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George Cunha: o surf português começou com ele, em Honolulu

A proto-história do nosso surf está no Havai. No início do século XX, um jovem de sangue açoriano deslizava na prancha ao lado de Duke Kahanamoku. Esta é a vida de George Cunha, o avô do surf português

João Macdonald

História. 24 de fevereiro de 1915, George Cunha enquanto surfava na Baía de Lyall, na Nova Zelândia, onde apresentou o desporto numa digressão com Duke

foto Henrt Thomson / Christchurch City Libraries - imagem colorida por Jorge Costa

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Uma vez mais sobre as águas! uma vez mais ainda!/ E as ondas submetem-se a mim como um corcel/ que conhece o seu cavaleiro”. Lord Byron, o poeta inglês, por certo ignorante do nobre desporto do Havai, escreveu estes versos cem anos antes de portugueses começarem a surfar nas águas frente à cidade de Honolulu, ilha de Ohau. Os cronistas mais exultantes da arte aquática não desdenham citações como aquela (descobrimo-la em “The Book of Waves — Form and Beauty on the Ocean”, de Drew Campion). Pelo menos Byron sabia do que falava: essas linhas de “A Peregrinação de Childe Harold” escreveu-as enquanto navegava pela costa de Sintra, o Mediterrâneo e o Mar Egeu. A exultação é tentadora no caso presente, onde se compilam os dados inéditos que se conseguiram reunir sobre George Cunha, filho de açorianos nascido em Honolulu, atleta de natação assinalável, surfista da primeira era moderna deste desporto, companheiro e amigo de Duke Kahanamoku, o havaiano sem o qual o surf nunca teria o alcance conhecido. Não de somenos é a circunstância de os dois terem introduzido o surf na Nova Zelândia em 1915, país hoje pródigo na atividade. Mas, porque a exaltação é corruptora do rigor histórico, passemos aos factos.

Em 1794 já havia portugueses no Havai, resultado das escalas das rotas baleeiras. A partir de 1830 chegaram com mais frequência, principalmente dos Açores, Madeira e alguns de Cabo Verde. Um fluxo contínuo arrancou em 1878 e durou até à década de 1920. Em 1910, cerca de 23 mil portugueses residiam no arquipélago, quase 13% da população. Foram eles que trouxeram o cavaquinho, rapidamente rebatizado de ukulele, um ícone da música havaiana.

1917. Equipa de natação do Healani Club: sentados, da esquerda para a direita, George e Lawrence Cunha; atrás e ao meio de ambos, o irmão Frank

1917. Equipa de natação do Healani Club: sentados, da esquerda para a direita, George e Lawrence Cunha; atrás e ao meio de ambos, o irmão Frank

foto Healani Canoe Clube

George Cunha descende daquela que é, com muita probabilidade, a primeira portuguesa no Havai: Maria Laureana Gonçalves, da ilha do Pico, que chegou a Honolulu em 1864. No ano seguinte casou-se com António Jorge Cunha, de São Jorge. A família dedicou-se aos negócios: uma loja de flores e um infantário. Uma das filhas, Zaida, foi a mãe de George, nascido a 8 de dezembro de 1894, o terceiro mais novo de cinco rapazes e uma rapariga. O pai, outro açoriano (ignoramos a ilha), chamava-se Francisco e também era Cunha (talvez primo de Zaida?), funcionário de armazém. E como o mar estava mesmo à sua frente, os rapazes Cunha não hesitaram em tomá-lo.

O surf desenvolveu-se de forma consistente em torno do Hui Nalu Club de Honolulu, um dos vários na cidade, organizado em 1911 por nadadores e surfistas. Entre os cofundadores esteve Duke Kahanamoku (1890-1968), dito o progenitor do surf moderno. Por ‘moderno’ entenda-se o exercício além do âmbito indígena e cerimonial — o “desporto de reis”, chamou-lhe o escritor Jack London —, e que foi sempre cultivado pela família real e súbditos, mesmo sob o desagrado dos missionários religiosos do século XIX que evangelizaram as ilhas.

