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A praia é outra, mas o que interessa é que “não há um único surfista a queixar-se”

De um dia para o outro, ou melhor, em poucas horas, o MEO Rip Curl Pro Portugal mudou de praia. A etapa portuguesa do circuito mundial de surf andou com a casa às costas e foi para onde iam estar as ondas. Francisco Spínola, o representante da World Surf League e responsável pela prova, teve que tratar de tudo. Mas disse-nos que tudo lhe dá “um gozo” que não consegue largar

Diogo Pombo

CARLOS BARROSO/LUSA

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Ele está a mil. Nem há um minuto lhe tinha enviado uma mensagem quando, a meio da tarde, o encontro. Está com um ar frenético, é apressado no caminhar, passa por mim num andar de quem quer correr. Estico o braço, cumprimentamo-nos. Ele desaparece e, na magia de cinco minutos, reaparece.

Diz que sim, que fala, com prazer e “todo o gosto”, mas não agora. Francisco Spínola tinha a cabeça no que o esperava, que era “montar tudo”. Não percebi logo. Estamos na estrutura do MEO Rip Curl Pro Portugal, plantada na praia dos Supertubos, em Peniche, e não há mais surf nessa quinta-feira. A etapa do circuito mundial já foi descansar. Os surfistas estão nos quartos de hotel, mas Francisco ainda ia demorar a chegar ao dele.

Passou as três horas seguintes, mais ou menos, a tratar de mudar a prova de sítio. A ondulação, o vento e a direção em que vai soprar, no dia seguinte, dão as pistas para a organização mudar de praia. São perto de dez quilómetros em que camiões, jipes e carros com tendas, cabos, cadeiras, câmaras e tudo quanto é logística percorrem para uma etapa do circuito mundial de surf passar para o pico do Fabril, perto de Ferrel.

Salvas as proporções, seria como sair de um estádio de futebol e montar outro, em poucas horas. “É isso que apregoamos nas conferências de imprensa. Não há nada como ter este resultado, diz Francisco, já na sexta-feira, enquanto olhar para o mar, num monte de areia onde conversamos, à frente das tendas do evento.

O bom de Peniche, que é ter várias praias viradas para lados diferentes, perto umas das outras, à mercê de ventos e ondulações distintas, terá sido uma das coisas que Francisco Spínola enfiou no dossier que, há anos, foi apresentar à Rip Curl. Enfiou-se num avião, desembarcou em Bali, na Indonésia, e teve a reunião com a marca que começou a tornar possível o circuito mundial ter uma paragem regular em Portugal. Deu resultado: desde 2009 que Peniche recebe uma etapa e isso não parece que venha a mudar em breve. Na altura, conseguiu a licença para um evento que, todos os anos, mudava de país e de onda. Agora, Portugal já é uma etapa quase residente.

Isso diz muito. E também significa muito. A prova custa à volta de €3 milhões para organizar, mas, em 2014, por exemplo, criou lucros a rondar os €28 milhões. Porque nos dias em que as ondas ajudam, os hotéis onde se dorme, os restaurantes em que se come, os carros que se alugam e os serviços que se usam estão lotados. E se, no meio de tudo isso, “ninguém se queixa”, como garante Francisco Spínola, então não há razão para as coisas não continuarem bem.

Pedro Mestre

Como foi o teu dia de ontem?
Basicamente, durante o dia, começámos a ver que a ondulação não estava a fazer aquilo que esperávamos. Não estava a entrar com a força suficiente para se surfar nos Super. Vimos que o vento mudou de repente, que ia ficar de sul, e estávamos preparados para isso. Já tínhamos treinado esta operação antes. Alugámos material móvel para este efeito: um camião 4x4, tendas da Proteção Civil e várias que nós, na World Surf League, já tínhamos. Depois, sabíamos que isto seria a prova clara de que não interessa o tamanho da estrutura. O que interessa são as ondas. Não há um único surfista a queixar-se, toda a gente quer é apanhar ondas e surfar o melhor que pode.

