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A primeira onda do resto das nossas vidas

O surf em Portugal já tinha passado a infância há uns bons anos e um pouco por todo o país grupos de jovens reuniam-se para descobrir novas ondas — perante o espanto do resto da população. Há 40 anos, em maio de 1977, os miúdos das pranchas juntaram-se na Ericeira para o primeiro campeonato nacional de surf. Inspirados por uns irlandeses e com regras de torneio de judo. Este fim-de-semana, alguns dos competidores originais regressam a Ribeira d'Ilhas

Ricardo Marques

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É estranho como, com pequenas diferenças, os dias passados se assemelham tanto aos dias que correm. Como ondas, cada uma diferente da anterior e em nada igual à seguinte. Mas sempre e apenas ondas. Integração europeia, tráfico de droga, ameaça nuclear, visitas de Estado, futebol... Podia ter sido ontem? Sim, mas foi há 40 anos. Eis o estado desse mundo: Ramalho Eanes em Espanha, Portugal na CEE, haxixe de marrocos, Peniche contra o nuclear, uma revolta nas Molucas e o rescaldo de um Benfica-Porto em que a Chalana foi figura maior. O Diário de Lisboa guardou até umas linhas na edição de 23 de maio, segunda-feira, para lembrar que o sul-africano Jody Shekter vencera, na véspera e a uma média de 128 km/h, o Grande Prémio do Mónaco. Mas nem uma palavra sobre o maior acontecimento do fim-de-semana.

"Ninguém sabia muito bem como fazer aquilo, mas as coisas foram acontecendo", reconhece João Moraes Rocha, juiz-desembargador e a figura no centro desta história. Não só foi um dos organizadores como, quatro décadas passadas, é o narrador por excelência: são suas as fotografias que acompanham este artigo e são também suas as palavras que servem de fonte — e ambas constam do livro "História do Surf em Portugal, As origens" (Quimera, 2008, absolutamente esgotado). Falta dizer que, no fim da prova, e no fim deste artigo, será também João Moraes Rocha a receber o troféu de campeão nacional. Antes, porém, é preciso tudo o resto. Até lembrar que este fim de semana, 20 e 21 de maio de 2017, decorre em Ribeira d'Ilhas a 1ª Etapa do Circuito do Ericeira Surf Clube e que haverá uma cerimónia a assinalar os 40 anos do primeiro campeonato.

"Durante esta etapa irão iniciar-se as comemorações dos 40 anos da realização em Ribeira d’Ilhas do 1º Campeonato Nacional de Surf, estando previsto o descerramento de Placa Comemorativa, Expression Session, colocação de coroa de flores no outside, jantar e entrega de troféus a todos os participantes", adianta o Ericeira Surf Clube.

Os surfistas do primeiro campeonato de surf na praia de Ribeira d'Ilhas

Os surfistas do primeiro campeonato de surf na praia de Ribeira d'Ilhas

Imagem do livro “História do Surf em Portugal, as origens”, de João Moraes Rocha

Vem aí o primeiro mergulho no livro. "A ideia fora sugerida em Carcavelos, quando, em 1976, no intervalo de duas boas marés, com as antigas esquerdas do Moinho e as direitas da Bola Nívea a funcionar, o grupo de surfistas portuguesas falava com uma equipa de surfistas irlandeses que havia vindo a Portugal treinar", lê-se no livro. Portugal estava no radar dos 'bifes' há uns bons anos. "Lembro-me de antes do 25 de Abril haver muitos estrangeiros a morar cá, ou pelo menos a passarem grande temporadas, por causa das ondas. Americanos, ingleses, australianos, até da Nova Zelândia... Estavam na Ericeira. Eles chamavam Little Hawaii aquela zona, tal era a quantidade e qualidade das ondas", conta Moraes Rocha, 62 anos, sentado no sofá de casa, depois de uma manhã de surf em Carcavelos (com poucas e não muito boas ondas).

