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“Anne Frank? Não sei quem era”. As polémicas fora dos relvados do novo treinador do Sporting

Sinisa Mihajlovic é um ultra-nacionalista assumido e tem insultos raciais no currículo. Patrick Vieira e Adrian Mutu já foram alvo da sua ira. Adora Tito e Milosevic

Hugo Franco

O treinador sérvio Sinisa Mihajlovic tem 49 anos e passou as últimas duas épocas nos italianos do Torino

Nicola Campo/Getty

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Adeptos da Lazio decidiram vestir uma camisola com a fotografia de Anne Frank, adolescente alemã vítima do Holocausto nazi, num ato deliberado de provocação anti-semita que tinha como alvos os rivais da AS Roma. O gesto, realizado no ano passado no estádio Olímpico de Roma, foi condenado por todas as entidades do futebol italiano. Todas, menos pelo homem que se espera que seja apresentado esta segunda-feira como novo técnico do Sporting, Sinisa Mihajlovic.

Confrontado pelos jornalistas, o então treinador do Torino (que já havia passado pela Lazio como jogador), garantiu não saber nada sobre a polémica e terminou com a pergunta: “Anne Frank? Não sei quem era.”

Foi naquele clube da capital italiana, em 2000, que o mundo ficou a conhecer a faceta mais anti-desportiva do ex-internacional sérvio. Numa partida contra o Arsenal, para a Liga dos Campeões, Mihajlovic insultou Patrick Vieira com a expressão: “Preto de m....”.

No final do jogo, garantiu que apenas chamou aquele nome ao jogador francês depois deste lhe ter chamado “cigano de m...”. Uma investigação da polícia italiana veio a apurar que por repetidas vezes o sérvio chamou a Vieira durante o jogo de "fucking black monkey". Não será necessária qualquer tradução. Mihajlovic pediu desculpas públicas e garante que os dois atletas ficaram amigos depois desse incidente.

Sinisa Mihajlovic e Patrick Vieira em acessa discussão, em 2000

Sinisa Mihajlovic e Patrick Vieira em acessa discussão, em 2000

Nick Potts - EMPICS

Outra vítima do ex-defesa central foi Adrian Mutu, do Chelsea. Num jogo entre a Lazio e a equipa londrina, três anos depois, o sérvio cuspiu em Mutu. A imprensa inglesa perguntava então se Mihajlovic não seria o homem mais "nastiest" do futebol. Possíveis sinónimos? Sórdido, desagradável, mau, indecente...

Em entrevistas mais ou menos recentes, Sinisa Mihajlovic nunca escondeu o seu fascínio pelo regime do marechal Tito, que liderou a Jugoslávia entre 1945 e 1980. "Com Tito havia valores, família, uma ideia de país e povo. Com ele, a Jugoslávia era o país mais bonito do mundo ", justificou. Já quando era apontado de ter valores próximos da extrema-direita argumentava: Se nacionalista significa patriota, se isso significa amar a minha terra e minha nação, bem, sim, eu sou.”

A imprensa italiana, país onde fez carreira como jogador e treinador, acusa-o de ter sido amigo de um senhor da guerra, Zeljko Raznjatovic, aka Arkan, abatido em 2000 num hotel em Belgrado. Nessa altura, segundo o "The Guardian", pagou à imprensa sérvia para publicarem um tributo ao homem acusado de vários crimes de guerra. Mais recentemente, já como selecionador da Sérvia, teria castigado um jogador que não teria cantado o hino.

O próprio Mihajlovic contou numa entrevista que Slobodan Milosevic (que governou a Sérvia e foi julgado por crimes de guerra) lhe terá dito quando este jogava no Estrela Vermelha: "Sinisa, se todos os sérvios fossem como tu, haveria menos problemas nesta terra".

Nas últimas duas épocas, Mihajlovic esteve nos italianos do Torino e, antes disso, no AC Milan e na Sampdoria. Em 2012 e 2013 foi selecionador sérvio, sem grande sucesso, e, antes, passou por Fiorentina, Catania e Bolonha. Enquanto treinador principal, carreira que iniciou em 2008/09, ainda não conquistou qualquer troféu.