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Os 12 dias alucinantes do surfista a quem foi diagnosticado leucemia

Surfar na Indonésia era um dos sonhos da vida do espanhol Cristian Bosco que, durante seis semanas, conquistou as ondas do Pacífico. A 18 de junho, o sonho transformou-se num pesadelo quando lhe foi diagnosticada uma leucemia em Bali. A seguradora recusou pagar o repatriamento e a família fez de tudo para o trazer de volta

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Filho de peixe sabe nadar e o surfista Cristian Bosco, 30 anos, filho do ex-campeão de surf de Espanha, Juan Bosco de La Mora, sonhava com uma viagem à Indonésia, para surfar as ondas do sul do Pacífico.

Partiu a 4 de maio para aproveitar o clima paradisíaco do país muçulmano mais povoado do mundo e surfar com amigos. A 18 de Junho, em Bali, uma violenta hemorragia nasal que não conseguiu estancar, obrigou-o a ir ao Hospital de Sanglah. E o que parecia ser um mero contratempo de viagem, revelou-se um pesadelo: leucemia linfóide aguda (LLA) — doença que anula o sistema imunitário do portador e produz uma inflamação aguda nos órgãos vitais — foi o diagnóstico que recebeu.

Para se curar, o surfista de Santander tem de fazer um transplante da medula óssea. Mas, “conseguir doadores na Indonésia é complicado. O estado dele é crítico, e os médicos dizem que é preciso agir o mais rapidamente possível, porque a doença progride a um ritmo acelerado no espaço de dias", informa fonte familiar. Enquanto aguardava, os médicos indonésios transferiram-no para o Hospital de Siloam, para receber transfusões sanguíneas como medida paliativa.

Entretanto, em Espanha, a família cria o site cristiandevuelta, com o objetivo de informar e sensibilizar a comunidade para o drama que o surfista estava a viver num país do outro lado do mundo.

O regresso a Espanha só pode ser feito de ambulância aérea: "Não somos nós que queremos que ele viaje num avião medicalizado. É uma prescrição médica", diz o pai de Cristian, que foi um dos pioneiros do surf em Espanha.

O transporte em ambulância aérea ultrapassa os 150 mil euros, verba que a família não tem. Por isso, entra em contacto com os consulados do México e Espanha [Cristian tem dupla nacionalidade — a mãe é mexicana] para tentar a evacuação por via institucional: Só que “a máquina burocrática é lenta e longa, e ele não se pode dar ao luxo de aguardar. O tempo é vital para ele”, disse a sua prima Carolina Fernandez, porta-voz da família.

Seguradoras dizem que não pagam

Gorada a tentativa de regresso pelos canais diplomáticos, a família contacta as seguradoras Trawick International e a GBG Insurance [ligadas à viagem de Cristian], para requerer a “evacuação médica urgente”, que começam por pedir o historial médico de Cristian no México e em Espanha, para ter a certeza de que a doença não tinha sido anteriormente detectada.

Até ao fatídico 18 de junho, Cristian "só foi ao médico por causa de uma gastroenterite e de uma apendicite. É saudável e desportista”, contou a prima, que vive em Londres. Apesar disso, as seguradoras recusaram o pedido de repatriamento.

Contadas as poupanças, a família conclui que precisa de 120 mil euros para custear a ambulância aérea e abre uma campanha de crowdfunding, GoFundMe.

A campanha de angariação de fundos teve grande impacto, mobilizando o apoio dos principais meios de comunicação e de figuras públicas como é o caso de Miguel Ángel Revilla, presidente da província da Cantábria. Foi aberta uma conta bancária pela a obra Social "la caixa" e o jornal “El Diario Montañés” para depósito das verbas angariadas.

A campanha acabaria por sensibilizar a SOS Internacional (seguros médicos em viagem) que decide ajudar Cristian. E foi assim que ao fim de dez dias de dor e incerteza, o espanhol e a família recuperaram o ânimo. “A situação de Cristian mudou muito desde que os médicos desta companhia falaram com ele. Avaliaram os sinais vitais e o nível de plaquetas sanguíneas e disseram-lhe que poderia viajar num avião comercial”, revelou Carolina.

A família suspendeu a campanha de angariação de fundos porque a viagem em avião comercial reduziria significativamente os custos de transporte: “A SOS Internacional está a chegar a acordo com as companhias de seguro que Cristian tinha contratado. Graças à solidariedade das pessoas estamos confiantes de que podemos tratar da viagem o mais rápido possível”.

Em Bali, Cristian, exprimiu o seu contentamento através das redes sociais: “Pouco a pouco vejo a luz”, escreveu na sua página pessoal no facebook. O surfista esteve sempre acompanhado pelo amigo e companheiro de viagem Nahum López Sánchez, a que se juntou a tia Mariluz González.

Ao fim de 12 dias de pesadelo, entrou num avião [1 de julho] para regressar a casa. Está a ser tratado no centro Hospitalar Universitário Marqués de Valdecilla (HUMV), em Santander, Espanha, enquanto aguarda um dador compatível para o transplante de medula.

"O primeiro passo já está; ele está em casa. Agora vem a recuperação", diz Nahum Sanchéz, o amigo que o acompanhou desde o momento em que entrou no Hospital de Sanglah para tentar estacar uma hemorragia nasal.