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O injusto da competição e o justo que é Nicolau preferir surfar assim

É um dos surfistas mais talentosos da sua geração, só tem 26 anos e, se quisesse, estava a competir e a chegar perto dos melhores. Mas Nicolau Von Rupp não quer. Prefere continuar a viajar atrás de ondas grandes, pesadas e tubulares, as maiores que há no mundo, para fazer filmes que nos mostram como é: “Adoro isto. Tenho 26 anos e até quando é que o vou poder fazer? Aos 30, quando tiver três filhos? É agora ou nunca”

Diogo Pombo

Second Home, Lisboa. www.351-films.com

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Tem um microfone na mão, para todos o ouvirem, e os olhos bem abertos na cara, para todos ver. Passou os últimos dez minutos a falar sobre o filme e chega o momento de conversar, de seguir as regras que dizem ser ele a responder a quem ali está, por causa dele, a perguntar. Nicolau Von Rupp, contudo, interrompe a pessoa que o questiona primeiro - é um tipo grande, eloquente no inglês, com um cabelo que funciona a gravidade invertida, que lhe pergunta sobre as ondas em Portugal, dizendo que já viu ondas a quebrarem em muitas terras no mundo.

Nicolau, de calções e t-shirt, com as madeixas loiras a espreitarem pelo boné que aponta a pala para trás, quer saber de onde ele é. Pergunta, fica a saber, reage, dá a opinião, vai para a conversa em vez de se ficar por uma resposta. O surfista emana boa disposição, como o único candeeiro no meio de uma sala escura e sem janelas.

Estamos no Second Home, um espaço de coworking no primeiro piso do Mercado da Ribeira, em Lisboa, onde vai ser apresentado o "The Reef Road", outro filme de Nicolau Von Rupp. É um sítio onde há mais verde e plantas e ar purificado do que mesas e cadeiras e computadores portáteis. Parece tudo mais puro e natural, como o surf que o português, de 26 anos, escolheu surfar.

Nicolau Von Rupp é dos rapazes com mais talento, técnica, leveza e arrojo nos pés, e tudo o que se quiser chamar ao ter jeito para surfar, da geração dele. Quando se é assim, compete-se. Tenta-se ser o melhor e não o pior, ganhar para não perder, celebrar para não ficar triste, medir o desporto pela vitória e a derrota. Não foi Nicolau a fazer as coisas desta forma, mas esta é a maneira como as coisas são feitas. E ele está contente, sorri, fita nos olhos as pessoas com quem fala, responde a todos.

Porque não está, nem estamos, ali por um resultado feito por ele. É pelo quinto filme que faz em ano e meio, o produto - ou “conteúdo”, como tanto repete - de um modo de encarar o surf que lhe dá o estilo com que leva a vida. A viajar muito e para todo o lado, atrás de ondulações grandes que produzem ondas ainda maiores e, de preferência, tubulares. Nicolau Von Rupp já competiu e ganhou e perdeu e foi o melhor e o pior. Se a cabeça estivesse virada só para aí, provável seria que ele fosse mais vezes a vitória do que a derrota.

Mas gosta mais disto, muito mais - de ser um surfista com itinerário de ondas grandes, pesadas e agressivas, pelo prazer e pela adrenalina, e não por qualquer competição que vê acha injusta e má medição de talento. Nicolau Von Rupp já o caminho até elas com amigos, câmaras, pessoas que filmem com elas e equipamento para criar os filmes que chegam até nós. Os que não sabem o que é remar com a vida para uma onda do tamanho de um prédio, só pela adrenalina.

Estás feliz?
Óbvio que estou feliz. Fico contente por ver aqui várias gerações, por ver pessoas que eu, como jovem, idealizei, que foram uma grande inspiração para mim, como o Justin [Mujica] ou ou o Saca. Ver cá os mais novos, também, que são o nosso futuro em termos de surf. É do caraças.

Dá-te mais gozo ter esta gente toda aqui por causa de um filme, que é fruto das tuas viagens, em vez de ser por um resultado qualquer?
Acho que juntar a malta, seja num resultado competitivo, ou para fazer a estreia de um filme, tem o mesmo impacto. As pessoas estarem aí por uma razão causada por ti é bom, seja como for.

Hoje em dia não gostas mais de viajar para surfar do que de competir?
Gosto dos dois. Adoro competir, adoro andar atrás de ondulações grandes, de ondas perfeitas. Simplesmente sinto que a competição é injusta e o nosso talento vai muito além da competição. E consigo expressar esse talento em ondas grandes e tubulares, mais do que consigo em competição. Por isso é que, pá, sinto que não posso estar no Brasil, a surfar ondinhas deste tamanho [baixa-se e aproxima a palma da mão do chão], quando está a dar um swell de seis metros no Tahiti.

Não faz sentido para ti.
Porque, a nível internacional, sou conhecido como um surfista de ondas pesadas. Obviamente que ainda gosto de competir, e irei competir, mas não é a minha prioridade. Sei que ainda consigo chegar a um campeonato e fazer ondas de oito pontos e passar heats. É assim que eu levo as coisas.

O surf é muito mais do que ganhar ou perder?
Sem dúvida. A grande mais valia do surf não é a competição, isto vale para todos nós. É a forma como podemos viver ao fazer surf - estás na praia, a praticar desporto, estás rodeado pela natureza. É isso que é a essência do surf para todos, e para mim também.

