Tribuna Expresso

Perfil

Surf

Filipe Toledo tentou invadir a cabine dos juízes e acabou fora do mundial

O surfista brasileiro foi suspenso do circuito mundial de surf ter tentado invadir a cabine dos juízes, após ser eliminado da etapa do Rio de Janeiro, devido a uma interferência. Filipe Toledo pediu desculpa, diz que está envergonhado e que se descontrolou, mas já não vai poder competir no próximo evento, nas Ilhas Fiji

Diogo Pombo

Damien Poullenot

Partilhar

Quem faz surf, ou bodyboard, ou o que seja, conhece esta situação. Está no mar, sentado na prancha, e vê uma onda a aproximar-se. Caso ela quebre para a esquerda, e se houver alguém do seu lado esquerdo, a remar para essa mesma onda, há uma regra não instituída que manda o surfista que está por fora abdicar. Desistir dessa onda, porque há um tipo por dentro. Logo, mais perto do sítio em que a onda quebra na espuma, onde ela parece ter mais força e onde se vê mais parede para surfar.

O senso comum e o bom senso costumam tirar da onda o infeliz que está mais por fora. É a vida.

Mas a vida, como sabemos, é muito à base do cada-um-sabe-de-si e há sempre quem ignore estas leis respeitáveis e não instituídas. Como Filipe Toledo, um brasileiro magro e pequeno, corpo encolhido demais para o talento que aprisiona, que resolveu não ter tudo isto em conta quando, em Saquerema, no Rio de Janeiro, remou para a mesma onda com Kanoa Igarashi.

Era a décima bateria da ronda três da quarta etapa do circuito mundial de surf. E, como era também a primeira onda, nem o brasileiro ou o americano tinham a prioridade do seu lado - que é uma de duas coisas que a World Surf League (WSL) inventou, há muitos anos, para tirar o caos à competição nas ondas e dar alguma ordem a isto. Daí que, a partir do momento em que uma onda tenha sido surfada, há sempre alguém com prioridade. E se alguém não a respeita, é penalizado com uma interferência.

Depois há o que Filipe Toledo fez. Porque era a tal primeira onda da bateria, ninguém tinha prioridade, e o brasileiro remou ao lado de Kanoa Igarashi e colocou-se de pé na prancha. O problema é que o americano estava por dentro e, quando tal acontece, as regras não estão do lado dele:

“O surfista que está no lado de dentro da onda tem o direito incondicional de passagem para toda a duração da onda. Será decretada uma interferência caso a maioria dos juízes determine que um surfista prejudicou o potencial de pontuação da onda ao surfista que tinha o direito de passagem.”

Toledo ficou zangado, a gesticular na água e, lendo-lhe os lábios, a disparar palavrões para o ar. Achou que a onda seria dele. E mais desgostoso terá ficado quando os juízes lhe decretaram a interferência que, praticamente, lhe acabou por dar uma derrota na bateria - porque tal implica que apenas seja contada a melhor onda de um surfista, e não as duas melhores, como é normal. Filipe Toledo perdeu e foi eliminado do evento onde surfa em casa.

Buda Mendes

Ele gostou ainda menos disto. Zangado, saiu da água e quis ir pedir explicações aos juízes. Tentou subir ao palanque que está na praia e teve de ser barrado por um segurança. Perdeu a cabeça.

Como resultado, a WSL decidiu aplicar-lhe uma suspensão de uma prova, o que o tira do próximo evento, em Tavarua, nas Ilhas Fiji (de 4 a 16 de junho). “A WSL anunciou que Filipe Toledo foi multado e suspenso da competição após o incidente no Oi Rio Pro. O Filipe não será autorizado a competir em Fiji. Ambas as partes estão desiludidas com o que aconteceu, mas a WSL está agradecido pelo facto de Toledo ter feito um pedido de desculpas aos fãs, aos patrocinadores e à WSL”, lê-se, no comunicado que a entidade publicou, na segunda-feira.

O brasileiro ferveu dentro e fora de água, a WSL castigou-o. Ele aceitou e aproveitou para explicar a situação e confessar que nada disto o deixa orgulhoso. “Sou um tipo emotivo e o surf é a minha vida. Tive uma interferência, fiquei muito chateado e as minhas ações foram inaceitáveis. Depois de me acalmar, apercebi-me que não estava em mim. Peço desculpa pelo meu comportamento e quero pedir desculpa aos fãs, aos meus patrocinadores, aos jornalistas e à WSL. Assumo toda a responsabilidade, aceito a suspensão e estou muito desiludido por falhar o próximo evento, mas estou ansioso por regressar mais forte a Jeffreys Bay [a etapa seguinte à das Ilhas Fiji, que se realiza na África do Sul]”, escreveu Filipe Toledo, no mesmo comunicado.

A moral desta história é que um dos melhores, mais espetaculares e atrevidos surfistas do circuito e um dos que mais gosta de puxar a corda ao que já foi feito e tentado - se não acredita, veja e oiça o que dizem sobre ele -, não vai falhar uma prova porque se portou mal. E, no fundo, porque ferveu muito com uma situação que acontece muitas vezes em tudo quanto é surf, seja profissional, ou não.

Partilhar

  • As mãos na água, a cabeça no mar

    Surf

    O título do livro de Mário Cesariny podia ser um dos lemas da vida de Frederico Morais. Ele tem as mãos na água de cada vez que toca na prancha, no fato, num abraço ao pai ou no cabelo com sal e aloirado pelo sol. Que são muitas vezes, porque a cabeça de Kikas está sempre no mar e nas ondas desde que a mãe, à beira da água, o viu, pela primeira vez, a pôr-se de pé na prancha, aos 7 anos