Tribuna Expresso

Perfil

Surf

Sim, os nossos campeões nacionais de surf são dois irmãos brasileiros

Eles são irmãos de pai diferente, nasceram no Brasil e, há uns anos, vieram para Portugal. Carol seguiu o exemplo de Pedro Henrique e calhou que ambos tivessem muito jeito para estarem de pé, em cima de uma prancha, nas ondas. Tanto que, no mesmo ano, conseguiram ambos ser campeões nacionais de surf. Mas disseram-nos que não tinham isto planeado: "A gente queria ser campeão, mas nunca falámos que tinha de ser ao mesmo tempo"

Diogo Pombo

Carol Bonates

Partilhar

O sítio é bonito. Há uns quantos turistas a passear, os cabelos loiros denunciam-os. Admiram a mistura cénica entre o mar, calmo na baía, e a praça, farto em pedras da calçada, em limpeza e em edifícios arranjados.

Carol também é loira, dá nas vistas, mesmo que esteja com a cara em baixo, atraída pelo íman do telemóvel. Está sentada, sozinha, um dos bancos diante da fachada do edifício da Câmara Municipal de Cascais é só para ela. O loiro-amarelo, o tom bronzeado da pele e o estilo não enganam. Cumprimentamo-nos. Partilhamos o banco e enchemo-lo com conversa de alguma circunstância, por temos o tempo que o irmão, que ainda está a caminho, nos dá. Cinco minutos e lá está ele, a acenar-nos do carro que vai estacionar.

O tom mais sóbrio das roupas que Pedro veste, e do boné que lhe tapa a cabeça, contrastam com as vestes vivas de Carol. Ele é mais vivido. É pai de dois filhos, tem 34 anos nesta vida, treze de diferença para a irmã, e chegou cá primeiro. Não foi há muito, mas o tempo exato não lhe sai, tem de fazer as contas. O resultado que é igual à soma de anos que faz com a idade da filha: “Entrou agora no sexto ano. Ela chegou com cinco, já tem dez, portanto foi há cinco anos”. Pedro Henrique já conhecia Portugal. Tinha cá estado várias vezes, a surfar e a competir, acumulou dias e estadias e amigos, pacote que um país “mais calmo e tranquilo” lhe oferecia. Por isso decidiu vir.

Aproveitou uma altura mais parada da vida. Pegou na família, nos filhos e, como “não estava a participar, integralmente, no circuito mundial”, ficou mais fácil mudar-se para a terra onde os avós tinha nascido. “A ideia era viver num lugar mais calmo do que o Rio de Janeiro”, resume, com o ar mais calmo do mundo, o que agora tem e que antes lhe fugia. Percebeu como a rotina e o dia-a-dia, como um monstro que o engoliu sem saber, o faziam “viver, naturalmente, mais stressado”.

A culpa, diz, estava “no trânsito, nas pessoas e nas coisas que tinha para fazer”, que não o chateiam em Cascais, onde hoje vive e consegue “resolver a vida de forma muito mais fácil”.

Percebe-se que ele, e Carol, gostam de estar cá.

Estamos no centro dos centros da cidade, em frente ao mar, numa praça arranjada, e não há vivalma que nos interrompa. Não há autógrafos, pedidos de selfie, filas de carros, a densidade de pessoas por metro de pedra da calçada é escassa.

São os novos campeões nacionais de surf e estão ali tranquilos.

É a primeira vez que dois irmãos, homem e mulher, o conseguem. “A gente queria ser campeão, mas não falávamos que tinha de ser este ano, de qualquer jeito”, garante Carol, a misturar palavras com risos, salva pelo irmão quando uma pitada de vergonha lhe aparece na cara. “Não trabalhávamos para sermos campeões ao mesmo tempo, mas cada um queria sê-lo. Por acaso veio junto e foi mais legal ainda”, explica Pedro, mais velho nos anos e nestas andanças.

