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Quando quiserem saber onde anda Kelly Slater, telefonem a Gonçalo Salgado. Ele saberá o que fazer

Um dia, quando ninguém na organização da etapa do circuito mundial de surf, em Peniche, sabia de Kelly Slater, houve uma pessoa que os safou. Pegou no telemóvel, perguntou-lhe onde estava e ele respondeu. Há seis anos que Gonçalo Salgado trata da segurança do evento e isso fez com que seja amigo de muitos dos surfistas que ali param. Como o é de Cristiano Ronaldo ou de Tony Carreira

Diogo Pombo

Pedro Mestre

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Há um cordão de gente alinhado com as grades que, entre a estrutura da prova e a areia, formam o corredor para os surfistas. São tantas pessoas que nem se vê quem lá passa. De repente, ouvem-se palmas e gritos, vêem-se miúdos a acorreram à saída desse cordão, com telemóveis e cadernos na mão. O súbito frenesim quer dizer que vai sair alguém importante dali. Pelo rebentar de entusiasmo, adivinhar quem é não serviria de atestado às capacidades de vidente de ninguém. Quem sai dali é o Kelly Slater.

Aqui está um dos carecas mais conhecidos do mundo. Sai a correr, quase a sprintar, com a prancha presa num dos braços e uma licra vermelha a tapar-lhe o tronco. Está a rir-se, mostrar os dentes e, a cada dois ou três passos, vira a cabeça. Olha para trás. Parece estar a fugir de alguém pela graça e pelo prazer da fuga. Uns dois segundos depois, aparece um tipo matulão, bem grande, alto e forte, a correr. Gonçalo Salgado também mostra os dentes, vai-se rindo, embora não tanto, pelo esforço que tem de fazer para acompanhar a passada de quem tem mais 11 anos do que ele.

Às tantas, Kelly Slater abranda, preso pela gargalhada que não consegue aguentar. Gonçalo alcança-o, já pode respirar. Acompanha-o durante uns 50 metros, até o surfista, que já foi 11 vezes campeão do mundo, decidir em que sítio quer entrar pelo mar dentro. A multidão segue-lhes o rasto, o português destoa pelo tamanho, mas ninguém quer saber dele. Está ali para garantir que nada de anormal acontece, para ser “um moderador”.

A cena repete-se mais umas quantas vezes. Gonçalo escolta vários surfistas de, e para a água. Tem um dos braços tatuados e vai sempre de walkie-talkie na mão, mas não é por isto que dá muito nas vista. É mais pelo tamanho, claro, e por estar nos sítios onde que costuma - junto dos surfistas, nas zonas reservadas para eles, à conversa, a rir-se com eles, a dar-se com eles e a ser amigo deles. Tudo porque é o responsável por garantir de que nada acontece a ninguém.

Desde 2010 que a Anthea, empresa de Gonçalo Salgado, coordena a segurança do MEO Rip Curl Pro Portugal, a etapa do circuito mundial de surf que se realiza em Peniche.

Aos 35 anos, é amigo de Kelly Slater, de vários outros surfistas e também é quase tu cá, tu lá, com Cristiano Ronaldo ou Tony Carreira, para quem também já trabalhou. Apenas falámos de surf e das histórias que tem de quem o pratica, mas foi o passado de Gonçalo – ligado às artes marciais ao MMA (Mixed Martial Arts) – que o ajudou a aproximar-se do melhor surfista de sempre.

Há bocado vi-te ali a correr atrás do Kelly Slater.
Pois, a gente acaba também por ter de treinar como os atletas. Ele estava a gozar comigo, a dizer que corria mais rápido do que eu. Até me atrasei um bocadinho, mas a multidão começou a chegar e ele abrandou logo.

Estás habituado à quantidade de pessoas que ele arrasta?
Estes campeonatos são muito próximos do público. Aqui então [pico do Fabril] há menos areia e não há bancadas. Mas há que dizer que a comunidade do surf, e as próprias pessoas que acompanham, respeitam muito. Querem alguma atenção dos seus ídolos, umas fotos e uns autógrafos, e nós estamos cá para gerir e para fazer, digamos, de moderadores.

O Kelly incomoda-se muito com isso?
Estes campeonatos têm uma magnitude bastante grande e o Kelly, como os outros, está mais do que habituado a estas situações. Eles também sabem que isto é o reverso da medalha. Se não tiverem fãs e seguidores, não têm o retorno que têm, nem existiria este tipo de provas e campeonatos. Quando perdes e achas que foi injusto, o que é normal quando há um julgamento de juízes, às vezes ficas chateado. Às vezes, eles têm de acalmar um bocadinho e pedem um bocado de privacidade. Nós tentamos fazer isso. Mas, se reparares, eles acabam por acalmar, dão as entrevistas, vão lá abaixo e passam um tempo com os fãs. Lido muito próximo com todos.

