquém do título.

Depois, assistimos a um percurso em forma de pirâmide invertida, onde as contratações que não renderam, os jogadores em má forma e o mau planeamento de uma época foram, aos poucos, piorando.

Agravaram-se para discussões com o presidente no balneário, discordâncias com o presidente, um clube a ferver com um presidente e cenas de pancadaria em Alcochete, que colocaram o presidente em xeque e o treinador a pensar no que fazer à sua vida.

E, neste momento de despedida, mais do que ir à procura dos milhões árabes que tanto se associa aos ocidentais que trocam o futebol de cá, pelo de lá, parece que Jorge Jesus irá à procura de sossego. Um estado do qual já não parecia gozar há algum tempo.