Tribuna Expresso

Perfil

Surf

Errar é humano. Mas os surfistas andam a discutir por causa disso

É normal em qualquer modalidade: todos competem, uns ganham, outros perdem e, no meio, costuma estar sempre alguém a arbitrar ou pontuar. Na última etapa do circuito mundial de surf, em Trestles, nos EUA, vários surfistas se viraram contra os juízes e contra um sistema que dizem ser amador. Até Kelly Slater resolveu participar na discussão

Diogo Pombo

Comentários

Gabriel Medina perdeu na 3.ª ronda do Hurley Pro, em Trestles, nos EUA, por 0.04. O brasileiro foi o terceiro caso na prova a ser eliminado por menos de um quarto de uma décima e um de muitos a protestar com os juízes

GREGORY BOISSY

Partilhar

Entrar no mar, dar uso aos braços para remar, apanhar uma onda, fazer uns truques de pé em cima da prancha a deslizar sobre uma parede de água. Era bom que fosse apenas isto, que até é, caso o surf sobre o qual vamos escrever seja o que muita gente faz na desportiva. Como passatempo. Mas não, este surf é o das provas, da modalidade a sério, que tem um circuito mundial que pára em 11 sítios do planeta e no qual existe um quarentão, careca, que já o venceu por 11 vezes. Como qualquer competição, tem que se chegar a uma altura em que um surfista é melhor que o outro, e para isso são precisos pontos.

Ou números, vindos de cinco pessoas que, a cada prova, ficam sentados, à beira de uma mesa e com ecrãs de televisão por perto, a olharem para tudo o que os surfistas fazem nas ondas. Cada vez que alguém se coloca de pé na prancha, cinco juízes avaliam o que acontece. Todos dão uma nota, descarta-se a melhor e a pior e, para a nota final, faz-se a média com as três que sobram.

Ninguém ficaria chateado com isto se todos fossemos máquinas, ou, por outra palavras, se o processo não fosse mais subjetivo do que objetivo. É neste limbo que se pode enfiar o que aconteceu na oitava etapa do circuito, que acabou na quarta-feira em Trestles, nos EUA.

Podíamos estar a escrever sobre Jordy Smith, o sul-africano que ganhou a prova. Ou a debitar palavras sobre o quão importante isso é, por se tratar da etapa que antecede a perna europeia do circuito, onde cabe a praia de Supertubos, em Peniche (entre 18 e 29 de outubro).

Mais interessante do que onde esteve e para onde vai o circuito, porém, parece ser o estado em que está o sistema de pontuações no surf. A tal forma como os juízes olham para ondas e para o que os surfistas fazem delas.

Não é estranho ver um desportista, em qualquer desporto, questionar uma decisão de quem arbitra, julga ou pontua. Mas, numa modalidade em que não existem equipas, é raro ver tanta gente criticar o mesmo, ao mesmo tempo. O pior aconteceu logo nos dias iniciais de prova em Trestles, uma praia californiana.

Caso um: Matt Wilkinson precisa de um 6.87 e apenas consegue um 6.63, no seu heat da 2.ª ronda que, portanto, perdeu por 0.24. Foram décimas que a última onda que surfou não teve e que o australiano achava que devia ter tido.

Mal soube da pontuação, ainda no mar, começou aos berros, a dar palmadas na água.

Caso dois: logo na bateria seguinte, Julian Wilson fica a 0.04 de, na última onda, bater a pontuação de Alex Ribeiro.

Caso três: Gabriel Medina apanha uma onda a três minutos do fim do heat, que é avaliada em 8.30 quando o brasileiro precisava de um 8.34 para bater Tanner Gudauskas. O público na praia faz barulho, o surfista, sentado na prancha, ri-se e bate palmas para os juízes verem.

Até os comentadores televisivos da WSL (World Surf League) dão palavras ao espanto. “O quê? A onda era, pelo menos, um nove”, diz um deles. Começa a formar-se um tsunami de críticas, mas fora de água.

Nestes dias, os três surfistas que se consideram prejudicados recorrem às redes sociais para criticarem os juízes e a organização do circuito mundial. “Hora de ir pra casa. Muito triste, eu dedico ou dediquei minha vida pra isso…to cansado, cansei!”, escreveu Gabriel Medina, no Instagram, tão enigmático que muita gente pergunta se a desilusão do brasileiro não o afastará, em demasia, do mar. “Com noites sem dormir, horas sem conta de preparação e lições passadas, é difícil não nos sentirmos frustrados quando não somos recompensados em momentos chave como este”, desabafou Julian Wilson, pela mesma via, sugerindo que “talvez seja tempo de discutir o que os juízes veem como bom surf, em comparação com o que os melhores surfistas do mundo entendem como bom surf”.

Lendo isto, Matt Wilkinson comentou que “é difícil aceitar quando eles tomam decisões que decidem sobre a vida das pessoas, não têm o cuidado de tomar a decisão certa e não são responsabilizados”.

Não é a primeira vez que um surfista não gosta de como foi pontuada uma onda e faz questão de refilar com isso. Mas não é costume serem tantos a protestar na mesma prova, pelos mesmos motivos e com tão poucas papas na língua para filtrarem o que dizem. Como também não é normal serem surfistas com tanto nome - Gabriel Medina é o segundo classificado do ranking e foi campeão mundial em 2014; Matt Willkinson ganhou a duas primeiras etapas do ano e está no terceiro lugar; Julian Wilson é o nono e, em cinco anos, só por uma vez terminou o circuito foram do top-10.

São dos melhores surfistas do mundo, têm milhares de seguidores, dão nas vistas e, se falam, são ouvidos.

Instagram

As contas da WSL começaram, aos poucos, a receber críticas, ao mesmo tempo que outros surfistas foram remando na mesma direção. Como Jeremy Flores, francês nascido na Ilha da Reunião, que sabe bem o que é criticar os juízes - e ser castigado por isso. Em 2014, após refilar na etapa de Jeffrey’s Bay, na África do Sul, o surfista teve de pagar uma multa e cumprir uma suspensão de um mês. Desta vez, até se riu: “Há seis anos que digo estas coisas e fui multado um milhão de vezes por pedir explicações.

Agora, finalmente, toda a gente está a acordar. Neste momento, os juízes são demasiado amadores para a dimensão que o surf atingiu. Temos contratos, dívidas, patrocinadores e bónus. Dedicamos tudo para chegarmos a este nível. Todos contribuímos para esta modalidade progredir. Por isso, vamos todos melhorar para que a próxima geração não tenha de lidar com isto”.

Até Kelly Slater, o surfistas dos surfistas, o 11 vezes campeão do mundo, o criador de uma onda artificial que ninguém sabe onde fica, se pronunciou sobre tudo isto. Falando, em específico, sobre o heat de Gabriel Medina, o norte-americano achou “parvo” o ponto até ao qual “as pessoas levaram isto”. Slater diz que “foi um heat renhido que podia ter caído para qualquer um”, argumentando que “os juízes não deviam saber da situação atual [como está a pontuação no heat], para não avaliarem as ondas de acordo com isso”.

As regras da WSL ditam que um surfista que "tenha uma conduta que danifique a imagem do surf", ou que "deitem uma aura negativa" na modalidade, seja multado. Quanto à pontuação de ondas, nelas se lê apenas que há cinco fatores que são tidos em conta: o nível de dificuldade das manobras, o seu grau de inovação, a combinação de grandes manobras, a sua variedade, e a velocidade, poder e dinamismo que o surfista lhes incute.

O resto fica ao critério dos juízes - e um dos problemas poderá ser mesmo este.