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Frederico Morais, quando estava à porta do circuito mundial de surf: “Isto deixa uma pessoa em pulgas”

Quando se meteu no avião para o Havaí estava na 28.ª posição do ranking de qualificação. Na madrugada de sábado surfou tanto na praia de Haleiwa que apenas perdeu para John John Florence, o campeão mundial e nativo lá do sitio, por uma centésima. Com este resultado, Frederico Morais ficou no 10.º lugar e bem perto de se tornar no segundo português a entrar para o circuito mundial de surf

Diogo Pombo

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Frederico Morais a domar uma onde em Haleiwa, praia havaiana onde não venceu o campeão mundial de surf, John John Florence, por uma centésima de pontuação.

Kelly Cestari/WSL

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Primeiro, há que dar o contexto. Houve um português que, em miúdo, numa época em telemóveis espertos, internet na palma da mão e informação sobre tudo, pôs mochilas às costas e andou a dar voltas ao mundo até conseguir entrar num sítio. Foi o primeiro, o precursor nas ondas vindo de um país onde muita gente nem sabia onde era. Esse português ficou no circuito mundial de surf durante sete anos, a batalhar, de 2008 a 2014.

Por isso é que há um antes de Tiago Pires e um depois. Só que esse depois ainda não chegou.

Era preciso haver outro, ou outros, alguém que fizesse o que ele fez e voltasse a colocar um português a ter uma vida baseada em viajar por sítios exóticos, com pranchas atrás, a surfar as melhores ondas do planeta com os tipos que melhor o fazem. Há uns dias, quando partiu para o Havaí, um português chamado Frederico Morais estava mais longe, do que perto, de o conseguir: era o 28.º classificado de um ranking que qualifica os dez primeiros para o circuito mundial. Para a elite onde toda a gente quer estar.

Na madrugada de sábado, quando era hora de dormir em Portugal, era tempo para o surfista de Cascais ficar um pouco mais perto de imitar Tiago Pires. Surfou muito, vincou linhas de ambição nas ondas da praia de Haleiwa e só foi parado por um homem. Um loiro havaiano, que tem uma casa numa das árvores do quintal, à qual sobe todos os dias para ver como está o mar, que por acaso é o campeão mundial de surf. Frederico Morais acabou com os mesmos pontos que John John Florence na final, e ficou em segundo lugar porque o havaiano tinha surfado a onda melhor pontuada.

E como tudo é uma questão de pontos, o português, de 24 anos, amealhou oito mil com o segundo lugar, sem os dois mil que teria a mais caso tivesse acabado na primeira posição - e que o teriam qualificado logo para a tal elite onde ele sempre sonhou chegar. Do 28.º lugar saltou para o 10.º, no meio dos dez primeiros que se qualificam para o circuito. Não está garantido. Falta chegar, pelo menos, aos quartos-de-final na próxima etapa, na praia de Sunset (onde Frederico chegou à final em 2013.), para não ficar dependente do que outros não façam.

Mas ele parece estar tranquilo, calmo com tudo o que se está a passar, sereno na voz com que nos atendeu o telemóvel, do outro lado do mundo. Era de manhã, tinha acordado há pouco da noite em que não dormiu como queria, pelo entusiasmo e pela felicidade e pelo frenesim que o envolve. Frederico Morais nunca esteve tão perto do sonho.

Kelly Cestari/WSL

Parabéns pela vitória. Obrigaste toda a gente a ficar acordada até tarde, deste lado do mundo.
[Ri-se] Obrigado, obrigado. Ao menos foi a um fim de semana.

Conseguiste dormir bem com isto tudo?
Não dormi como queria. Foram muitas emoções, muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, mas pronto, já deu para digerir e acalmar um bocado, respirar melhor.

Ainda estás com a cabeça a mil?
Sim, estou. Este foi o meu melhor resultado de sempre. Um segundo lugar numa etapa 10.000, no Havaí, onde a maior parte dos surfistas do WCT [circuito mundial de surf] estavam a competir… Poder acordar na décima posição do ranking é incrível, deixa uma pessoa em pulgas, sem dúvida alguma. Mas agora há que focar no próximo campeonato, falta mais um, há que voltar a fazer tudo de novo.

Sinceramente: ficaste a remoer aquelas decisões dos juízes?
Acho que não vale a pena remoer ou ficar a pensar nisso, porque é uma coisa que não vai ser mudada, já não depende de mim. Claro que os 10.000 pontos do primeiro lugar eram melhores que os 8.000 do segundo lugar, mas foi assim que foi. Agora é ir para Sunset e procurar um ainda melhor resultado.

Falaste com o John John Florence sobre isso?
Não. Dei-lhe os parabéns, obviamente, ele também me deu. E ficou assim. Já conheço o John John há muito tempo e pronto, ao menos perdi para ele, o campeão do mundo, e foi uma final entusiasmante, com bom surf. Isso é o mais importante.

Como vai ser agora esta semana até sexta-feira, dia em que arranca etapa na praia de Sunset?
A preparação vai ser a mesma, igual ao que tenho vindo a fazer durante o ano: surfar, manter o corpo ativo e fazer as minhas rotinas. E focar-me para ultrapassar este entusiasmo todo, porque ainda há trabalho para fazer.

Há três anos chegaste à final em Sunset. É uma onda que te deixa confortável, ou, pelo menos, mais à vontade?
Hum, sim, deixa-me bem à vontade. É uma onda da qual gosto imenso, sinto-me bem e gosto muito de a surfar. Espero que isso aconteça este ano outra vez. Agora vou-me focar em fazer todas as sessões de free surf lá para tentar aproveitar ao máximo aquela onda.

O facto de estares mesmo à porta do circuito mundial vai-te deixar mais nervoso?
É uma pergunta difícil… Não sei como vai ver. Vou ter de conseguir gerir bem as minhas emoções e os meus nervosismos. Agora tudo depende de mim. Tenho de ir pensando em melhorar sempre o meu resultado e vamos ver como corre.

Tinhas isto tudo na cabeça quando te enfiaste no avião para o Havaí?
Sabia que o ano só acaba quando os campeonatos terminarem. Sabia que ainda havia muitos pontos em disputa nestas duas etapas e vinha à procura disso. O Havaí é um sítio que eu gosto, com o qual o meu surf se identifica muito, que assenta bem nas ondas. Vim à procura de uma vitória. Não foi uma vitória, foi um empate, mas acabei no segundo lugar.

Na situação em que te encontras, achas que ajuda o facto de estares a competir aí, num sítio onde o surf está em todo o lado e faz parte da cultura local?
Claro que sim. Se há sítio onde eu gostava de estar a disputar pontos, as ondas que gostaria de surfar seriam, sem dúvida, aqui. Aqui há sempre ondas, ondas grandes, fazem muito o meu género de surf, e isso deixa-me mais relaxado.