Foi Duke, oriundo de uma família da baixa nobreza, quem acresceu à dignidade do surf o depuramento da arte. Aos 16 anos construiu uma prancha de 10 metros em madeira de sequoia, periodicamente aperfeiçoada com os conhecimentos de marcenaria aprendida no liceu (prancha ainda sem “fin”, inglês para “barbatana”, a espécie de quilha introduzida em 1935 por Tom Blake). “O seu estilo não tinha adornos, comparado como os surfistas de hoje”, lê-se na biografia “Waterman” de David Davis. “Surfava de pé e ereto, os joelhos ligeiramente fletidos”, ou, por gozo, fazendo o pino ou carregando uma criança aos ombros. Acima de tudo, a sua relação estética e espiritual com o surf e o mar — em êxtase minimalista, dir-se-ia — fixou-o como modelo para todas as gerações seguintes. “Duke era a ponte entre o Havai antigo e o mundo moderno”, explicou a revista norte-americana “Surfer” quando em 1999 o declarou surfista do século.

Mas naquela época o prestígio dos atletas de clubes como o Hui Nalu vinha da natação. Em 1907, quatro dos Cunhas — o “famoso quarteto” Lawrence, Allan, George e Frank, dizia a imprensa — eram membros do Healani Club. O Havai evoluiu rapidamente como potência deste desporto. Em 1912, nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, Duke ganhou a medalha de ouro de 100 metros livres e estabeleceu o recorde do mundo em 1.02,04 minutos (o atual pertence ao brasileiro César Cielo: 46,91 segundos). Na preparação para os campeonatos nacionais americanos do ano seguinte (o Havai era um protetorado dos EUA), Duke fez 100 jardas (91,44 metros) em 55,15 segundos, outro recorde mundial, com George em terceiro. Nas 50 jardas George perdeu para o amigo por “poucos pés”. O Pacific Coast Swimming Championship, em São Francisco, recebeu-os em 1913. O terceiro lugar daquele tipo de provas foi para George. O jornal “O Luso”, de Honolulu, descreveu-o como “o nadador português notável”. De repente, todos queriam Kahanamoku e Cunha, e a Austrália e a Noza Zelândia empenharam-se numa digressão, como se contratassem estrelas de cinema com superpoderes.

Construir pranchas na Austrália

O início da I Guerra Mundial atrasou os planos, mas George e Duke, e o agente Francis Evans, desembarcaram em Sydney a 14 de dezembro de 1914 para uma série de eventos de natação em nove cidades, tal como assinado com a Agência de Turismo do Estado de New South Wales. Foram instalados no impressionante hotel The Australia e recebidos pelo governador-geral do país, Sir Ronald Munro-Ferguson, um escocês. Os prodígios dos nadadores, a maior parte das vezes em piscinas de água salgada, excitaram o público, não menos do que o surf, com duas demonstrações registadas em Freshwater e anúncios na imprensa correspondentemente ilustrados.

A prática já existia no país há pelo menos cinco anos. Porém, pouco depois da chegada, questionado pelo jornal “The Referee” se tinha trazido prancha, Duke respondeu: “Não, não, informaram-nos de que o uso de pranchas não era permitido na Austrália” [durante algum tempo estiveram restritas nas praias junto a Sydney]. “Mas posso fazer facilmente uma aqui.” Aconteceu isso mesmo. E mais: George também sabia construir pranchas, tanto assim que chegou a estar planeado para Mount Morgan, uma das cidades do itinerário, um leilão das pranchas que deixaram.

1914. George Cunha, Duke Kahanamoku e o agente desportivo Francis Evans (ao centro), numa fotografia promocional da digressão pela Austrália e Nova Zelândia

1914. George Cunha, Duke Kahanamoku e o agente desportivo Francis Evans (ao centro), numa fotografia promocional da digressão pela Austrália e Nova Zelândia

d.r.