Quando tempo demorou a transportar e montar isto tudo?
Foi relativamente rápido. Tínhamos isto previsto para mudarmos em três horas e meia, era o nosso objetivo. Temos praticamente metade da estrutura já posta nesta zona. O que demora mais tempo é a parte do broadcast. Estamos a falar de muitas câmaras, temos que estar em direto para o mundo inteiro. Ou seja, cancelámos ontem [quinta-feira] a prova às 16h, às 18h ou às 19h estávamos aqui e, às 20h, já fazíamos testes, para ver se estava tudo bem.

De ano para ano, a prova fica mais fácil de organizar?
Sim. Por um lado, temos as equipas cada vez mais oleadas e competentes. Por outro, os eventos têm ficado cada vez maiores, a máquina fica mais pesada. Há mais coisas para levar, há cada vez mais dificuldade. Mas a tecnologia também ajuda. As câmaras e as coisas são cada vez mais pequenas. Estou convencido que, tal como a internet foi o momento de viragem do surf, porque conseguimos estar live onde, e quando quiséssemos, o desenvolvimento da tecnologia vai levar a que sejamos cada vez mais rápidos a mudar.

Sentes cada vez mais gozo a organizar isto?
Dá, eu adoro o que faço, a minha equipa também. O que me dá gozo mesmo é acordar de manhã, estarem altas ondas, as primeiras notas do dia serem oitos e noves e os surfistas, mesmo os que perdem, saírem da água com um sorriso na cara. A dizerem: “Tive oportunidade, mas o outro surfou melhor”.

Falas muito com eles?
Constantemente, mas não é a minha função. Temos o Travis [Lodge], que é o comissário da WSL para o evento. Ele sim, é a pessoa responsável por perceber se…

[Entretanto, ouve-se o latido e o ganir de um cão, vindo de uns canaviais que estão atrás de nós, na duna da praia. Francisco preocupa-se, vai ver o que é, pergunta a uns tipos que ali estão se está tudo bem. Tem o radar sempre ligado.]

Continuando.
Estava a dizer-te. Não há pior do que montar tudo e, depois, as ondas não estarem boas. Mas ninguém se queixa. É a única coisa que não controlamos. Como vês, com esta estrutura móvel, conseguimos fazer um bom campeonato.

[Volta a parar e a perguntar “o que se passa” com o cão, que afinal são vários cães. Dizem-lhe que pertencem ao dono da propriedade que faz fronteira com a praia.]

As pessoas da WSL reagiram bem à mudança de praia? Qual foi o feedback?
Foi bom. Ouve lá, toda a gente sabe o quanto custa fazer isto. Bastas chegares e veres a estrutura: as tendas, os dois satélites, as câmaras, os carros e as carrinhas lá em cima. Isto foi tudo montado em três horas. Mas, em termos de audiência global, é isto que queremos mostrar. Se não há ondas de um lado, temos ondas do outro. É isso que apregoamos nas conferências de imprensa. Não há nada como ter este resultado.

Até quando teremos uma etapa do circuito aqui em Peniche?
Depende. A prova, neste momento, é renovada anualmente em função dos resultados obtidos. Se, por um lado, temos que ter sempre em conta a parte do sponsoring, para que isto faça sentido à WSL e que não tenham de fazer um grandes investimento. O evento tem que ser autónomo. No outro lado da moeda, a qualidade do surf tem que ser boa. Tem que haver um bom mix. Se eles estivesse a perder de primeira em Supertubos, com onshore [vento a soprar da terra para o mar, que não se quer] era uma coisa. Mas assim, como está hoje, é outra.

As ondas têm sempre de compensar tudo, não é?
Claro. No Tahiti, por exemplo, a dificuldade é imensa. É tudo longe, tem que ser ir de barco… Mas, como a onda é muito boa, vale a pena.