Ele foi o primeiro brasileiro a ser campeão do mundo júnior, em 2000, cinco anos antes de se qualificar para o circuito mundial. A elite, como lhe chamam, onde Tiago Pires é o nome que toda a gente conhece, por ser o único português a lá ter chegado e surfado.

Pedro viajava para surfar e só parava nas melhores ondas do mundo. Foi esta azáfama, o ter o irmão mais fora do que em casa, que espicaçou Carol: “Sempre me lembrei do meu irmão como ‘O surfista’, nunca tive outra referência dele. O Pedro viajava muito, então, quando ficava tipo um mês fora, eu ficava querendo que ele voltasse. Querendo coisas, esperando que ele trouxesse presentes. Uma vez até me trouxe um patinete. Quando ele voltava era sempre uma coisa boa: vinha com troféus e coisas novas. E eu comecei a pensar: ‘Também quero tudo isso'”.

Carol Henrique tornou-se campeã nacional pela primeira vez em agosto, na etapa de Ílhavo da Liga Moche, o campeonato nacional de surf

Carol Henrique tornou-se campeã nacional pela primeira vez em agosto, na etapa de Ílhavo da Liga Moche, o campeonato nacional de surf

Liga Moche

Carol já surfava, como não. O pai, que era o padrasto de Pedro, ensinou-a ainda em criança. Os pais de ambos, explica o irmão, são da mesma geração do Rio de Janeiro, “ali de Ipanema e do Leblon”, a primeira que foi amiga do surf no Brasil. Os irmãos, portanto, cresceram em casa com pranchas, fatos e a vontade de saírem dali para estarem na praia.

O jeito que tinham e lhes foi alimentado ficou de barriga cheia quando a família se mudou para Saquarema, uma espécie de berço do surf no país. “Os grandes surfistas vinham de lá, é como o Havai do Brasil. É uma cidade super pequena, uma hora para norte do Rio, e quando nos mudámos para lá, a nossa vida passou a ser dormir, surfar, comer e voltar para a água”, conta Pedro, com a saudade que esses tempos lhe atiram para os olhos, enquanto fala.

A cultura do surf fez com que ambos começassem a “brincar com a prancha” por volta dos seis anos. Cada um a seu tempo. O fosso de idades entre Pedro e Carol - são 13 anos de diferença - fez com que o graúdo nunca passasse muito tempo na água com a miúda. Isso é coisa de agora, desde que a irmã se juntou ao irmão em Portugal.

Carol era adolescente quando Pedro emigrou. Já competia, ganhava provas, gabavam-lhe o jeito, mas queria chegar aos 18 anos com os estudos acabados. Matutava na cabeça a ideia de ir ter com Pedro, entre as conversas que mantinha com ele, pelo Skype. O irmão puxava pela irmã, falava-lhe das ondas, das praias, do estilo de vida e das coisas boas que podiam fazer juntos. “Os meus pais levaram-me ao aeroporto e, naquela altura, sabe, em que você entra no aeroporto e não vê mais ninguém, aí pensei: ‘Poxa, estou indo para um país e nem sei se vou voltar’. Não sabia mesmo. Não conhecia nada de Portugal, só escutei muito o que ele me estava a dizer. Acreditei que ia evoluir muito cá, vim, e acho que deu certo”, resume, contente, agradecida a si própria pela decisão tomada.

Estranhou o frio e as roupas que o inverno lhe impôs no corpo, das quais hoje já gosta. Custou-lhe a água fria, o “arranjar forma” de se habituar a surfar durante os meses que arrefecem tudo. O hábito já a faz, como o irmão, saudar o inverno - “quando está frio não tem tanta gente surfando”. Carol chegou e começou a surfar com Pedro, que já tinha “uma estrutura de treino montada” e lhe facilitou a vida.

Houve gente que os ajudou, incentivou e puxou por eles, fê-los sentir o apoio que lhes tirou as dúvidas quando lhes perguntaram se queria surfar por Portugal.