Duke foi o centro das atenções; George surfou menos, mais recatado. Há um episódio revelador da sua personalidade recolhido pelo jornalista e historiador Phil Jarrat. Na pausa de Natal na praia de Boomerang, subúrbio de Sydney, Duke regressava do mar quando o amigo lhe perguntou: “Que tal as ondas?”. “Apanhei algumas. Porque é que não levas a prancha e vais fazer umas?”. E George, que tinha nas mãos um livro de orações, respondeu: “Agora não. Depois do pequeno-almoço vêm buscar-nos para irmos à igreja. Tu também vens, não?”. Duke: “Igreja, hã?...”. Nesse período natalício também foram a uma festa no Sydney Club, onde tocaram ukulele e cantaram, muito aplaudidos.

A dupla chegou à Nova Zelândia, com pelo menos uma prancha, a 23 de fevereiro de 1915. No dia seguinte, na Baía de Lyall, deu-se o momento inédito: a introdução do surf naquele país. O impacto foi tal que a imprensa ainda referia o facto em dezembro seguinte: “O surf está a tornar-se um desporto cada vez mais popular na Baía de Lyall, Wellington. Desde a visita de Duke Kahanamoku e do seu parceiro de natação, George Cunha, e a notável exibição de ambos da arte de cavalgar as ondas, muitos nadadores locais praticam o desporto com entusiasmo. Todos os dias veem-se muitos banhistas equipados com pranchas, divertindo-se mais ou menos habilmente na rebentação”. A ocasião foi registada em várias imagens, incluindo a fotografia que revelamos nestas páginas de George Cunha sobre as ondas.

A digressão neozelandesa durou pouco mais de um mês, passando por 12 cidades e com demonstrações de surf em Wellington e Auckland. Houve tentativas noutros locais, como na praia de Saint Clair, em Dunedin, bloqueadas pelas condições atmosféricas, mas nunca afetando o bom humor. Eis a declaração de Cunha a um jornal local: “Saint Clair? Oh, sim. Ótima praia, boas ondas. Estivemos lá hoje. Não para surfar, não, muito frio, um risco de arrefecimento muito grande para o Duke, que é muito delicado e não muito forte”. “Isto dito com um sorriso”, acrescentou o jornalista. “O Duke aprecia a piada e ri-se com gosto”. Brincadeira, de facto; quando o mesmo jornalista comentou a George que Duke “é tão brilhante no surf quanto na natação”, George corrigiu: “Mais brilhante”. A 26 de março partiram de Wellington para Honolulu, onde chegaram a 8 de abril. Até hoje há placas e homenagens na Nova Zelândia celebrando Duke e a chegada do surf, mas George Cunha ficou na sombra.

O atleta cansado

Os anos seguintes foram de mais triunfos na natação. George chegou a bater Duke no último lance de uma prova de estafetas e empataram numa de 220 jardas. O “nadador português” continuou “notável”. Durante 1916 mudou-se para São Francisco e obteve vitórias ao serviço de Olympic Club. Quando os EUA declararam guerra à Alemanha em abril de 1917, George estava desde fevereiro na base de Schofield, a uma hora de Honolulu, cumprindo a recruta. Durante o verão foi autorizado a regressar à Califórnia, onde em setembro bateu o recorde do mundo de 50 jardas com 10 segundos e 25 centésimos, e em 1918 foi colocado como instrutor de natação na base militar de Camp Lewis, Montana.

Digressão. Duke Kahanamoku (ao centro, última fila) numa primeira página do jornal “O Luso”, de Honolulu, em 1912; “Cinco dos maiores nadadores do mundo”, entre eles George Cunha e Duke Kahanamoku (segundo e terceiro a contar da esquerda), primeira página do “Honolulu Star-Bulletin”, 1917

Digressão. Duke Kahanamoku (ao centro, última fila) numa primeira página do jornal “O Luso”, de Honolulu, em 1912; “Cinco dos maiores nadadores do mundo”, entre eles George Cunha e Duke Kahanamoku (segundo e terceiro a contar da esquerda), primeira página do “Honolulu Star-Bulletin”, 1917

d.r.

