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Sofá, televisão, sestas, matraquilhos e surf - Frederico Morais abriu uma escola

A 1 de julho, em São João do Estoril, abre a “The Blue Room”. É uma escola de surf que não quer reinventar nada, mas quer “ganhar tempo” com os alunos e dar-lhes um espaço para ocuparem o tempo depois do surf - e deixarem os pais descansados. Foi criada por três amigos e a outra coisa especial é que um deles é Frederico Morais

Diogo Pombo

joao maria

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Acabaram as aulas e tem-se a tarde livre para desfrutar. Ele é um miúdo e vai, a correr, para o mesmo sítio, da mesma rua, à mesma hora. O costume é uma carrinha grande, com vários lugares e muitas pranchas, ir ter com ele. Pára, abre a porta, apanha-o e leva-o até a uma praia onde haja ondas. Veste o fato, vê outros miúdos a imitarem-no, pega na prancha, entra no mar e tenta aprender o que lhe tentam ensinar. Passam duas horas, repete o processo da frente para trás e está, de novo, sentado na carrinha, a voltar para o sítio onde o foram buscar.

É lá que o deixam e pronto, o resto logo se vê. Ou ele logo vê, como e com quem tiver de ver.

O miúdo, agora, tem que esperar por um autocarro, submergir para o metro, procurar um táxi ou pedir aos pais para o irem buscar. Esse miúdo pode ser como 90% dos que aprendem a fazer surf no meio da normalidade do que é uma escola de surf.

É assim que a maioria funciona e estes três querem mudar isso. “Não queríamos ser mais uma escola de surf, como há muitas aqui na zona. Escolas em massa, faturar, faturar, faturar, em que chegam às 18h, param numa rua, põem os putos e vão-se embora. Para nós não era aceitável ter uma escola só na carrinha”, explica João Murjal.

João Maria Catarino

João, que trabalha em remodelação e na construção civil, está ao lado de José Celestino da Costa, um gestor. Estão sentados no meio de uma sala ampla, invadida por muita luz. Há um sofá, vários pedaços gordos de troncos de madeira, que servem de bancos e uma televisão colada à parede. À entrada, uma pequena bancada, a servir de receção. Estão no meio do “The Blue Room” e, ao lado, têm o amigo que dá o nome ao projeto que decidiram criar.

É Frederico Morais, o surfista.

Eles são os três sócios que quiseram ter uma escola de surf se batesse ao ritmo do sítio onde estão, naquele momento. Uma sala grande e iluminada, por baixo de um piso onde há pranchas, fatos, uma cozinha e um espaço para reuniões. “Uma escola normal larga o aluno às 18h. Aqui ganhamos tempo com o aluno. Conhecê-lo melhor, conhecer os pais, trazê-los aqui, criar uma relação em triângulo, entre treinador, aluno e pai. Acho que é isso que as pessoas procuram hoje em dia”, fala João, o elemento que sabe o que é ser um desses miúdos.

Começou a surfar aos 11 anos e aprendeu a fazê-lo numa escola. José, em pequeno, ainda teve umas aulas, mas não continuou com o surf. Frederico é o Kikas que compete no circuito mundial de surf, o segundo português a qualificar-se.

Eles criaram a sala onde estão para os miúdos poderem ficar, antes e depois das aulas de surf, a conviverem. Ou a verem televisão, lerem um livro, dormirem uma sesta ou jogarem matraquilhos na mesa que ainda vão tratar de ter ali. Tudo num espaço que os pais desses miúdos saibam que existe para os ter ali.

João Maria Catarino

José fala em virar para o surf os miúdos que recebem, ensiná-los o que é conviver com a natureza, respeitar o mar e quem está lá dentro. “Se os miúdos param de fazer surf quando saírem daqui, sentimos que não fizemos bem o nosso trabalho.” Frederico fala da ideia de, a cada etapa que houver no circuito, reunir ali os miúdos, numa espécie de ponto de encontro para ver surf. E João, o mais falador, defende a questão da segurança e dá um exemplo: “Um pai atrasa-se no trabalho e sabe que o miúdo está aqui. Tem uma mesa, pode ler um livro, fazer um TPC, adormecer no sofá. Não está no meio da estrada”.

Eles sabiam que não havia grande coisa a fazer no lado do mar. Das aulas, das pranchas, das ondas. Já está inventado. Por isso, viraram-se para o tempo que sobra nos dias em que os miúdos aparecerem para ter aulas. A escola, situado em São João do Estoril, abre a 1 de julho, e os três amigos não sabem bem o que esperar.

Admitem que fizeram as contas por baixo, talvez subestimando o nome que aparece no logótipo e na lá fora, na fachada - “The Blue Room, by Frederico Morais”.

João Maria Catarino

Ter o nome do melhor e mais conhecido surfista português dá-lhes responsabilidade. E uma “credibilidade e um boost gigantes”, resume João Murjal, que culminam no “fator de preocupação em ter sempre tudo impecável, para não manchar a imagem do Kikas”. É por isso que tiveram muito cuidado em escolher os (para já) dois instrutores que têm contratados. É também devido a isso que um deles, entre João ou José, garantem, estará diariamente na escola.

Estão os dois assentes em Portugal e sabem que o terceiro amigo só cá pára uns três meses por ano. A vida de Kikas é o surf e o circuito, mas desde o verão passado que, a horas de entrar para a água em competição, andou no Skype a falar com João e José sobre a escola e o projeto. “Sempre tive o sonho gigante de fazer uma coisa com amigos. Além do surf, sempre quis abrir um negócio. Ser empreendedor, ou pelo menos tentar. Criar alguma coisa que fique entre nós. Já que vou criar alguma coisa com os meus melhores amigos”, resume o atual 18º classificado do ranking mundial de surf.

Nenhum deles quer virar um miúdo para a competição ou pescar um qualquer talento com jeito destinado a grandes coisas no surf. A ideia, asseguram, é ensinar o estilo de vida e o espírito de surf. “Criámos isto para fazer a introdução ao surf, e não para ser uma escola de competição para criar talentos. Claro que, com o passar do tempo, vamos ter miudinhos que nem sabiam o que era o mar e que, de repente, evoluem tanto em dois meses que tu tens de fazer alguma coisa. Aí há que ter o bom senso de os aconselhar a ir ter com aquela pessoa ou empresa”, resume João.

João Maria Catarino

O que lhes daria mais gozo, sorrisos e alegria será ver miúdos - ou adultos, pois nunca dirão que não a idades - saírem da escola como amigos, colados pelo surf.

Como eles, de certa forma, o foram.

Frederico conheceu João no recreio. Era o puto que lhe batia no recreio, em crianças, quando coincidiram na escola primária, em Birre. Viam-se nas mesmas praias e ondas. Não se amigaram até chegarem à escola secundária, em Cascais. Lá conheceram José e, com o tempo, todos ficaram amigos, com o surf sempre pelo meio. “Para que preciso de outras pessoas, se tenho os meus melhores amigos, em quem confio, e que podem criar as coisas comigo?”, diz Kikas, às tantas.

Todos ouvem e acenam que sim.

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  • As mãos na água, a cabeça no mar

    Surf

    O título do livro de Mário Cesariny podia ser um dos lemas da vida de Frederico Morais. Ele tem as mãos na água de cada vez que toca na prancha, no fato, num abraço ao pai ou no cabelo com sal e aloirado pelo sol. Que são muitas vezes, porque a cabeça de Kikas está sempre no mar e nas ondas desde que a mãe, à beira da água, o viu, pela primeira vez, a pôr-se de pé na prancha, aos 7 anos