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Kelly Slater ganhou 11 títulos. “Então, eu tenho que fazer mais do que ele”

Aos 13 anos, Teresa Bonvalot já competia e, aos 15, foi campeã nacional. Hoje nem 17 tem e vai competir, pelo quarto ano seguido, na etapa do circuito mundial de surf feminino, em Cascais. Teresa Bonvalot ainda se lembra de dizer, na primeira entrevista que deu, que "queria ser o Kelly Slater em versão feminina". Falámos com ela e ambição é coisa que continua a não lhe faltar

Diogo Pombo

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Luis Coelho

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O encontro está marcado para meio da tarde, na Praia do Guincho. O mar, malandro, prova como não se pode confiar nele. Ao fim da manhã o telemóvel toca, é João, o pai, a dizer que a filha teve de ir até à outra margem do rio. Era lá que estavam as ondas. Atravessamos a ponte e, chegados à Costa da Caparica, é a nossa vez de ligarmos. João atende para nos dar outro número, o de Paula. É a mãe que nos explicar onde está e como chegar lá, ao sítio onde está com o carro estacionado, sentada no banco da frente, enquanto Teresa Bonvalot se prepara para ir ao mar.

Chegamos e já está de fato vestido, a segurar uma das pranchas que estão enfiadas porta-bagagens. Segundos antes, Kanoa Igarashi afasta-se dali, vai andando para o mar, não temos a companhia do 21.º classificado do circuito mundial de surf. Não estamos ali pelo americano com costelas japonesas, mas por Teresa. A quase mulher que, recém-adolescente, começou a competir e a impressionar por ser melhor que quase toda a gente.

Aos 13 entrava em etapas do campeonato nacional, com 15 ganhava o título, aos 16 tornava-se campeã europeia. Isto aconteceu em julho e, agora, participará pelo quarto ano consecutivo na etapa portuguesa do circuito mundial feminino.

Com a porta aberta, sentamo-nos no porta-bagagens do carro. Está com o fato vestido, cruza a perna e falamos. Sorri muito, foca o olhar num ponto mais vezes, nota-se que se concentra no que diz. Edita com ambição grande parte das palavras que lhe saem da boca. Diz que adora treinar, evoluir, passar o dia na praia e só pensar em surf. E se Teresa, a dias de fazer 17 anos, já quer ser campeã do mundo e sê-lo com maior frequência do que o foi Kelly Slater, o homem a quem perdemos a conta às vezes em que ganhou (11), é muito por culpa dos pais. De João e de Paula, que esperam, viajam, dão boleias, apoiam, incentivam e vão fazendo de tudo um pouco para Teresa Bonvalot ser como é.

Uma rapariga que passa a vida a competir contra mulheres. Alguém que encara a façanha de vir a ser uma espécie de versão feminina de Tiago Pires – foi o primeiro, e até agora único, português a chegar ao circuito mundial de surf – como apenas o primeiro degrau que subirá numa escada. Uma vez lá cima, Teresa vai ser campeã do mundo. A frase é assertiva porque ela também o é. Não fala em sonhos ou em “ses”, prefere dizer o que quer. E a forma como o diz faz com que tudo pareça uma questão de tempo. Que assim o seja.

O facto de seres muito nova faz com que se fale muito mais sobre ti. Fartas-te de tanta atenção? Hmmm, não penso nisso assim. Acho que não tenho assim tanta fama, ou que seja muito conhecida. Portugal é pequeno, mas, mesmo assim, ainda existem bastante mais surfistas – para os quais olho como ídolos – que são muito mais falados.

Esta etapa do circuito mundial feminino, em Cascais, ajuda a mudar isso? Sim. Aí vou ter a oportunidade para competir com as melhores do mundo. Pronto, o meu objetivo é estar onde elas estão. Tento estar sempre muito motivada e dar o meu melhor.

Mas és muito abordada quando vens à praia, num dia como este? Nããão, nem por isso. Há muitas pessoas que nem falam quando estão dentro de água. Tento ser simpática com toda a gente, digo sempre “olá, tudo bem?” e às vezes até faço um bocadinho mais de conversa. Às vezes sinto um bocado isso, outras vezes não tanto.