A partir de então, embora não deixando de competir por alguns clubes, qualquer coisa mudou. Pareceu intuir o fim da carreira e procurou outras formas de rendimento. Em 1919, de novo residente em São Francisco, disse à imprensa que pretendia mudar-se para Filadélfia e estudar medicina dentária, ao mesmo tempo que lhe eram oferecidos empregos como instrutor em faculdades da Costa Oeste, ou até como nadador-salvador na piscina de um clube. Ainda assim, convidaram-no para a equipa americana que participou nos Jogos Inter-Aliados realizados nesse ano em Paris (fez 100 jardas em 55 segundos). Em 1923 sabemos dele em Atlantic City, “farto e cansado de ser um [atleta] profissional”, “suplicando” pelo regresso às provas de amadores e “com vontade de voltar a competir com os velhos companheiros, como Duke Kahanamoku”. E o surf? Nem uma única palavra.

George só voltou a ser referido nas notícias por mais três vezes, e nunca pelas melhores razões. Primeiro, em 1941, ainda em Atlantic City, quando um tribunal lhe recusou o direito à herança de uma Lillian A. Carhart, recém-falecida, com quem George garantiu ter vivido em união de facto desde 1930. Segundo, em 1952, colocou nos jornais o anúncio a um creme desenvolvido por ele, comercializado como “Zeek”, para curar o pé de atleta. Terceiro, numa nota necrológica. George Cunha morreu a 3 de setembro de 1969, três meses antes de completar 75 anos, no Hospital Tayler de Filadélfia. Identificado como fisioterapeuta e nadador-salvador reformado, acrescentava-se ter sido par “de natação da estrela olímpica Duke Kahanamoku”. Deixou viúva Catherine Gill, sem filhos, com quem morou no subúrbio de Ridley Park. E o surf? Nada. E é tudo o que sabemos do George Cunha de extração açoriana e constituidor discreto do surf moderno.

O surf de outros Cunhas

Mais ou menos em frente ao famoso paredão de Waikiki, em Honolulu, a umas centenas de metros da praia, fica o Cunha’s Break. Um break é o local onde uma onda rebenta. Muitos desses pontos acontecem no mesmo lugar do mar há séculos, cultivados por surfistas como ideais para se erguerem na prancha. Mas este Cunha’s Break nada tem que ver com George, embora o batismo do lugar seja contemporâneo da sua juventude. É daqui que partimos para um par de nomes, homónimos do apelido de George, também inscritos na história do surf.

O break chama-se assim porque fica em frente à área onde estava a grande propriedade de outros Cunhas também de raiz açoriana. Era a família abastada e influente de Emanuel Silveira Cunha, estabelecido na capital havaiana em 1867 aos 16 anos, vindo de São Jorge depois de andar na caça à baleia. Abriu um saloon respeitável, um hotel, foi sócio ativo da Hawaiian Historical Society, maçom (havia duas lojas portuguesas em Honolulu) e membro do capítulo local da também fraternal Independent Order of Odd Fellows. Estes Cunhas eram reputados por organizar alguns dos melhores saraus na cidade. Jack London frequentou-os na sua segunda viagem ao Havai em 1915. Gostava muito de jogar às cartas com Angela E. Gilliand, a mulher de Emanuel S. Cunha.

