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A melhor do circuito que Portugal pode tornar na melhor do mundo

Olhem para a vida de Tyler Wright: tem a hipótese de, aos 22 anos, ser campeã mundial de surf pela primeira vez, caso vença, em Cascais, a etapa portuguesa do circuito (que começa esta sábado). A australiano podia estar a acusar a pressão, mas não. Apanhámo-la descontraída, com a elogiar Teresa Bonvalot, a portuguesa contra quem vai surfar

Diogo Pombo

NICOLAS PESCHIER

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Nem é preciso estar cinco segundos a observá-la. Ela está lá à frente, sentada num sofá, boné a tapar-lhe a cabeça, os braços pousados sobre as pernas. Tem o corpo na postura mais formal em que o consegue montar. Mesmo assim, a cara de sono não engana. É embalada pelo muito português que ali se vai falando, olhos semicerrados, só vai despertando durante as ocasionais traduções para o inglês que ela entende. Pode ser que seja do cansaço, mas Tyler Wright é a descontração em pessoa para quem pode, dali a dias, tornar-se campeã mundial de surf pela primeira vez.

A conferência de imprensa que apresenta o Cascais Women’s Pro, a oitava etapa do circuito mundial feminino, termina e a australiana só pensa em ir fazer uma sesta. Está acordada há horas, levantou-se cedo para ir surfar, antes de cumprir com o dever de estar ali. É bem nova, tem 22 anos. É também bem velha nisto de dar voltas ao mundo com pranchas, fatos e vontade de fazer o que gosta. Vai no sexto ano no circuito e, em 2008, foi a mais nova (ou novo) surfista de sempre a vencer uma etapa - tinha 14 anos e aconteceu na Austrália. Ainda mais jovem do que Teresa Bonvalot é hoje, o precoce talento português contra quem Tyler vai competir na primeira ronda.

Tyler está descontraída, calma como tudo, com o ar de quem encara tudo isto como se a sua única tarefa do dia fosse uma ida ao supermercado para comprar fruta. “Sabes, já tive algumas experiências de vida que me fazem saber que isto não é uma verdadeira pressão”, diz-me, instrospetiva.

Uma delas foi o acidente que o irmão, Owen Wright, também ele surfista profissional, sofreu há menos de um ano no Havai, quando sofreu um traumatismo craniano. Foi um dos eventos maus que lhe deu força para, agora, se poder tornar na nova campeã do mundo caso vença a etapa portuguesa - e Courtney Conlogue, segunda classificada do ranking, não chegue às meias-finais.

Reparei que estavas a fazer um esforço para não adormeceres, com tanto português a ser falado à tua volta. Yeah, não queria que isso acontecesse. Estou muito cansada e sempre que me sento num sofá, fico tipo, “ó, ótimo, vou fazer uma sesta” [ri-se]. Claro que não é minha intenção fazê-lo, mas às vezes estamos muito cansadas.

Passas a vida a acordar cedo? Sim, hoje levantei-me mesmo muito cedo, surfei durante um par de horas e vim para aqui. Depois ainda devo ir surfar outra vez.

Não pareces nada nervosa para quem tem hipótese de ser campeã mundial aqui em Portugal. Está tudo bem? Claro, está tudo ok. Sabes, já estive na corrida pelo título antes e passei por momentos de pressão, como lhes chamam. Mas já tive algumas experiências de vida que me fazem saber que isto não é uma verdadeira pressão. Em termos de escala, aqui não está a vida de alguém em jogo, percebes? Isto é surf, é diversão, e independentemente do que aconteça, vou continuar a adorar isto.

Sempre pensaste assim? Eu preocupo-me muito com o que faço e maneira como o faço. O objetivo de ganhar todos os heats e todas as finais não mudou desde o início do ano, e não mudará.

Por isso é que já ganhaste quatro eventos. É verdade. Faltam três etapas e, para mim, ainda tenho muito trabalho pela frente. O que é algo que, pessoalmente, me satisfaz muito. Gosto de trabalhar no duro, fico contente por o fazer.

Uma das experiências de vida que falavas foi o que aconteceu ao teu irmão Owen, certo? Sim, e passaram-se outras coisas durante o ano passado, sobre as quais não falo muito. Essas experiências ajudaram-me a crescer como ser humano e deram-me outra perspetiva sobre aquilo que quero mesmo fazer. Foi isso que me aconteceu. Decidi ir mesmo atrás do título mundial. Primeiro, porque me senti preparada, e também por saber que era capaz de o fazer e queria ter uma equipa à minha volta, para me ajudar. Tornei-me disposta a aprender coisas novas e a não encarar nada como garantido. O que mais tenho apreciado este ano é o tudo o que já aprendi sobre mim própria.