Second Home, Lisboa. www.351-films.com

Achas que falta mais gente em Portugal que pense como tu?
Toda a gente pensa assim. Toda a gente. Simplesmente não conseguem encontrar uma forma de… Pá, fazer o meu trabalho é difícil. Tenho de ir para a Nazaré, para as maiores ondas do mundo, e arriscar a minha vida. Tenho um calendário que está constantemente distorcido. É muito mais fácil teres um calendário fixo para o ano inteiro e ires fazendo as tuas competições. Há pessoas que não querem arriscar e pouca gente seguiu o meu caminho, o de querer ser bom em condições pesadas.

Ainda sentes isso como um risco? Ou já é um estilo de vida?
Obviamente que, sendo profissional, tudo o que eu fizer tem de ter a aprovação dos meus patrocinadores. Preciso de financiamento para isto, caso contrário não consigo viver.

O que exige mais dinheiro: viver para competir ou para viajar e fazer filmes?
Acaba por ser igual. Fazer filmes é bastante caro, porque não sou só eu a viajar, são bastantes pessoas. É ela por ela. Obviamente que só viajar, sem ninguém... Mas a questão é que vou para a Indonésia e vou gastar 10 mil euros por semana para ter uma equipa. Ou seja, acaba por ser mais caro. Ainda bem que tenho o apoio dos meus patrocinadores para fazer grandes filmes.

Há cinco anos deste uma entrevista na qual disseste que, nos próximos cinco anos, querias estar no CT. E agora?
Neste momento não é uma prioridade. Claro que o CT é do caraças por poderes competir em ondas perfeitas.

Pergunto porque quem não percebe tanto de surf pode ter a tendência de ligar apenas ao circuito mundial.
Claro, eu percebo perfeitamente. A malta em Portugal não está habituada a desportos radicais. Encaram o surf como um desporto em que tem de haver um melhor e um pior. Para mim não é assim. O surf é um desporto espetacular em que a melhor performance passa completamente ao lado da competição, principalmente nas ondas em que eu surfo. Não é todos os dias que temos ondas tubulares e grandes. Quanto aos meus objetivos, acho que eles mudam. Fui top-100 mundial durante vários anos e se tiver oportunidade para o ser outra vez, vou continuar. Simplesmente não quero abdicar de um ano para estar fechado na competição, em que a maior parte dos campeonatos tem condições injustas que não me deixam mostrar o meu potencial. Para se chegar ao CT tem que se passar por isso.

E isso, no fundo, não te deixa “fazeres o que te apetece”, entre aspas?
As melhores ondas estão no CT, claro, e quero ir a alguns trials para entrar nessas provas. Por exemplo, todos os anos me convidam para ir ao Tahiti [onde está Teahupo’o, que é esta onda] fazer esse campeonato. Mas, neste momento, não tenho qualquer peso na consciência. Estou muito bem onde estou. Tive agora o melhor mês da minha vida - arranquei para o Tahiti do nada, chegar a Portugal, ficar cá 12 horas, sair logo para a Indonésia à procura de um grande swell. É único. Muitas pessoas gostavam de estar na minha situação. Acho que é o crème de la crème do surf, pode estar em todo o lado, ao mesmo tempo.

O desgaste não é muito maior?
Todos os trabalhos têm um desgaste, não é? Para chegares a um estado espiritual maior, de satisfação interior maior, tem que haver esforço. O que é estar durante 36 horas em voos? Não é nada. Obviamente que custa. Podia ficar aqui em casa sem fazer nada, a verdade é essa. Esperar pela temporada de ondas grandes, o meu salário seria exatamente igual. Mas não, realmente adoro aquilo que faço, faço questão de estar em todo o lado do mundo e gasto o meu próprio dinheiro para lá estar. Porque adoro isto, tenho 26 anos e até quando é que vou poder fazer isto? Aos 30, quando tiver três filhos? É agora ou nunca.

Costumas pensar no exemplo que dás aos miúdos que estão a começar a surfar?
O meu percurso é mais difícil. O QS [circuito de qualificação] é super competitivo, estás constantemente a perder, mas, por outro lado, tens a tua rotina. Ficas em grandes hotéis e a única coisa que tens de fazer é acordar de manhã, ir surfar e voltar para casa. Não tens que viajar durante 36 anos para depois apanhar um carro, depois um barco, dormires que nem um cão, estares constantemente preocupado com o swell, porque o de amanhã é o maior de todos os tempos e não sabes se vais sobreviver não. Portanto, não sei não, acho que a vida de QS é mais fácil.

Será mesmo?
Acho que tens as coisas mais organizadas para ti. Tens um calendários e respeitas esse calendário. Fazer o que eu faço custa-me mais, mas a satisfação é maior. A competição é super importante, um gajo evolui, tornas-te um bom surfista. A minha diferença para os outros é que sempre gostei de ondas boas e grandes. A malta ficava em Carcavelos a surfar meio metro e eu ia para a Ericeira, surfar mar maior. São opções de carreira diferentes. São as duas arriscadas, obviamente. Estão ambas dependentes na performance. Mas, ao final do dia, sou um surfista profissional.

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