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Kikas, visto pelo pai e pelo tio

Frederico Morais apurou-se para o circuito mundial de surf e tornou-se apenas no segundo português a consegui-lo. Falámos com Nuno Morais, o pai que entrava com ele no mar para o empurrar para as ondas. E com Tomaz Morais, o tio que já foi selecionador nacional de râguebi e sabe como o trabalho que o levou até aqui vem, e sempre veio, da família. É assim, na primeira pessoa, que veem Kikas

Diogo Pombo

Ed Sloane

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O pai que ele despachou ao telefone (o que é bom sinal)

“Na minha profissão conheci uma bodyboarder, a Dora Gomes, que um dia me ofereceu uma prancha. E o Frederico, em Vilamoura, naquelas ondas pequeninas, punha-se em pé na prancha de bodyboard e vinha a fazer surf, nas espumas. Ainda usava bóias, devia ter uns cinco anos. No verão seguinte pediu-me uma prancha de surf e, na altura, fomos a uma loja, que era a Energia Tropical, e comprámos uma prancha que até tinha dois decks [camadas de borracha, onde devem assentar os pés].

A mãe do Frederico começou a ir para a praia com ele. Ia para as espumas, sozinho. No fim de semana, quando cheguei à praia, pensei que o melhor era irmos lá para fora, onde estavam os outros a surfar, para ele surfar o verde e não a espuma. Como eu tinha sido nadador, comecei a ir com ele para dentro de água. Ia buscá-lo, empurrava-o e voltava a pô-lo nas ondas. Fomos construindo assim. Até que chegou o dia em que ele disse que não queria mais o pai a empurrá-lo.

Começámos a ir fazer umas competições, como o Gromets, da Quiksilver e, no seu escalão, ele estava sempre nas finais. Fui conversando com pessoas que tinham escolas de surf, como o João Macedo e o Pedro Barbudo. Entretanto, apareceu o Tiago Pires, por causa da fisioterapia, e ficámos amigos. Ele ia dando os seus conselhos. Todos os anos, o Kikas passou a fazer um mês na Austrália, durante a Páscoa, e outro mês no Havai, nesta altura do Natal. Só voltávamos em janeiro, íamos sempre em família - eu, a mãe do Kikas e a irmã - e passávamos lá os anos dele.

Até que, com 16 ou 17 anos, começou a fazer viagens sozinho. Em determinado momento, rompemos um bocado o cordão umbilical. Passou a viajar com a Billabong e o Richard Marsh, que é uma ótima pessoa e que, felizmente, o encontrámos. Hoje é o treinador dele. Antes, o Frederico tinha sempre ajudas de treinadores, tanto na Austrália como no Havai. E eu ajudava-o por cá, filmava-o, ia compondo as coisas, com a minha astúcia de pai. Queremos o melhor para os nossos filhos e, portanto, ficamos mais atentos e dedicamo-nos 100% a eles.

Ele é um miúdo que, aos 15 anos, ia comigo para os treinos às 5h30 da manhã. Treinos físicos. Era alguém com um querer enorme e muito compenetrado naquilo que quer. Nunca deixou de viver a infância, mas sempre soube que tinha objetivos a atingir, que era o CT. Que depende em muita coisa: em nós, no que nos rodeia e em toda a gente que está a tentar entrar também. É uma janela muito apertada para se entrar. Há muito bom surf, muita qualidade, muita competitividade e muitos surfistas do circuito mundial a virem cá abaixo, para se requalificarem. Mas nunca deixámos de acreditar.

O Frederico ainda hoje usa uma expressão que digo sempre - “Mantém-te entre os melhores e o teu dia vai chegar”.

Há pouco tempo, fui ao Brasil com ele, para uma etapa do QS, vi-o surfar durante dez dias, ele ficou em quinto no campeonato e, quando me fui embora, disse-lhe: “Acho que estás com um surf fantástico, num bom momento de forma, portanto vai para o Havai e diverte-te, porque algo te pode sorrir”. Ele soube aguentar os momentos de pressão e lidou com as ondas de forma incrível. Mostrou-se sempre calmo.