Eram os dias da descoberta. Os 'bifes' encontravam ondas novas e os miúdos portugueses atiravam-se quando o mar subia. Não apenas na Ericeira. Sucedia algo parecido, com mais ou menos estrangeiros, em Carcavelos, no Baleal, na Figueira da Foz, na Caparica...Eram poucos, mas conheciam-se todos e, quando os irlandeses sugeriram que começassem a entrar em competições, nem tiveram de pensar muito. "Porque não juntar a malta toda e começar a competir?" As dificuldades vieram a seguir, já depois de a ideia começar a ganhar forma na então Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas. A Direção-Geral dos Desportos fechou a porta a qualquer apoio, por considerar que o surf tinha muito pouco de desporto. Foi diferente na Direção-Geral do Turismo, que decidiu apostar na modalidade que hoje é um dos sectores mais importantes do turismo nacional: milhares de turistas, uma prova do circuito mundial, várias do circuito de qualificação...

De volta ao livro. "Na Ericeira, contactou-se com a Junta de Freguesia, o presidente era o velho Caré, dono de metade da vila. Primeiro desconfiado, depois convencido, o velho Caré colocava o palanque na praia e espetavas as bandeirolas das festas. "Depois, é com vocês!", declarou. Solicitar apoio em nome de uma federação facilitou os contactos com as autoridades marítimas. Já não eram só 'estrangeiros gadelhudos', havia pessoal do desporto, e eram portugueses. Bombeiros e GNR, tudo bem. Até tinham curiosidade em ver o que iria acontecer." Arranjou-se espaço para o banquete, o cartaz foi feito numa tipografia habituada a propaganda política e as t-shirts acabaram por aparecer, e esgotar, e aparecer outra vez. Rocha e os outros alugaram um autocarro à Carris, falaram com fotógrafos, com as rádios, os jornais e até com a televisão.

O Diário de Notícias 'respondeu' e publicou uma pequena notícia de quatro parágrafos, dois dos quais, os maiores, gastos a explicar aos leitores o que era isso do surf. "De origem havaiana, o surf tem progredido, após a última guerra, conquistando a juventude, registando-se presentemente, mais de um milhão de praticantes, contando-se em Portugal com cerca de uma centena.O surf consiste na condução de pranchas de poliuretano e fibra de vidro, através da rebentação das praias, com exercício dum perfeito equilíbrio e aproveitamento da força das ondas", lia-se no jornal.

Autocarro alugado à Carris para garantir o transporte até à Ericeira

Autocarro alugado à Carris para garantir o transporte até à Ericeira

Imagem do livro “História do Surf em Portugal, as origens”, de João Moraes Rocha

As ondas estavam pequenas, mas a competição foi intensa

As ondas estavam pequenas, mas a competição foi intensa

Imagem do livro “História do Surf em Portugal, as origens”, de João Moraes Rocha

O dia chegou com sol, ondas pequenas e um vento fraco de norte. "As pessoas perguntavam-me como é que tinha tido a ideia de organizar os surfistas. Fiz como se fazia no judo e na luta greco-romana. Tinha sido atleta das duas modalidades e sabia como se fazia. Fizemos igual", lembra João Moraes Rocha.Ou seja, criaram-se três categorias, com eliminatórias até à final. Para a posteridade, ficam as classificações. Juvenis: 1.º Paulo Inocentes; 2.º João Inocentes; 3.º Paulo Esteves; 4.º Carlos Rocha; 5º Ivo Cruz. Em Juniores, pela mesma ordem, António Pedro Rocha, João Filipe Galvão, José Silva Pinto, João Luís Santos e Mário Castanheira. Nos seniores: João Luís Rocha, Nuno Jonet, Manuel Cruz, João Monteiro, Pedro Lima (pai).

"Estarei na Ericeira este fim de semana", confirma Moraes Rocha, a quem caberá defender o título de campeão nacional de 1977. "Tudo mudou muito desde esses dias", constata, sem lamentos. A memória segue ao sabor da corrente, parando de vez em quando para contemplar um ou outro momento. "Aquele campeonato foi um instante único que permitiu reunir os surfistas mais antigos com a nova geração que estava a aparecer", recorda. Uma espécie de passagem de testemunho entre pioneiros e seus herdeiros. De certo modo, tudo começou a mudar naquele dia de maio de 1977 e não demorou muito tempo até que o único campeonato de surf se transformasse no primeiro campeonato de surf em Portugal.