A família de Emanuel tem laços de sangue com a de George? Não sabemos. Mas Emanuel deu ao mundo alguns luso-havaianos peculiares. Um, de muita celebridade na época, foi Albert Richard “Sonny” Cunha (1879-1933), criador do estilo musical hapa haole, compositor de êxitos como ‘Honolulu Hula Girl’ e dono da casa editorial Cunha Music Co.. Por sua vez, gerou Richard Cunha (1922-2005), autor de um documentário sobre surf nos anos 50, hoje perdido, mais conhecido pelos filmes de série B realizados em Hollywood, como “Frankenstein’s Daughter” e “Dog Eat Dog”, este com a proeminente Jayne Mansfield. Richard disse uma vez numa entrevista: “Há algumas histórias de família que contam que o meu avô Emanuel costumava surfar, mas eu duvido de que ele tenha surfado fosse onde fosse”.

Destaque. Anúncio num jornal australiano de demonstração de natação e surf em South Brisbane com Duke Kahanamoku e George Cunha

Destaque. Anúncio num jornal australiano de demonstração de natação e surf em South Brisbane com Duke Kahanamoku e George Cunha

d.r.

Quem, entre os descendentes de Emanuel, em verdade nos interessa é Cecily (1909-1978), sua neta e sobrinha pelo lado materno do poeta George Sterling (que, como o seu amigo Jack London, também andou pelo Havai). Cecily traçou uma vida quase paralela à de George Cunha. Foi atleta de natação e deixou esta memória em May Cunha Ross (irmã do realizador referido): “A minha prima Cecily era uma grande nadadora e surfista. Usava as velhas pranchas de madeira e surfava mesmo em frente à casa da família” — pelo que podemos dizer que Cecily Cunha é a primeira luso-havaiana identificada na história do surf.
E se Cecily não bastasse à nossa narrativa estendida, regista-se por fim Conrad Cunha, de outros Cunhas ainda, filho de emigrantes da Madeira. Nascido em 1932 na ilha de Maui, em criança mudou-se com a família para Honolulu. Publicou este ano a autobiografia “The Last Golden Years in Surfing”. Ainda vive, ainda sulca o mar. Amigo de Duke, revelou-se na década de 50. Figura nas principais histórias e enciclopédias de surf com honras de revolucionário: foi um dos primeiros — se não mesmo o primeiro, segundo alguns — a surfar no tubo da onda.

As referências exatas dos factos citados (artigos de imprensa, estudos, livros) podem ser solicitados para João Macdonald

Como soubemos do surf em Portugal?

Em 1911, em Lisboa, Joaquim Costa, oficial de Marinha, fez uma conferência onde falou de um “exercício aquático muito interessante”

Monarca. O rei David Kalākaua, penúltimo monarca do Havai, que visitou Lisboa em 1881

Monarca. O rei David Kalākaua, penúltimo monarca do Havai, que visitou Lisboa em 1881

foto Gallica/Bibliothèque Nationale de France

Descobrir como algo chegou à nossa cultura é uma forma de perceber de que modo víamos o resto do mundo. O surf, hoje assunto da maior importância em Portugal, começou por ser praticado no país de modo continuado em 1945, por Pedro Martins de Lima. A narrativa daí em diante, sobre ele e outros pioneiros, está em “A História do Surf em Portugal – As origens” (Quimera, 2008, coordenação de João Moraes da Rocha) e em entrevistas recentes. Mas, e antes de 1945? Nunca se ouvira falar de surf em Portugal? Ninguém o praticou mesmo? Como foi a nossa receção do surf até às primeiras décadas do século XX? O que era o Havai no nosso imaginário? Este é um esboço da história possível.

O surf é qualquer atividade em que se desliza sobre uma onda a partir do momento que ela rebenta e revolve. O conceito é amplo e não se restringe ao uso de uma prancha para o efeito. É por isso que os historiadores de surf consideram que a mais antiga prática vem do Peru, desde cerca 3000 a.C., com os “caballitos de totora” (“cavalinhos de junco”), espécie de jangadas feitas daquele material amarrado, com proa apontada para sulcar as ondas, ainda hoje utilizadas. É por isso que quando o Museu do Surf foi inaugurado na Costa da Caparica, em 2016, o diretor João Boavida chamou a atenção para os barcos dos pescadores dessas e de outras praias lusitanas: “O barco tinha de surfar para vir para terra, daí ter um shape [forma semelhante a uma prancha]”. Como disse, em declarações à SIC Notícias, “todos os países em que existe essa proximidade com o mar e em que as condições se reúnem para as pessoas poderem estar dentro de água sem fato tiveram surf. Andaram a explorar as ondas” (declarações à SIC Notícias).