NICOLAS PESCHIER

Cresceste numa família de surfistas, tens quatro irmãos que também surfam. Como é que isso foi? Para ser sincera, quando estávamos na água era sempre muito tranquilo. Encorajávamo-nos e, ao mesmo tempo, era divertido. Tive a sorte de crescer entre irmãos que faziam todos a mesma coisa. Além disto, estava numa comunidade onde, literalmente, todos os miúdos faziam surf. Éramos 15 miúdos na mesma rua, saíamos do autocarro e, todas as tardes, íamos surfar. Toda a gente ia. Na rua abaixo havia mais miúdos assim. Basicamente, toda a vila, que era pequena, fazia surf.

A tua era vida era só surf, portanto. Não! Depois, à tarde, jogávamos futebol. Gostávamos muito. E crescer num ambiente destes, além de ser muito divertido, faz-te querer ser melhor e tentar evoluir. É óbvio que quanto mais tempo passares na água, melhor ficarás a surfar.

Ainda jogas futebol ou vês jogos na televisão? Sim, outro dia até fui ver a filha de um amigo jogar, ela é muito boa. Adoro! Quando entrei para o circuito mundial tive de desistir um bocado do futebol, porque a probabilidade de ter lesões era muito grande, e já tenho que cheguem [ri-se]. Mas sim, é a outra modalidade que já pratiquei.

Sabes que os portugueses são malucos por futebol. Eu sei! Na Austrália não é a mesma coisa. Por exemplo, quando estamos na etapa dos EUA, compramos uma bola porque sabemos que, ao chegarmos à Europa, vamos encontrar muitos campos onde podemos jogar. Agora por acaso não posso, estou um pouco magoada no pé, foi uma das coisas que me deixou mais tristes no últimos tempos [ri-se outra vez].

Na Austrália, o surf não é bem mais popular do que o futebol? Sim, de longe. Sou um pouco parcial e nem sei bem, mas acho que é a terceira ou quarta modalidade do país. O surf é muito grande lá, disso não tenho dúvidas.

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Reparaste na rapariga que, há pouco, estava sentada ao teu lado? A Teresa, claro! Não a conheço muito bem e, provavelmente, hoje tive a conversa mais longa com ela. Ela só tem 16 anos, achava que tinha 18 ou 19, e fiquei: “O quê?!”.

Ela começou a competir cá em Portugal aos 13 anos. Pois, isso é incrível. Lembro-me de quando ela era mais nova, porque já compete nesta etapa há quatro anos, acho eu. É fantástico para alguém tão novo.

E tu sabes bem o que isso é, porque és a surfista mais nova de sempre a vencer uma etapa do circuito. Tinhas 14 anos. Recordo-me bem dessa experiências. Estava tão feliz por estar a participar, nem queria acreditar. Aprendi imenso. Estava a perder a cabeça no heat com a Steph [Stephanie Gilmore, a seis vezes campeã do mundo]. Na altura até fiquei aborrecido por lhe ganhar, porque queria que ela vencesse o título mundial e aquela derrota não lhe dava jeito [risos].

Ainda era uma fã dela? E sou! Hoje em dia ainda sou mais, adoro-a. É importante que as gerações mais novas tenham estas oportunidades de surfar com as raparigas que já estão no circuito. Há pelo menos uma hipótese em cada etapa, todos os anos [a organização de cada evento atribuiu wildcards, que são convites para surfistas que não estão no circuito], o que é brilhate para o surf e para inspirar as surfistas mais novas que estão a aparecer.

Quando se é assim tão nova, é possível não sentir nervos ou pressão por se estar tão feliz por poder competir? Yeah, acho que sim. É engraçado, porque para mim é mais fácil competir hoje do que quando ainda era mais nova. Antes achava muito duro, exigia muito de mim própria, e acho que tive muitos stresses de miúda adolescente por causa disso [ri-se de novo]. Olhando para trás, claro que, ao início, sentes que não tens nada a perder e isso pode facilitar. Mas, agora, acho mais fácil.

Imaginas-te a surfar no circuito quando já estiveres nos teus 30? Hum, depende de quem estiver no circuito. Uma das razões pelas quais isto é tão bom está nas pessoas. Tenho muitos amigos aqui. Entrei quanto tinha 16 anos e conheço a maioria das raparigas desde os 10. Conheci a Sal [Sally Fitzgibbons] aos 9 anos, por exemplo. Sou amiga de muitas pessoas no circuito e já vou no meu sexto ano.

Não te cansas de estar sempre a viajar? Quando era mais nova sim, cansava-me. Agora nem por isso, sinto-me feliz por estar onde estou. Chegou a um sítio novo e penso: “Fixe, isto é ótimo”. Costumo contentar-me com quase todos os sítios onde vou, sou uma pessoa fácil. Eu adoro mesmo isto, adoro o meu trabalho. Sei que tantas viagens acabam por ter consequências no teu corpo, mas, sinceramente, ainda não me fartei.

É uma vida melhor do a de uma jogadora de futebol? Sim, de certeza. O meu trabalho dá-me muita liberdade. É fantástico. Na verdade, não tenho de me justificar ou de reportar a muitas pessoas. Tenho a minha equipa, trabalho com quem quero e faço o que me apetece.