Não me custou estar longe. Estava confiante e seguro. Tinha uma formiguinha na barriga, mas todas as madrugadas fazia exercício físico, para estar com ele no esforço. E tive o coração com ele, porque essa vibração passa. Às vezes, era ele que estava mais preocupado com o pai, no Havai, a querer saber como estávamos ou onde eu ia almoçar. Ele está rodeado de pessoas excelentes, como o Ryan Callinan, que também andou no circuito de qualificação. Isso é muito importante porque, como digo muitas vezes, temos que trabalhar no silêncio para o nosso sucesso fazer muito ruído.

Senti uma ansiedade grande por ele. Em Haleiwa [onde Kikas surfa o primeiro evento no Havai], só queria que ele chegasse o mais à frente possível e que saísse de lá com um sorriso na cara. Quando ele ficou em segundo lugar, pensei mais seriamente na qualificação e, neste campeonato, em Sunset, já o vi com outros olhos. Mas estava confiante. Até hoje, ao almoço, contava a um amigo como sempre acreditei que ele ia conseguir. Vi-o tranquilo. Não digo que ele não estava nervoso, só que foi capaz de passar uma imagem de calma. O que é importante num atleta de alta competição, pois quando mostramos fragilidades, o nosso adversário mata-nos.

Quando falei com o Kikas, logo a seguir à prova, houve muita lágrima. “Não acredito, não acredito, isto é um sonho”. Correram muitas lágrimas. Disse-lhe para gozar esta hora, que era para ele usufruir e lembrar-se de toda a dedicação e esforço que teve para chegar aqui. E ele, com a humildade que tem, disse: “Pai, tenho que desligar porque está o João em linha”. Desligou-me o telefone, despachou o pai para dar atenção aos amigos. Isto é de atleta, porque qualquer outro pensaria que o amigo podia ligar depois. Ele não: atendeu um excelente amigo e isto mostra o caráter de uma pessoa. Outro dia, li uma entrevista em que o tio do Rafael Nadal disse que, primeiro, formou-lhe o caráter e só depois fez dele um tenista.

O caráter faz uma pessoa e um campeão. E acho que o Kikas tem isso. É uma pessoa humilde, tranquila, dedicada, que não vemos a criticar ou a dizer mal de alguém e que sabe onde quer chegar.”

Kelly Cestari/WSL

O tio que o desencorajou a seguir o râguebi

“É uma história épica dentro do que é a realidade do nosso desporto. Foi uma aposta claríssima do pai, que era um desportista, um atleta e um competidor por natureza. Tem uma genética cheia de raça, que transmitiu por inteiro ao Kikas. Como, infelizmente, a cultura de desporto não é a maior no nosso país, e a compreensão do treino ainda é muito pequenina, aquilo que o Nuno foi fazendo com o Kikas também foi criando algum ruído de crítica em que não compreendia a evolução de um processo de treino.

As pessoas achavam que os surfistas não treinavam, que tudo se fazia sem rigor, sem exigência e sem uma aposta séria. Na nossa família, sempre aprendemos a fazer o contrário no desporto. E o meu irmão, com muita facilidade, transmitiu-lhe esses valores. Sentiu que o Kikas, realmente, tinha talento, e percebeu que a alegria com que encarava toda esta exigência do treino lhe permitiria seguir uma carreira. Ainda mais quando o Kikas equaciona com o meu irmão que queria ser profissional de surf. Ele não hesitou.

O que não é uma coisa muito normal numa família portuguesa, num país onde somos imperados pelos estudos e pela exigência de termos uma carreira académica. Mas o meu irmão e a minha cunhada, a Marina, tiveram uma visão diferente. No fundo, apoiaram-no e procuraram a felicidade dele. No fundo, é a vida que o Kikas tem tido nos últimos tempos, um apoio total para alcançar um objetivo que colocou desde muito cedo - ser surfista profissional e ser surfista do circuito mundial.