Luis Coelho

Até começaste por ir para o mar deitada, certo? O meu pai sempre fez muito desporto na água. Fez windsurf durante bastantes anos, depois passou para o kytesurf. Por isso, desde muito novos que passámos muito tempo na praia, mesmo que estivesse um vendaval. Sempre estive na praia das 8h da manhã às 8h da noite. Às tantas comecei a fazer bodyboard, por diversão, com outros amigos, para estar nas espumas. Depois comecei a ir mais para fora, olhava para os surfistas e aquilo parecia-me mais giro. Sentia que eles remavam muito mais rápido do que eu, e pensava: “Fogo, isto deve ser muito mais fácil”.

Tinhas inveja? Tinha, tinha. Eu tentava apanhar ondas, não conseguir, e eles entravam nelas muito mais facilmente. Por isso, pedi ao meu pai para experimentar. E um amigo do meu pai levou-me.

Foi aí que começaste a pedir muitas boleias aos teus pais? Nós já passávamos muito tempo na praia, e eu passava os dias inteiros dentro de água. Quando comecei a surfar, o Guincho não tinha tantas ondas grandes. Era perfeito para mim. Até conseguia ir sozinha, o meu pai ficava cá fora, a tirar fotografias. Fazia take offs em regular e goofy, aquilo saía-me! [consoante o pé que se põe à frente, quando nos colocamos de pé na prancha]. Supostamente era goofy [pé direita à frente], mas aquilo era-me natural.

E pelos vistos tinhas muito jeito, porque começaste a competir muito nova. Sim, comecei pelo Desporto Escolar. Decidi experimentar e senti logo uma coisa diferente, mais adrenalina, mais pressão, mais stress e nervosismo. Mas gostei imenso.

A partir daí, quase todo o teu tempo livre passou a ser dedicado ao mar? Sim. Na altura, quando comecei a fazer surf, ainda fazia vela e também jogava futebol. Mas, como era muita coisa ao mesmo tempo, e como gostava mais de surf, preferi ficar só com o surf. Adorava. Até o meu pai começou a fazer, mas não correu lá muito bem.

A filha tinha mais jeito. Era, por isso desistiu [ri-se].

E ainda jogas futebol? De vez em quando, em casa, com a minha irmã mais nova.

Luis Coelho

Com tanto tempo no mar, os teus pais nunca refilaram por não te porem a vista em cima? Não. Os pais até gostam que nós saiamos do colo deles e paremos de os chatear. Quando comecei com o surf, eles às vezes também vinham. Era bastante divertido.

Começaste a competir aos 13 anos e, com 15, foste campeã nacional. Consideras-te um fenómeno? Acho que isso não quer dizer nada. Conheço muitas pessoas mais novas que são muito boas. Simplesmente comecei um pouco tarde no surf. Há pessoas que experimentam aos 4 ou 5 anos. Lá fora, já vamos crianças de 7 anos a surfarem muito bem, o que é incrível. Assim se vê que o surf está a crescer bastante. Quando era mais nova, lembro-me de, imensas vezes, vir aqui para a Costa e não ver mesmo ninguém no mar. Hoje em dia, raramente surfamos sozinhos. O que até é bom, vê-se que o surf está a crescer cá em Portugal.

O suficiente para seres a primeira portuguesa a chegar ao circuito mundial? Lembro-me de, na minha primeira entrevista à “Surf Total”, dizer que queria ser o Kelly Slater em versão feminina. O que ainda é mais de topo. Simplesmente quero entrar no CT [Championship Tour] e ser campeã mundial. Sempre foi um dos meus grandes objetivos desde que comecei a surfar. É para isso que treino e faço isto com bastante diversão. Quero obter esse sonho. E tenho de continuar a trabalhar e a acreditar que isso se vai tornar realidade.

Mas o Kelly já ganhou 11 vezes. Então, ainda vou ter que fazer mais do que ele.