Estreia. Em 1953 os portugueses viram finalmente no cinema o que era o surf

Estreia. Em 1953 os portugueses viram finalmente no cinema o que era o surf

foto 20th Century Fox

Nesse sentido, a alusão mais ancestral a um tipo de surf na memória portuguesa (e talvez na do mundo) estará na “Crónica da Guiné” (1453) de Gomes Eanes de Azurara, onde se conta que navegadores portugueses viram na costa da Mauritânia homens galgando as ondas em canoas feitas de um só pedaço de madeira, sem remos. Por outro lado, os cientistas portugueses do século XVIII (abade Correia da Serra entre eles) que contactaram com os colegas que participaram nas expedições do inglês James Cook ao Pacífico — onde europeus observaram pela primeira vez o surf havaiano em 1778 — poderão ter obtido informações sobre o desporto. Com maior rigor, e tanto quanto conseguimos apurar, o primeiro registo escrito de observação direta do surf moderno por um português é de 1911. Até então detetámos uma única referência em finais do século XIX.

Em janeiro de 1881, o rei Kalākaua, penúltimo monarca do Reino do Havai (anexado pelos EUA em 1898 e estado da União desde 1959) partiu numa volta ao mundo com carácter de viagem de Estado. O objetivo era estabelecer acordos de emigração para aumentar a mão de obra nas plantações havaianas de cana de açúcar. Com esse fito chegou a Lisboa a 19 de agosto do mesmo ano. Instalou-se no Hotel Bragança (atual LX Boutique, na Rua do Alecrim), em Lisboa, visitou Sintra, assistiu a uma tourada e a um concerto em sua homenagem no Passeio Público (atual Avenida da Liberdade), reuniu-se com o rei D. Luís, e também com o pai, D. Fernando II, este muito curioso acerca do Havai (ter-lhe-á falado de surf? Kalākaua criara uma ordem secreta denominada Hale Nauā e promovia cerimónias que incluíam sessões de surf; para mais, ambos eram maçons — como, aliás, viria a ser Duke Kahanamoku.)

Imprensa. O artigo de Guiomar Torresão (Gabriel Cláudio) de 1881 no “Diário Ilustrado”, que falou de surf pela primeira vez em Portugal

Imprensa. O artigo de Guiomar Torresão (Gabriel Cláudio) de 1881 no “Diário Ilustrado”, que falou de surf pela primeira vez em Portugal

foto Biblioteca Nacional Digital

O rei Kalākaua partiu a 23 de agosto e nenhum acordo chegou a ser assinado. No dia seguinte, na coluna “Pizzicatos” do jornal “Diário Ilustrado”, a propósito da visita real, a jornalista e feminista Guiomar Torresão — que assinava com o pseudónimo masculino de Gabriel Cláudio — quis retratar o Havai citando algumas partes da novela “La Petite Hawaïenne”, do (algo bem informado) francês Élie Berthet, inserta na coletânea “Les Petites Écolières dans les Cinq Parties du Monde”, de 1880. E escreveu: “[Quando foram descobertos por Cook] os selvagens havaianos (...) empregavam o tempo no exercício do corpo, particularmente na natação em que eram exímios, e as crónicas de viagem referem como é que homens e mulheres, deitados ou em pé sobre um simples madeiro, passavam incólumes através do mar encapelado”. E, assim, introduziu Guiomar Torresão a primeira, parece, informação certificada sobre surf em Portugal.

