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Se os números não falharem, Kikas já está a salvo no circuito mundial

Ao chegar aos quartos-de-final em Trestles, nos EUA, na oitava etapa do circuito mundial de surf, Frederico Morais já garantiu pontos, em teoria, suficientes para garantir a permanência entre a elite. Desde que o tour tem 11 etapas (2014), nunca um surfista foi despromovido com os pontos que o português já amealhou

Diogo Pombo

Kenneth Morris

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19.450 + 5.200 = 24.650

Fixem esta conta de somar e o resultado, é o número final que interessa, e passo a explicar.

Os 19.450 correspondem aos pontos que Frederico Morais tinha à entrada para o Trestles Hurley Pro, a oitava etapa do circuito mundial de surf. O português entrou em competição e com as ondas que o mar lhe deu e as manobras que ele deu às massas de água, ultrapassou três rondas até, na madrugada de quinta-feira, se qualificar para os quartos-de-final da prova. Descodificando, esta aventura garante-lhe, pelo menos, que a praia californiana se despeça dele com um oitavo lugar.

Essa posição, caso não continue a avançar na competição, dar-lhe-á 5.200 pontos para acrescentar aos 19.450 que já tinha no ranking. Uma conta de somar que resulta no mínimo de 24.650 com que o português sairá da etapa norte-americana.

O que é bom para ele porque, em teoria, já lhe chegará para assegurar que para o ano voltará a surfar no circuito. Basta confiar que a prática não lhe fará o que não fez a outros surfistas, nos três anos anteriores, desde 2014, quando o mundial passou a ser repartido por 11 etapas

Nesse ano, Jadson André acabou como o 22º melhor surfista do circuito, com 20.750 pontos. Em 2015, voltaria a ser o brasileiro calvo a ocupar a posição, com 19.959. O ano passado, outro surfista do Brasil fechou a temporada nesse lugar, chamado Miguel Pupo, com os seus 22.650. O que estes anos e estes surfistas têm em comum é que acabaram com menos pontos do que os 24.650 que já ninguém rouba a Frederico Morais.

Números que interessa por toda a gente abaixo do 22º - dez surfistas, portanto - ser despromovida do Championship Tour, nome dado ao circuito mundial.

Ou seja, a teoria sugere que os pontos que Kikas já garantiu serão os suficientes para não se ter que preocupar mais com a sua sobrevivência. Mas, nunca fiando, o português poderá, e deverá, continuar a amealhar pontos.

Mesmo que não volte a ultrapassar qualquer heat nas etapas que faltam surfar - em Hossegor, França, em Peniche e em Oahu, no Havai -, o português ficará sempre com mais 1.500 (500 pontos por prova), algo que só o vai tramar se todos os quase 20 surfistas que, neste momento, o perseguem na classificação, começarem a chegar bem longe em todas as etapas.

Sean Rowland

Seria preciso que Neptuno e os deuses do surf armassem um complô e conspirassem contra Frederico Morais.

Porque, e os números não o mostram, mas contêm-no, o português está a surfar cada vez melhor e a crescer na forma como compete no mar. Kikas começou o ano com um 5º lugar em Bells Beach, a terceira etapa, resultado que melhoraria em Jeffreys Bay, na África do Sul, onde se tornou no primeiro português a chegar à final de uma etapa. Voltou a decair em resultados em Teahupo’o, no Taiti, onda que é uma onda à parte (aqui dá para ter uma ideia) e ele nunca a tinha surfado.

Agora, em Trestles, voltará a fazer um bom resultado e ainda lhe restam as etapas de França, de Portugal (20 a 31 de outubro) e, sobretudo, do Havai, onde costuma lograr valentes resultados nas direitas grandes e pesadas.

  • As mãos na água, a cabeça no mar

    Surf

    O título do livro de Mário Cesariny podia ser um dos lemas da vida de Frederico Morais. Ele tem as mãos na água de cada vez que toca na prancha, no fato, num abraço ao pai ou no cabelo com sal e aloirado pelo sol. Que são muitas vezes, porque a cabeça de Kikas está sempre no mar e nas ondas desde que a mãe, à beira da água, o viu, pela primeira vez, a pôr-se de pé na prancha, aos 7 anos