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Há um quarentão a surfar entre os miúdos. E não, não é Kelly Slater

Houve um tempo em que Glyndyn Ringrose perdeu a confiança e não se conseguiu manter no circuito mundial de surf. A vida dele passou a ser mulher, os dois filhos, a religião e o fabrico de pranchas. No final de 2016, perdeu um testículo para um cancro e quis tentar voltar espreitar a vida que tivera. Aos 43 anos, e depois de 16 épocas fora do circuito, ele vai competir na terceira etapa do circuito, em Bells Beach, contra rapazes que eram crianças quando ele andava nesta vida

Diogo Pombo

Esta fotografia foi tirada no Tahiti, em 2000, num dos últimos eventos em que Glyndyn Ringrose surfara no circuito mundial.

Allsport Australia/ALLSPORT

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Pensem comigo, a ver se chegamos à mesma pessoa.

Ele é daqueles que nasceu para o desporto. Seria bom, provavelmente o melhor, em qualquer coisa que escolhesse fazer. Optou pelo surf. As pranchas nas quais se pôs em pé sempre parecerem o prolongamento do seu corpo. Deslizavam com ele, obedeciam-lhe como se fosse um sexto membro, a rasgar, a cortar, a saltar ou a desenhar linhas bonitas em ondas. Ele sempre foi tão bom que ganhou como ninguém ganhara antes. Foi cinco vezes seguidas campeão do mundo, fartou-se do surf, deixou de competir, teve saudades, voltou a competir, e foi de novo campeão.

Tem onze títulos e muitos recordes a atá-los. Foi o primeiro a sair da água com uma dupla perfeição, duas ondas pontuadas com um 10 que lhe deu um 20. É o mais novo e o mais velho de sempre a ser o melhor do mundo. E a gente, literalmente toda a gente, sempre ficou boquiaberta ao ver as coisas que ele ia fazendo. Ele é o senhor surf, o careca mais conhecido do mar, o americano de olho azul cujo nome se confunde com um desporto.

Acho que todos chegámos a Kelly Slater.

Ele tem mil e uma coisas especiais e, agora, podemos focar-nos em uma - o senhor está com 45 anos e continua a competir. Muitos dos surfistas que estão no circuito mundial nem eram nascidos quando ele venceu o primeiro título (em 1992, por exemplo, Frederico Morais tinha uns meses de vida). E habituámo-nos a vê-lo como uma espécie de deus sagrado do surf, a quem o tempo parece não importunar, enquanto ele continua a viver numa condição em que a idade não o parece afetar.

É estranho, por isso, quando aparece outro surfista com mais de quatro décadas desta vida, a competir no mesmo sítio que Slater. Mas é o que vai acontecer em Bells Beach, no sul da Austrália.

Darren McNamara/ALLSPORT

Mais do que estranha, a história de Glyndyn Ringrose será peculiar. Filho de pais neozelandeses e nascido em Vanuatu, passou a infância a saltitar de um minúsculo país plantado no Pacífico para outro. A primeira onda foi apanhada nas Ilhas Salomão, em cima de uma canoa dos nativos. Quase na adolescência, mudou-se com os pais para Phillip Island, nos arredores de Melbourne, terra encostada ao mar e abrigo de praias e ondas com muito por onde escolher.

Glyndyn já surfava e começou a fazê-lo mais a sério. Sendo dos melhores entre crianças, miúdos, adolescentes de Victoria, estado do sul da Austrália, começou a surfar fora da grande ilha da Oceania. Os campeonatos e as vitórias e o talento que aproveitava melhor que muita gente fizeram-no querer fazer vida do surf. E viver a surfar implicava ser surfista do circuito mundial. Ele qualificou-se em pouco tempo, não sofreu o que a maioria sofre com as horas, os anos e as voltas ao mundo até entrar no circuito. “No meu primeiro ano estava tão confiante, tudo fluía super bem. Tinha confiança em quem era e para onde queria ir, tudo corria bem”, disse, há uns anos, à revista Sea Stoke.

Esse primeiro ano foi em 1999, quando Kelly Slater se tornou sabático e estava a dar uma pausa à sua relação com o surf profissional - quando já tinha seis títulos conquistados. E Glyndyn Ringrose deu-se bem com essa vida.

Ele foi considerado o rookie do ano. Estava confiante. Mas essa confiança caiu a pique no ano seguinte, em que perdeu bem mais vezes do que ganhou e não se requalificou para o circuito. “É incrível como a confiança importa quando estás a competir. Quando vês de fora, não há muito a separar os vencedores dos perdedores. É tão renhido. Mas vence o tipo que tem aquele bocadinho de confiança a mais”, explicou, ao rebobinar as memórias desses tempos.

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Tempos que o desmotivaram e atiraram para debaixo de água. Escapou-lhe a confiança, duvidou dele próprio e refugiou-se cada vez mais na mulher. Devoto cristão e ainda mais fiel à família, retirar-se-ia em 2001 do surf profissional. Aprimorou-se como surfista de paixão e não de competição, como marido, pai (tem dois filhos) e shaper, nome que se dá a quem desenha e fabrica pranchas. O surf continuou nele, dentro dele e com ele a surfá-lo a cada oportunidade que tinha, pelo prazer que isso nunca lhe deixou de dar.

E pronto, era isso.

Mas Glyndyn quis tentar a sorte uma última vez. Não tinha nada a perder, pensou. Sobretudo após ter perdido o testículo esquerdo para um cancro, no final de 2016. O australiano esperou que a terceira etapa do circuito deste ano parasse em Bells Beach, do outro lado da baía de Melbourne, saiu da sua casa, em Phillip Island, e inscreveu-se nos trials.

Fez figura na prova de acesso ao evento, ganhou-a e, 16 anos depois, voltará a competir numa etapa do circuito mundial de surf. “Estou a aproximar-me dos 44 anos e não me resta muito tempo na carreira como surfista. Ainda tenho o desejo mental e o ímpeto competitivo, mas, para mim, é uma questão de querer que o meu corpo faça as coisas que o quero ver a fazer”, explicou, ao falar da façanha à World Surf League (WSL), antes do evento.

Ele vai surfar na primeira ronda do evento e calhou-lhe ser contra John John Florence, o atual campeão do mundo - que era um puto loiro, de sete anos, quando Glyndyn Ringrose entrou para o circuito -, e Jeremy Flores, um dos poucos que não nasceu nos anos 90.

Estávamos a falar de um quarentão. Mas não era aquele que vocês pensaram primeiro.

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