Pedro põe cara séria e elogia as pessoas que acreditaram nele. Tinha “parado de competir”, ficara sem patrocínios, carregara no botão de reset que lhe tirou os pontos no circuito de qualificação.

Chegou cá e começou a treinar outra vez e “nem [pensou] duas vezes” quando lhe propuseram competir por Portugal. “Por eles”, como diz, pelas pessoas que o apoiam e incentivam. A cabeça de Carol mexe-se, acena o gesto com que concorda com o irmão, embora calada pela inexperiência de só este ano ter começado a competir lá fora. “Lutar por Portugal passou a ser uma coisa natural. Inclusive, é muito mais motivante. É como se isto fosse uma nova carreira, é só coisas novas por conquistar. Se chegasse ao CT, é como se lá estivesse pela primeira vez, porque vou lá chegar por Portugal. É como uma carreira nova, sabe?”, continua Pedro, mais entusiasmado.

Pedro Henrique teve de esperar até à última etapa, no Guincho, em Cascais, para garantir o título nacional

Pedro Henrique teve de esperar até à última etapa, no Guincho, em Cascais, para garantir o título nacional

Liga Moche

Tanto ele como Carol são perseguidos pela onda que toda a gente que vê ou faz surf no país quer ver alguém a apanhar: a do circuito mundial. A que só Tiago Pires teve remada para lhe pedir boleia durante sete anos (de 2008 a 2014).

Os irmãos não sentem a pressão. Ao fim do primeiro ano a competir no QS, o circuito de qualificação, Carol olha “para as meninas” e vê que é possível lá chegar: “Não sou louca, sei que tenho muita coisa para trabalhar, mas é um sonho. É isso que nos dá motivação e nos faz querer mais, mais e mais”.

Pedro, como já lá esteve em tempos, defende que “a qualificação é muito mais simples do que a gente pensa, nós é que complicamos”.

Fala em nós e refere-se a ele, à irmã e, sobretudo, a nós, os portugueses. E a ele, porque em Pedro e em Carol já há um sentimento que os faz dizer “nós” quando falam das coisas que temos em Portugal. “Temos todas as condições: ondas tubulares, de vala, beach break, point breaks, temos tudo numa costa que é muito pequena e acessível. E há uma quantidade de swell enorme, por ano. A gente tem poucos dias sem ondas durante o ano”, diz ele. “Há uma frase que tenho sempre na cabeça: ‘O nosso lar é onde está o nosso coração’. E, quando viajo e sinto vontade em voltar para casa, quero voltar para Portugal, não para o Brasil. Sinto saudades daqui, da praia, do Guincho, da comida, da minha casa, da minha família que está aqui. Já está tudo ligado a Portugal”, explica ela.

O nós que há neles é o mesmo que os faz ter orgulho quando, lá fora, saem da água e erguem a bandeira portuguesa nas mãos. Acreditam que, daqui a tempos, o conseguirão fazer no circuito mundial de surf.

Os dois ao mesmo tempo? Talvez. Carol e Pedro Henrique gostavam. De Portugal, só não gostam de uma coisa, que os séculos nos puseram no sangue e que eles notam muito - o pessimismo.

Eles dizem que “temos de acreditar sempre, sempre em nós, sermos positivos”, eu digo-lhes que não é defeito, é feitio que a cultura nos deu.

Pode ser mau, como os irmãos dizem que é “a cultura dos patrocínios” em Portugal, onde as marcas e empresas investem muito nos eventos e pouco nos atletas. “Querem um atleta pronto, com resultados. Não escolhem uma surfista quando ele, ou ela, ainda não foram campeões nacionais. Mas, para uma pessoa ser campeã, tem que surfar, treinar, ter prancha e ir ao ginásio. Tudo isso é um investimento, ninguém nasce pronto”, desabafa Carol, para, agora, ser a vez do irmão anuir com a cabeça.

Pode ser que nós, ou eles, que são as empresas, comecem a mudar.