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Heats, pontos e rankings. O que é melhor Frederico Morais fazer para chegar ao circuito mundial

Frederico Morais pode, já este fim de semana, garantir um lugar no circuito mundial de surf no próximo ano e ser o segundo português a consegui-lo, após Tiago Pires. Qualificam-se os dez primeiros do ranking e, à entrada da última etapa do ano, na praia de Sunset, no Havai, o surfista está no 10º lugar. O melhor é ele passar três rondas, just in case

Diogo Pombo

CARLOS BARROSO/LUSA

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Qualquer pessoa tem queda para um certo sítio em particular. Há sempre um local do qual gostamos particularmente, onde sentimos que os planetas se alinham para nós, que algures se dá um clique a nosso favor, que a felicidade aumenta sem sabermos porquê, como a de uma criança para quem o truque da boa disposição é dar-lhe a comer guloseima a predileta. Outras demais alegorias à parte, a relação que Frederico Morais nutre pelo Havai tem algo a ver com isto. E não somos nós a imaginá-lo.

É ele quem nos diz, há uma semana, na manhã em que desperta de uma noite com pouco sono, durante a qual teve de digerir o segundo lugar conseguido numa das etapas mais importantes do circuito de qualificação. O português apenas perdeu, e por uma centésima, para John John Florence, o campeão mundial de surf que nasceu, vive e é mais do que um peixe dentro de águas havaianas. Esse segundo lugar fê-lo dar um salto de trampolim na classificação e aterrar no décimo lugar, que lhe dá o direito a estar entre os melhores surfistas do mundo no próximo ano - caso as ondas tivessem acabado por ali.

Os oito mil pontos que Frederico Morais amealhou na praia de Haleiwa deixaram-no com 16.010 no ranking. São muito bons e, ao mesmo tempo, insuficientes. Mesmo com um pulo de 18 lugares na classificação, o português ainda tem de garantir mais pontos a partir desta sexta-feira, quando arrancar em Sunset, outra praia da costa norte na ilha de O’ahu, a última etapa do circuito de qualificação. O que seria motivo de pressão, de nervos, de cabeça a tilintar com a escala da tarefa, não fosse a boa notícia no meio desta ocasião: é ali que Frederico mais queria estar neste (bom) imbróglio.

Na manhã em que falou com a Tribuna Expresso, o português deixou-o bem claro: “Se há sítio onde eu gostava de estar a disputar pontos, as ondas que gostaria de surfar seriam, sem dúvida, aqui. Aqui há sempre ondas, ondas grandes, fazem muito o meu género de surf, e isso deixa-me mais relaxado”. Deve ter passado uma semana a surfar e a preparar-se para o que aí vem, enquanto nós fazíamos contas ao que é preciso acontecer para ele se tornar no segundo português a entrar no circuito mundial de surf, depois de Tiago Pires (2008-2014). Algo que nos obriga a escrever sobre heats, pontos e rankings.

CARLOS BARROSO

Não é o que Frederico Morais tem de fazer, é o que é melhor ele fazer

Os dez primeiros classificados do circuito de qualificação (conhecido por QS) entram, no ano seguinte, para o circuito mundial (CT), que é composto por 34 surfistas. Frederico Morais está com 16.010 pontos, que é um somatório das suas cinco melhores provas do ano: um 2.º lugar no Havai (8.000), um 1.º na Martinica (3.000), um 5.º no Brasil (2.650), outro 5.º na Costa Rica (1.260) e um 25.º na África do Sul (1.100). Um segundo lugar valer mais pontos do que um primeiro explica-se pelas categorias nas quais se dividem os eventos. Há provas de QS10.000, como as havaianas, que dão esses pontos ao vencedor, e outras de QS3.000, como a de Martinica, por exemplo.

Como Frederico Morais parte para a última prova do ano no top-10, isso dá-lhe o direito a entrar em competição apenas na segunda ronda. Mas ele tem chegar à terceira ronda e, pelo menos, conseguiur um 32.º lugar na prova para descartar a pior marca que tem no ranking - substituirá os 1.100 que conseguiu na África do Sul pelos 1.225 que esse 32.º posto em Sunset lhe dará. Ou seja, ganhará 125 pontos.

O que é muito pouco para o deixar descansado. A ele, e a nós. Se definirmos a pontuação mínima de qualificação nos 18 mil pontos, que corresponde ao limiar que serviu para o 10.º posto, de anos anteriores, entrar no CT, então o português terá de, pelo menos, chegar à quinta ronda do Vans World Cup of Surfing.

E até nem será preciso passar aos quartos-de-final para garantir que chega aos 18 mil pontos. Mesmo que seja eliminado na fase dos 16 melhores da competição (cada heat coloca quatro surfistas na água, ao mesmo tempo), bastar-lhe-á fazer um resultado no seu heat que lhe chegue para acabar no 14.º lutar em Sunset - receberia 3.275 pontos, que lhe dariam 2.175 para o ranking e um total de 18.185. Em princípio, esse registo chegaria. Mas, para evitar que se vá buscar as calculadores à gaveta lá de casa, o melhor será mesmo chegar à quarta ronda, que lhe garantiria um mínimo de 4.450 pontos.

O problema é que estas contas, mesmo certas, podem ser baralhadas um pouco por todo o lado. Porque até Nathan Hedge, nome do surfista que está na 54.ª posição do QS, a matemática dá esperança a toda a gente. O que faz com que todos dependam de alguém. Por isso, em vez de apontar o que Frederico Morais tem de fazer, é preferível ir pelo que é melhor o português fazer.

E depois há a questão da malta do circuito mundial que por ali anda, como Jeremy Flores, Keanu Asing ou Kanoa Igarashi. Gente que, caso fique entre os dez primeiros do circuito de qualificação (sim, eles podem participar nos dois), fica em situação de double qualifying, o que abre mais uma vaga.

Agarremo-nos então à boa notícia no meio de tudo isto. Frederico Morais sente-se em casa no Havai e, se duvida disto, fique a saber que ele, em 2013, chegou à final nesta prova, na praia de Sunset - ano em que foi eleito o rookie of the year, prémio para o melhor surfista jovem do Triple Crown havaiano (conjunto das três provas que lá realizam, entre novembro e dezembro).

Esperemos que ele tenha mesmo queda para surfar bem ali.