Avancemos quase 30 anos. Um dos mais interessantes e esquecidos feitos da Marinha foi a missão do cruzador “São Gabriel”, o primeiro navio de guerra português a cumprir uma circum-navegação, tendo por plano “a primeira viagem circulatória pelas colónias”, incluindo visitar comunidades portuguesas. O comandante foi o capitão de fragata Pinto Basto. O navio largou de Lisboa no sentido do ocidente a 11 de dezembro de 1909 e chegou a Honolulu a 9 de maio de 1910, vindo de São Francisco, e ali ficou até 3 de junho. Foi entusiasticamente recebido pelos emigrantes.

Revista. A reportagem de Joaquim Costa sobre o Havai numa “Ilustração Portuguesa” de 1911

Revista. A reportagem de Joaquim Costa sobre o Havai numa “Ilustração Portuguesa” de 1911

foto Hemeroteca Municipal de Lisboa

Quando regressou a Lisboa, a 20 de abril de 1911, houve por fim condições para ficar a saber-se com exatidão em Portugal o que era o surf. Devemo-lo ao então primeiro-tenente Joaquim Costa que, não fazendo parte do corpo de oficiais do “São Gabriel”, participou na viagem (mais tarde comandou o navio durante a I Guerra Mundial). A 16 de junho daquele ano, Costa apresentou na Sociedade de Geografia de Lisboa a conferência “Colónias portuguesas nas Ilhas de Havai e América do Norte”. Contou o que tinha visto, com uma surpreendente informação. “O surf swimming, ou surf riding, praticado pelos indígenas, americanos e portugueses, é um exercício aquático muito interessante. Numa prancha de koa (acácia) o atleta espera no kulana, isto é, no ponto em que começa a arrebentação, a vaga que o há de trazer à praia (hua). Essas pranchas de forma quase plana, arredondada na parte dianteira em forma de proa e retas na outra, têm em média o comprimento de 2 a 3 metros e a largura de 80 centímetros. Nelas os havaianos primam pelo arrojo das posições que assumem, umas vezes deitados, outras de pé, e mesmo em atitude de pino.”

Esta é a primeira descrição concreta de surf, ainda por cima dizendo que também havia portugueses no Havai praticando-o. E não apenas descrição: sabe-se que Joaquim Costa projetou fotografias na conferência e que uma delas mostrava alguém surfando na tal “atitude de pino”, pois “os ouvintes [da conferência] tiveram ocasião de admirar uma fase deste exercício”, anotou ele no respetivo texto reproduzido no “Boletim” da Sociedade de Geografia, que citamos.

O interesse pelo Havai foi tal que, em menos de um mês, a “Ilustração Portuguesa”, a mais popular revista da época, publicou uma reportagem do mesmo Joaquim Costa intitulada “Havai, a ilha das flores e dos jardins”, exoticamente ilustrada com fotografias (porém, sem surfistas), onde o autor reiterou: “Em Waialua (...) como na maior parte das outras praias, [existe] o surf swimming, fascinante exercício aquático desconhecido na Europa: vindo do mar com a arrebentação em pranchas de madeira, os nadadores, em atitudes mais ou menos arriscadas, procuram ganhar a praia, trazidos pela vaga”.

Inéditos. Praia de Matosinhos, 1927, provavelmente a primeira vez que um tipo de surf aconteceu em Portugal

Inéditos. Praia de Matosinhos, 1927, provavelmente a primeira vez que um tipo de surf aconteceu em Portugal

foto Cinemateca Portuguesa — Arquivo Nacional das Imagens em Movimento

A década de 20 trouxe mais um testemunho presencial. Em 1921, Euclides Goulart da Costa — que, antes de entrar na carreira diplomática, foi professor na escola portuguesa de Honolulu em 1915-1917 —, divulgou na revista académica “O Instituto”, da Universidade de Coimbra, umas “Notas do Havai”: “O mar (kai) era o seu encanto. Para fugirem ao calor, os havaianos passavam horas seguidas metidos na água. Brincavam sobre as vagas numas largas tábuas (kapu) em cima das quais, de pé, se deixavam correr, levados na cabeça da vaga, entre a fervura das espumas vivas, desde o alto até à babugem do areal” (corrigimos: “kapu” não significa “tábua”, mas “tabu, proibição”).