Somos uma família muito unida. Eu, como tio, tenho uma relação muita próxima com o meu irmão, estamos juntos praticamente todos os dias. Falamos muito e ia ouvindo a parte boa e a menos boa que estas coisas também têm. As dúvidas, as ansiedades. Mas, como partilhamos muito a mesma forma de estar no desporto, era fácil perceber o que ia sendo preciso. Depois, fui participando em pontos da vida do Kikas quando era necessário. Por exemplo, quando era necessário optar por recursos humanos, como um psicólogo ou um treinador, o meu irmão pedia-me sempre conselhos.

Ao Kikas, fui sendo mais um exemplo no desporto, de alguém que também seguiu uma carreira contra tudo e todos, quando poucos acreditavam que ser treinador de râguebi era uma profissão. Também vivi um bocadinho o que o Kikas está a viver.

Depois, ele sempre foi vendo muitas coisas. O meu irmão jogou râguebi até muito tarde e, muitas vezes, levava o Kikas para o balneário. Já em miúdo ele foi incutido deste espírito. E nós, muitas vezes, quando estávamos em casa, em família, 80% da conversa centrava-se à volta da competição e do desporto. São coisas que se passam.

A certa altura, o Kikas quis jogar râguebi. Mas aí, em vez de o motivarmos, desencorajámo-lo. Ele é um adepto fervoroso do Cascais e tem muitos amigos que hoje jogam na equipa sénior. Ainda bem que ele resistiu e seguiu o caminho do seu talento. Mas tinha dado bom jogador - qualquer modalidade que ele fizesse iria ser bom. Quando o desporto é a paixão, é uma questão de escolher. Quem faz desporto por fazer, ou porque é encaminhado, não consegue.

As pessoas nunca vão compreender o que é passado de forma invisível, quase filosófica. É o que está dentro de nós e o meu irmão passou-lhe isso. Conheço o Nuno como ninguém e sei como ele vivia, e vive, estes momentos competitivos.

O meu irmão, por exemplo, se era para fazer 100, ele fazia 300. Se era para correr uma hora, corria duas. Se era para bater um recorde, ele batia dois. O meu irmão sempre foi assim. Em casa, ele treinava segunda, terça, quarta, quinta, sexta e domingo. Jogávamos ao sábado e, na manhã seguinte, estávamos a treinar boxe. Se, hoje em dia, contar isto a cientistas do treino, eles dizem que é impossível, que não há pessoa que aguente.

Mas, quando a mente quer, o corpo vai atrás. Foi assim que nós crescemos e vivemos.

Não é fácil, porque vivemos numa geração de conforto e que se limita por valores médios e não por uma exigência máxima. Mas o Kikas é exatamente o contrário de tudo isso.

Ele tem este espírito. A calma que o Kikas tem quando está em competição é-lhe transmitida por estes valores. É um rapaz extremamente humilde. É respeitador, sabe reconhecer e sabe treinar. Tudo se vê, depois, em competição. E acho que teve uma ajuda muito forte nos últimos tempos, desde que o meu irmão decidiu retirar-se.

O Nuno foi treinador dele sem nunca ter feito surf, o que diz tudo. Ele foi aprender. Passava horas em casa, sentado no sofá da sala, a passar para a frente e para trás vídeos do Kikas a surfar. A mim, que percebo zero, a minha vida são placagens, dizia-me: "Já viste o pé, já viste isto, já visto aquilo". O meu irmão tentou aprender com os melhores. Teve a calma para saber o momento em que passou o Kikas a outro treinador. E soube escolhê-lo.

Ainda não falámos. Ele está do outro lado do mundo e enquanto não acabar a última competição em que pode estar envolvido, eu não me meto. Sei o que é estar em competição e sei que não vou acrescentar nada. Se ele quiser, sabe que pode perguntar.

O pior inimigo que os atletas podem ter é o telemóvel e as redes sociais, que são distrações que podem rebentar com o processo todo. Há coisas que se dizem, às vezes até pequenas e com bondade, que mexem com um atleta. O Kikas manteve-se concentrado, foi deixando adversários para trás e qualificou-se sem espinhas.”