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Se lhe apetecer, isto vai repetir-se mais vezes que o nome dele

John John Florence venceu em Peniche e, pela primeira vez, é campeão mundial de surf. A frase "era uma questão de tempo" nunca fez tanto sentido: aprendeu a nadar aos dois anos, começou a surfar com cinco, aos oito já se enfiava em Pipeline, onda havaiana e, com 13, foi convidado para o Triple Crown. Ele faz aéreos e sobrevive a tubos com a mesma facilidade com que encara o surf. "Já me disseram que tenho um estilo preguiçoso", admitiu, em tempos. Mas o talento é tanto que só não ganhará mais títulos se não quiser

Diogo Pombo

John John Florence não fez por menos: depois de garantir o título nas meias-finais, ganhou o MEO Rip Curl Pro Portugal e tornou-se no primeiro surfista a ser campeão mundial em Portugal

REUTERS RAFAEL MARCHANTE

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A mulher tinha acabado de estacionar o carro ali à frente. Viu-a olhando pela janela. Nos seus vintes, cabelo de um loiro quase branco, ela abriu a porta e tirou três pequenas cabeças, ainda mais loiraças, lá de dentro. Ela, senhora bonita, jovem e com curvas, mais eles, crianças de cinco, três e um ano, fizeram com que Jon Pyzel não antevisse o que queriam dele. A “mãe biquíni”, como o shaper de pranchas a recorda, entrou na loja de surf e pediu-lhe algo que o deixou estupefacto - uma prancha feita à medida para o filho mais velho. Com meia dezena de anos na idade, a mãe já o via merecedor de uma mordomia de surfistas graúdos. Pyzel achou estranho, duvidou, mas recebeu 200 dólares, deu a mão de obra de graça e pronto.

Três anos passam e Jon Pyzel combina um reencontro com esta família. Foi na praia, uma de muitas no Havai onde os surfistas parecem brotar da areia,. Lá chegado, olha para o mar, fita o tal miúdo mais velho numa onda e mal acredita no que vê. “Desceu uma onda e boom, saiu disparado num aéreo, aterrou-o de forma perfeita e, depois, continuou a surfar. Aquilo entrou em erupção na minha cabeça”, contou, há meses, à revista Outside, replicando a estupefação que sentiu ao ver o que a pequena cabeça amarelada por longos cabelos era capaz de fazer, em cima da prancha: “Ele tinha oito anos! Nessa altura, até os melhores surfistas do mundo não faziam manobras daquelas”. O miúdo estava à frente do tempo, e dos outros.

Esse miúdo era John John Florence.

O nome repetido não é engano. É homenagem, a que Alex, mãe dele, decidiu fazer a John Kennedy Jr., que viu com palmo e meio a fazer uma continência no funeral do pai, John F. Kennedy, o assassinado presidente dos EUA. O gesto comoveu-a ao ponto de batizar o seu filho com a alcunha dele, após engravidar na Europa, enquanto viajava com o pai da criança. John John conhece-o pouco, ou quase nada, embora também partilhe o nome com ele, o homem que abandonou a mãe e, há anos, acabou na prisão por se agarrar ao volante depois de ser agarrado pelo álcool. Ele viveu, cresceu e aprendeu com a mãe.

REUTERS RAFAEL MARCHANTE

É ela que, mal o filho sabe andar, o leva para a água e o ensina a nadar. John John tem dois anos, Alex veste-o com um colete salva-vidas e empurra-o nas espumas do mar. A brincadeira começa deitada, numa prancha de bodyboard, até ele se conseguir aventurar mais. Com cinco anos já está de pé em Pipeline, onda mítica e tubular do Havai, que fica a passos na areia de distância da residência dos Florence. Ele e os irmãos crescem na casa que a mãe, trabalhadora noturna, estudante diurna e preocupada constante com o dinheiro, vai alugando a surfistas. “Levantavas-te durante a noite, ias à casa de banho e havia dez tipos a dormirem no chão. Estarias a pisar corpos”, chega a recordar Nathan, o irmão do meio. O mais novo chama-se Ivan.

Ambos coabitam no mar, nas ondas e no jeito para o surf, mas nenhum tem tanto como John John. O pequeno pirralho com um farol loiro na cabeça é enérgico, supera todos na vontade e no à vontade, na simpatia que emana e na energia que dá a quem o rodeia. Em miúdo atira-se a ondas que o triplicam ou quadruplicam em tamanho. Ganha o respeito da gente de uma ilha que fervilha em orgulho local e na proteção do que é deles. “Os rapazes iam a Point Panic, uma onda estritamente para bodysurf, onde ninguém tinha autorização para surfar. Mas o John John fazia amizades com toda a gente e eles deixavam-no. Só a ele”, explica a mãe, que passou o gosto pelo surf aos filhos.

O jeito que nasceu com ele

Sem o pai em casa, o mais velho dos irmãos chega-se à frente desde cedo. Toma conta dos mais novos, olha pelas coisas quando a mãe não está, que é uma grande parte do tempo. Enquanto cresce, até Alex tem a sensação de ser ele “o líder da casa”, ao ponto de, às vezes, sentir que “era o pai” de toda a gente. Num ano, parece que John John cresce vários.