Estás em 25.º do circuito de qualificação (QS). Achas que é já este ano que consegues entrar no CT? O meu objetivo principal este ano era o Pro Junior, que já consegui [em julho, foi campeã europeia]. Já tenho algum ranking, mas, de resto, queria tentar retirar alguma aprendizagem de todos os campeonatos e fazer o que mais gosto.

Achas que aprendes mais quando vais surfar lá fora, em viagens ou em campeonatos? Aprendo bastante, primeiro, porque estou a sair da minha zona de conforto. São ondas diferentes, vives novas experiências e culturas e ficas sem o conforto da família. Faz com que a nossa cabeça comece a trabalhar muito mais, a pensar em tudo. Eu gosto.

Ligas o outro chip? Sim, é completamente diferente de estar em minha casa. Mas isto não quer dizer que não tenhamos ondas ótimas. Temos uma costa gigante, cheia de ondas boas, também várias que, acredito, ainda ninguém conhece. Adoro surfar e passar cá tempo. Temos um país incrível, com comida ótima, da qual sinto sempre saudades quando vou lá fora.

Por isso é que temos tido as etapas do circuito mundial. Exatamente. Acho que Portugal está no bom caminho e as pessoas estão a fazer um bom trabalho.

Luis Coelho

A etapa do circuito feminino começa já este sábado, em Cascais, e vais participar pelo quarto ano seguido. Isto ainda te deixa nervosa? Eu adoro competir e tento mostrar a minha alegria de surfar em todas as competições. Não gosto de perder, como toda a gente, mas tento tirar proveito de tudo o que faço, para isso me ajudar a evoluir. Surfar com as melhores do mundo e ver os melhores rapazes também é vantajoso.

No surf, como qualquer outra modalidade, perde-se mais vezes do que se ganha. Como é que lidas com isso? Tento encarar as derrotas como momentos de aprendizagem, para melhorar a nível pessoal, tático e técnico. Vejo os erros que faço para não os repetir. Quero ter o feeling de ganhar campeonatos e, para isso, tenho de estar sempre a aprender.

Sentes que aprendes mais quando perdes? Toda a gente aprende mais quando perde, acho eu. São as alturas em que estamos mais frustrados, pensamos mais, ficamos tristes. Pensamos que, para a próxima, não queremos que isso aconteça. Ninguém gosta de perder, mas faz parte.

Já chegaste a casa com um feitio de ninguém poder falar contigo? Já, é normal. Como disse, não gosto de perder, nem a feijões, e às vezes temos de ter o nosso espaço para pensarmos. Também ajuda ouvirmos a opinião de pessoas das quais gostamos.

Luis Coelho

És muito rato de surf? Vês as provas todas e acompanhas em casa? Sim, normalmente vejo sempre o campeonato do mundo, tanto dos homens, como das mulheres. Vejo as ondas que eles apanham nos sítios que eu sonho em ir. São os nossos ídolos e queremos sempre iguais, ou melhores, do que eles.

Qual é a tua surfista preferida? Tenho várias. A Carissa [Moore] é das que mais gosto, como a Stephanie Gilmore. Competem as duas como eu penso que deve ser. Gosto dos carves da Stephanie e do power da Carissa. Todas as que estão no tour surfam muito bem.

Falas à vontade com elas? Sim, já participei algumas vezes neste evento e fui lá fora fazer outras etapas. É bom estar no mesmo meio que as melhores do mundo. Sentes-te bem e queres trabalhar ainda mais para estares lá sempre.

Ainda mexe contigo estar na água a competir com uma delas? Tento dar o meu melhor e surfar ao meu máximo. Se ambas surfarmos no nosso melhor, claro que sei que ainda é difícil ganhar-lhes. Mas, se isso acontecer, fico contente, porque dei tudo o que tinha. Mas é sempre uma grande experiências.

O que esperas para este campeonato? Que estejam boas ondas… Que esteja bom tempo.

E ganhar? Também. Espero ganhar experiência e ganhar tudo.

Tens noção que vai chegar o dia em que deixarás de surfar, quando fores velhota? Espero que não me aconteça, mas só quando já não conseguir andar e me meterem numa cadeirinha de rodas.