Mas não é sempre tramado lidar com as pessoas?
O que tentamos fazer é trazê-los para o corredor [formado por umas grades, que ligam a praia à estrutura da competição], eles fazem as entrevistas com a imprensa e, só depois disso, vão ter com o público. Quando chega uma criança, ou assim, eles têm sempre o cuidado de darem atenção. Nós estamos aqui para moderar só.

Já tiveste que afastar alguém?
Todos os dias, é normal. Lá está, eles são os ídolos e as pessoas são os seguidores. Por mais que os respeitem, são sempre efusivas. Querem tocar, agarrar, tirar uma foto ou estar um bocadinho com eles, o que nem sempre é possível. Tento sempre explicar a situação às pessoas, costuma ser tranquilo.

E chatices?
Houve uma ou duas situações, que acabam por ser um pouco caricatas. Uma vez, na praia de Supertubos, um dos atletas ofereceu uma parte das pranchas que partiu a uma menina. Depois, um fã mais entusiasta, achou que a prancha devia ser para ele e roubou-a. Eu fui buscar a prancha, só que o rapaz não reparou quando agarrei a prancha e, quando a puxei, ele veio atrás. Expliquei-lhe que a prancha não era para ele, era para a menina, que já estava a chorar, indignada. Ele percebeu.

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E dás-te bem com o Kelly Slater, por exemplo?
Acabamos por ter uma relação muito próxima. Como sou eu que coordeno toda a parte da segurança, fomos criando uma relação. Mas dou-me com todos. O Kelly é uma pessoa pela qual tenho muita consideração, gosto muito dele, já gostava como atleta.

Chega ao ponto de irem falando durante o ano, trocando umas mensagens?
[Ri-se, timidamente] Sim, falamos.

Ouvi dizer que falas melhor com ele do que a própria organização da etapa.
[Ri-se de novo] Sim, uma vez eles não sabiam onde o Kelly estava, então perguntaram-me. Eu peguei no telemóvel, perguntei-lhe se ele vinha, ele disse que sim e acabou por chegar.

Os surfistas têm mais confiança contigo?
Tem a ver com a forma de lidar. Passo muito tempo com eles, é normal que a gente crie laços.

Falam sobre o quê? Trocam conselhos sobre alguma coisa?
Eu não os peço, porque não sei surfar, é o meu handicap [solta uma gargalhada].

Já os safaste de alguma coisa?
Uma vez, e isto até foi algo badalado na imprensa internacional, houve uns roubos de pranchas e materiais em França, na etapa anterior à portuguesa. Eles vieram para cá e começaram a desaparecer pranchas de atletas, outra vez, nos hotéis. Na altura, ainda não fazíamos a segurança dos hotéis. Felizmente, um amigo de um dos surfistas conseguiu filmar o indivíduo que andava a fazer isso. Com a ajuda das redes sociais, conseguimos localizar uma pessoa que o conhecia. Depois, pronto, fui conversar com esse amigo, telefonei à pessoa, expliquei-lhe o que se passava e o que eu achava. E ele achou por bem entregar as coisas à organização. Até era uma pessoa com posses, mas olha, se calhar era um cleptomaníaco, ficava vidrado com as posses dos atletas.

Além do Kelly, dás-te bem com quem?
O Mick [Fanning], o Gabriel [Medina], o Felipe [Toledo], o [Miguel] Pupo… Muitos.

E não te dizem que tens sorte por te dares com esta malta?
Claro, comparado com estas pessoas todas que estão na areia. Gosto do meu trabalho, agradeço todos os dias por o fazer. É um privilégio estar a fazer uma coisa da qual gosto e que, se calhar, muitos gostariam de estar no meu lugar. Ou, pelo menos, de privar com eles.

Combinam muitas coisas fora daqui?
Já aconteceu. O problema é que, na altura do campeonato, é difícil. É mais fora. Nos dias off, eles até vão jogar golfe ou assim. Outro dia, estava a falar com alguns para irmos jogar ali a Óbidos, ao campo de um amigo meu.

Gostas de jogar?
Eu não, mas como sei que eles gostam, digo-lhes que vou lá dar umas tacadas com eles, fazer uma azelhice, e eles jogam.

Não consegues competir com eles?
Nada disso! Eles também são bons golfistas. Acho que um atleta de alta competição acaba por ser bom em tudo aquilo a que se dedica. Como o caso do Kelly, que seria bom em qualquer coisa que praticasse. Ele faz jiu-jitsu, também costumamos falar um bocadinho sobre isso, sobre luta. O meu background é de lutador profissional, portanto trocamos sempre umas ideias, porque ele gosta.

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