Aos seis começa a ser patrocinado por várias marcas e, em 2005, torna-se no mais novo de sempre a ser convidado para o Vans Triple Crown, uma competição com três provas que, anualmente, se realiza em Oahu, no Havai (e que, entretanto, já venceu duas vezes). Com 13 anos, magrinho nos 125 centímetros de altura, ainda passa a primeira ronda. “Não tenho dúvidas quanto à minha capacidade. Tinha de mostrar a toda a gente que podia surfar contra tipos mais velhos, provar que pertenço a isto”, diz, pouco depois, ao New York Times. Está lançado.

É mais ou menos nesta altura que a indústria do surf abre os olhos. Vê no adolescente havaiano um prodígio, com o potencial de surf proporcional aos milhões que pode render em popularidade e marketing. Começamos a ver um miúdo magro e loiro em filmes e anúncios, John John é a next big thing, adorado por todos no Havai e mimado até por Kelly Slater, com quem brinca “ao wrestling” e faz bodysurf quando o não sei quantas vezes campeão mundial pára na mesma praia que ele. John John, sobretudo, diverte-se na água e diverte quem o vê pela descontração e facilidade com que faz coisas fora do normal. “Basicamente, vou lá para fora, surfo e pronto. Já me disseram que tenho um estilo preguiçoso, mas não me importo. Para mim funciona, divirto-me e não planeio mudá-lo”, resume, com um riso na voz, em 2012, à revista Surfline. Ele é a descontração em pessoa.

Gosta de surf, ponto. Está na água porque isso o diverte, dá-lhe gozo. Os aéreos em que sobe mais alto e aterra melhor que todos, os tubos nos quais se enfia em backhand - de costas para a parede da onda - saem-lhe com a naturalidade de quem vai ao supermercado comprar fruta. É talvez pelo estilo tão descontraído que só aos 19 anos se dá ao trabalho de entrar para o circuito mundial de surf (2011). Demorou um ano a ganhar o primeiro evento, no Brasil, com a mesma idade com que Kelly Slater se tornou campeão mundial. Só em 2014 voltou a ser o melhor em alguma onda e, mesmo neste ano, apenas conquistou duas provas. Uma no Rio de Janeiro, a outra agora, em Peniche, vitória que lhe deu o título aos 23 anos. “Nunca pensei ganhar tão cedo. Não sei como reagir. Estou feliz por estar na água, por viajar e por estar a fazer aquilo que mais gosto”, explicou.

Porque John John gosta mais de surfar do que de ganhar.

Esse é o único problema que o havaiano tem. Um que apenas quis remediar este ano. Ele decidiu comer melhor, treinar mais, ir ao ginásio e preparar-se a fazer mais do que limitar-se a entrar no mar todos os dias. Começou a apostar em métodos esquisitos, como fazer uma piscina de baixo de água, agarrado à prancha, enquanto remava numa espécie de bico de pato constante - manobra que os surfistas executam para passarem por baixo de uma onda. Encarou o circuito a sério, concentrou-se na tarefa e foi o melhor. Porém, é como diz Kelly Slater: “O título mundial é importante para os surfistas que o querem ganhar. Mas não é a verdadeira escala pela qual os outros surfistas medem o respeito. Isso acontece quando rasgas dia sim, dia não”. Foi assim que John John Florence ganhou o dele.

DR

Uma vez, um jornalista disse que o havaiano lhe “dá a ideia de nunca aumentar o ritmo cardíaco”. John John admite, contudo, que ainda sente medo cada vez que rema mar fora, quando as ondas são grandes e impõem respeito. E também confessa que, um dia, vai adorar o momento em que deixar de competir - “No circuito, está sempre a fazer o mesmo. De repente, chegas a um ponto em que pensas ‘Ah, espera, estou aqui a surfar contra o Kelly e todos os outros que vi enquanto crescia”. E a vida de John John não feita apenas de de surf. Em casa, tem uma sala escura, para manipular as fotografias analógicas que vai tirando com a máquina que leva para todo o lado. Quando o mar não lhe dá ondas, gosta de subir ao veleiro de 35 pés que tem e de ir navegar. É raro o dia em que não faz meditação.

Também gosta de cinema e faz questão de a praticar. O ano passado, lançou “View From the Blue Moon”, o primeiro filme de surf gravado com resolução 4K, que ajudou a realizar. Ao lado do estúdio fotográfico, em casa, tem outro de cinema, onde passa horas com o câmara e o editor de vídeo que contratou para andarem sempre com ele. E não deve ser fácil, como apanhar uma onda de verão numa praia do Algarve - John John costuma acordar perto das 5h e, antes das 20h, já está a dormir. “Um dia, vou fazer só aquilo que me apetece”, desabafou, meses antes de ser campeão mundial.

Basta-lhe também apetecer para, antes disso, ganhar o título mais umas quantas vezes.