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Decore esta cara e este nome, Frederico Morais. Ele qualificou-se para o circuito mundial de surf

Saca, finalmente, tem um sucessor. Três anos após Tiago Pires sair do circuito, outro português vai dar voltas ao mundo, com pranchas debaixo do braço, e competir entre os melhores. Frederico Morais garantiu, na noite deste domingo, a qualificação para o Championship Tour e será o segundo surfista vindo de Portugal a competir no circuito mundial de surf

Diogo Pombo

CARLOS BARROSO/LUSA

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Ele, que está no Havai, teve que esperar um bom bocado.

Tinha acabado de sair da água, ainda com o fato e a licra da competição vestidas. Chamaram-no logo, como se faz no surf, para uma pequena entrevista, das rápidas. O jornalista, que nos seus tempos fora surfista, ri-se, animado, enquanto lhe pergunta como se sente. Antes de o deixar responder, desarma-o, diz-lhe que não vale a pena negar a pressão que, por certo, lhe está a fazer companhia. Frederico Morais, com um sorriso tão forçado quanto envergonhado, brincar que, quem está ali com ele, nem o deixa “mexer no telemóvel” ou espreitar as redes sociais. “Nem sei como estão as contas”, desabafa.

Nem nós sabíamos, porque estávamos presos à incerteza que, mesmo ínfima, não deixava que o português aparecesse aliviado na tal entrevista rápida.

Frederico Morais, ou Kikas, como lhe chamam no meio do surf, acaba de confirmar a passagem às meias-finais do Vans World Cup of Surfing. É a última etapa de um circuito do qual todos os que lá estão dentro querem sair, para entrarem num outro. Nesse, onde vivalma quer estar, o português está em décimo numa tabela que apura os dez primeiros para o circuito mundial de surf - o tal em que ele, e toda a gente, quer estar. Chegado à fase dos oito melhores da prova, a matemática diz, um pouco por alto, que Kikas está 99% seguro. Ele está praticamente dentro do circuito mundial de surf.

O ponto percentual que falta, porém, não o deixa, nem a nós, rir com conforto. Estas contas e matemáticas não são certas, porque atrás do português no ranking há surfistas que, caso acabem a prova havaiana à frente dele, o podem ultrapassar. É uma questão de números, pontos, subtrair o pior resultado do ano pelo melhor e averiguar esta lenga-lenga para Frederico Morais e todos os que ainda competem na praia de Sunset e que o perseguem na classificação.

O moral desta história, pois as contas já não interessam, é que, dois heats após o português sair da água, um brasileiro chamado Jesse Mendes, 12.º do ranking, é eliminado e fica pelos quartos-de-final. É neste momento que, algures na praia, alguém agarrado ao telemóvel terá dado a notícia ao português - já tinha a qualificação garantida para o circuito mundial de surf, o Championship Tour.

Não o é apenas por Jesse Mendes sair de cena, mas porque os três surfistas que ainda o podem apanhar calham na mesma meia-final que Kikas. Ou seja, um ficará sempre pelo caminho. Evidência que safa Frederico Morais, porque as dezenas de milhar de pontos que já amealhou o farão subir uns lugares no ranking, os suficientes para ficar entre os dez primeiros.

E agora, que pouco passa da meia noite em Portugal e Kikas ainda nem regressou ao mar, para as meias-finais, a tal matemática complicada assegura que, em 2017, ele estará a surfar no circuito mundial de surf.

O que é bom e um alívio para um país que, com tantas praias, ondas, reputação e gente a gabar-lhe a queda para o surf, volta a ter um surfista entre a elite da modalidade. Antes, teve apenas um, chamado Tiago Pires, ou Saca de alcunha, que entre 2008 e 2014 desbravou sozinho um caminho que, agora, Frederico Morais vai alongar.

Valeu a pena esperar.

E valerá a pena esperar mais um pouco, porque a esta muito boa notícia junta-se uma boa. Mesmo que não vença o Vans World Cup of Surfing na praia de Sunset, o português já é líder do Triple Crown havaiano - um conjunto de três provas (duas do circuito de qualificação, uma do CT) que fecham a temporada mundial de surf. O que lhe deverá valer um convite para participar no Pipeline Masters, a derradeira etapa do circuito no qual ainda não está. Mas estará, para o ano.