Se é relevante notar que as primeiras descrições (as de Costa e Goulart) deram-se em contexto científico, repare-se que a seguinte veio da literatura. Falamos da “Volta ao Mundo” de Ferreira de Castro, nas livrarias em 1944. É a extensa reportagem da viagem feita pelo escritor em 1939 com a mulher, Elena Muriel. No capítulo “Honolulu”, a propósito dos “filhos e filhas de milionários yankees e outros que fingem sê-lo”, abundantes na praia de Waikiki, existe uma passagem valiosa. “A sua maior preocupação é poderem manter-se, verticalmente, sobre o mar, como fazem os indígenas. Estes põem-se, de pé, sobre uma larga tábua de ponta aguda e deixam-se levar pelas ondas. Esta tábua não está presa a coisa alguma e como, de longe, não a vemos, tem-se a ilusão de que os havaianos caminham, milagrosamente, sobre as ondas.”

Estoril. Um casal na praia do Tamariz, transportando pranchas, no final da década de 20, início de 30

Estoril. Um casal na praia do Tamariz, transportando pranchas, no final da década de 20, início de 30

foto “Costa do Estoril – Um século de turismo” (Junta de Turismo da Costa do Estoril)

Um dos documentos mais importantes para a história do surf em Portugal deve-se aos Serviços Cinematográficos do Exército. Em 1927 aquele departamento estreou o filme documentário “Aspectos de Leça da Palmeira, Matosinhos e Leixões”, que mostra, durante 28 segundos, um grupo de homens praticando bellyboard na praia de Matosinhos, usando o que parece ser uma “alaia”, tipo primitivo de prancha. É, até agora, a mais recuada prova da prática em Portugal de uma atividade da família do surf (dizemos da família porque, no caso, o bellyboard é executado depois da rebentação da onda). E é também, até prova em contrário, o mais antigo filme do género rodado na Europa. Os homens retratados são, provavelmente, membros da comunidade inglesa do Porto que tinha casa de praia em Matosinhos e Leça da Palmeira (o surf chegou à Europa no pós-I Guerra Mundial, transmitido por soldados sul-africanos, que já o praticavam, aos soldados britânicos). A película pode ser vista na página “Cinemateca Digital” do site da Cinemateca Portuguesa (o excerto foi por nós divulgado em 2012 no site da revista “UP”, da TAP). De resto, em 1953, estreou-se nas nossas salas de cinema a curta-metragem documental “Conquering the Surf” (disponível no YouTube), da 20th Century Fox, rodada em parte na praia de Bondi, junto a Sydney, e aí os espectadores portugueses apreciaram por fim o surf no seu esplendor.

No domínio da fotografia há outro elemento marcante. É a imagem de um casal na praia do Tamariz, Estoril, transportando cada um uma prancha nos finais dos anos 20, começo de 30. O objeto é da família dos do filme de Matosinhos. O documento, guardado na Biblioteca Nacional, foi revelado por Helena Matos em 2000 no livro “Costa do Estoril – Um século de Turismo” (Junta de Turismo da Costa do Estoril). Aquele filme e esta imagem provam sem dúvida que estrangeiros (não parece que fossem portugueses) trouxeram o surf para Portugal há quase cem anos, embora não deixando raízes. Também há ainda a curiosidade de, em 1923, na cosmopolita revista “A.B.C.”, aparecer um anúncio dos pneus Goodyear ilustrado com um surfista, talvez a primeira imagem deste tipo impressa no país. Por tudo isto vê-se que o surf chegou a ser prática e assunto “moderno” em Portugal durante um curto período. / J. M.

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