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Menos um campeão do mundo - e a culpa é de Frederico Morais

Em Bells Beach, na Austrália, onde se vai realizando a terceira etapa do circuito mundial de surf, o português está a ter a melhor prestação da temporada. Na madrugada deste domingo, Kikas eliminou Miguel Pupo antes de ser melhor que Gabriel Medina, campeão mundial de 2014. Frederico Morais está na quarta ronda da prova e entre os 12 melhores do evento

Diogo Pombo

Jack Barripp/WSL

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Ondas a quebrar para a direita, grandes, com tamanho a chegar aos dois metros. Há um ligeiro vento a soprar de terra que dá uns cabelos brancos às massas de água. Elas são compridas, com uma parede bem vertical, a pedirem que alguém as rasgue com força, a abusar dos rails da prancha.

Em Bells Beach, no sul da Austrália, estava um dia para Frederico Morais.

O português fora o pior de três na primeira ronda. Perdera. Estava-lhe a acontecer o mesmo que em Margaret River, a segunda paragem do circuito, onde foi repescado para a segunda ronda e perdeu. Agora, tinha de ultrapassar Miguel Pupo, um brasileiro que leva muitos mais anos desta vida de circuito e de surfar contra os melhores.

Mas Kikas foi melhor. À terceira onda que apanha, faz com ela coisas que poucos tinham feito tão bem antes dele - os juízes dão-lhe um 9.67 numa escala em que o 10 é uma espécie de perfeição. O português fica na frente da bateria e o brasileiro persegue-o até ao fim. Não o apanha e Frederico Morais passa à terceira ronda.

Ele já igualou o melhor que fez esta ano - em Snapper Rocks, na primeira etapa do circuito, é eliminado na terceira ronda pela lenda do careca que sabemos bem quem é.

Agora sai-lhe na rifa outro campeão do mundo do surf. O adversário é Gabriel Medina, outro brasileiro, um dos tipos que mais força, poder e boa agressividade mete em cada manobra que executa em cima de uma prancha.

Nos 30 minutos que passam dentro de água, Frederico escolhe remar para apenas três ondas. Elas dão-lhe em troca as pontuações de 1.23, 8.77 e 5.17, e os 13.94 que o somatório das duas melhores ondas lhe dá é suficiente para superar o que Medina consegue fazer em quatro ondas.

O português ganha.

E, no final, fala à World Surf League (WSL) como a pessoa humilde, terra a terra e calma que é: "Não me quero precipitar. Estou muito entusiasmado por continuar a surfar, porque as ondas estão muito divertidas. Espero que consiga continuar a proporcionar um bom espetáculo para todas as pessoas que vêm a Bells Beach".

Kikas conseguiu o melhor resultado do ano e está na quarta ronda, onde vai surfar contra Caio Ibelli, mais um brasileiro, e Owen Wright, o segundo classificado do circuito e vencedor da primeira etapa do ano. É provável que o faça algures durante a madrugada desta segunda-feira.

  • As mãos na água, a cabeça no mar

    Surf

    O título do livro de Mário Cesariny podia ser um dos lemas da vida de Frederico Morais. Ele tem as mãos na água de cada vez que toca na prancha, no fato, num abraço ao pai ou no cabelo com sal e aloirado pelo sol. Que são muitas vezes, porque a cabeça de Kikas está sempre no mar e nas ondas desde que a mãe, à beira da água, o viu, pela primeira vez, a pôr-se de pé na prancha, aos 7 anos