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Teresa Bonvalot viu a onda artificial de Kelly Slater e contou-nos como foi

Teresa Bonvalot só tem 18 anos e já conseguiu muita coisa no surf. É bicampeã europeia júnior, já foi duas vezes campeã nacional e a mais recente das coisas boas foi ter assistido, ao vivo, ao evento experimental que a WSL realizou na onda artificial que Kelly Slater inventou: "O objetivo deles é chegar aos Jogos Olímpicos"

Diogo Pombo

FRANCK FIFE

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Algo de muito especial aconteceu para o surf a 19 de setembro, terça-feira da última semana, em Lemoore, uma terra na Califórnia, EUA, distante em quase 200 quilómetros do mar. Durante um dia, uma seleção de alguns homens e mulheres, surfistas dos circuitos mundiais de surf, reunirem-se num rancho para testarem a tecnologia na qual a espécie de papá de todos eles andou a trabalhar durante quase uma década. Kelly Slater, o quarentão, 11 vezes campeão do mundo e ainda competidor, inventou uma máquina que fabrica ondas artificiais.

Máquinas destas já existem há bastantes anos, mas esta, diz-se e vê-se, é diferente. É melhor, tão mais parecida com uma onda empurrada pela natureza quanto possível. Parece ser rápida, perfeita, consistente, com várias secções numa mesma onda que peçam rasgos, tubos ou aéreos. Escrevo parecer porque são raras as pessoas que viram as ondas do Surf Ranch - assim se chama o local - ao vivo e raríssimo é quem já teve o privilégio de as surfar.

Há cerca de dois anos, a World Surf League (WSL) comprou uma fatia do Surf Ranch, sem revelar por quanto. Desde então, nós, seres normais e comuns, apenas tivemos direito a breves vislumbres da onda vídeos ou imagens que iam sendo partilhados em redes sociais. Até que, na última semana, a entidade organizou um evento experimental para testar a onda em competição. E houve uma portuguesa que estava lá, a assistir a tudo.

Teresa Bonvalot não vestiu o fato, pegou na prancha e experimentou as ondas feitas pelo homem. Apenas viu enquanto vários, como Kanoa Igarashi, namorado e surfista americano do circuito mundial, se defrontavam com regras bem diferentes: cada um teve direito a surfar quatro ondas (duas para a esquerda, outra dupla para a direita); contou sempre a onda melhor pontuada de cada lado; e uma onda nova surgia de três em três minutos. Ou seja, aboliu-se a imprevisibilidade, a dependência na natureza, a espera por ondas novas, o acaso de um surfista não depender apenas nas suas qualidades, mas no que a natureza lhe dá.

A breve conversa com Teresa, 18 anos, bicampeã europeia júnior e duas vezes campeã nacional, decorreu antes do Cascais Women's Pro, evento do circuito mundial de surf feminino para o qual a portuguesa recebeu um wildcard.

Sean Rowland

O que achaste da onda?
É verdade, tive lá, foi uma grande experiência e foi lindo ver os melhores surfistas do mundo numa piscina de ondas. Já tive a possibilidade de surfar uma há várias anos, no Wavegarden, em Zarautz [País Basco]. Pronto, esta pareceu-me completamente diferente.

Em que aspeto?
Muito mais parecida com uma onda real, com secções de manobras, umas mais moles, outras mais tubulares. A onda é rápida, não é assim tão lenta como parece. Este evento já teve uma onda para a esquerda, que há um ano ainda não havia. Todos os goofies [pé direito fica à frente na prancha, logo, estão de frente para a onda caso ela quebre para a esquerda] devem ter agradecido!

Cada surfista teve direito a apanhar duas ondas para cada lado e somava-se os pontos da melhor esquerda e direita.
Exatamente. Acho que o fizeram imitando uma prova de skate que houve agora na Califórnia, no sistema de pontuação. Pronto, é diferente, uma coisa completamente nova.

Chegaste a experimentar a onda?
Não.

Mesmo sem o teres feito, concordas que se organiza ali um evento a sério, daqui a pouco tempo?
É assim, concordo em ter alguns eventos ali. Mas não concordo em passar tudo para lá. Adoro estar dentro de água, no oceano, ao ar livre… Acho que vai ser bom para o surf quando se tiver uma ou outra etapa lá. Talvez também chegue aos Jogos Olímpicos, que é o objetivo deles. É chato ires para uma prova e não haver ondas e ali vai sempre haver.

Dá um lado justo à competição, porque todos os surfistas terão as mesmas ondas.
Sim. Na minha opinião, as ondas não eram sempre iguais, eram um pouco diferentes.

Variavam de tamanho?
Não. Pelo que percebi, eles têm a hipótese de fazer vários tipos de onda. Acho que deviam colocar todos com a mesma onda, na primeira vez, depois, todos com outro tipo de onda, para também ser mais challenging. Mas sim, foi uma grande experiência. Adorei estar lá a ver, no meio de todos eles, ter a oportunidade de, pela primeira vez, ver pessoas a competirem numa piscina de ondas.

O Kanoa teve a oportunidade de surfar. O que te dizia ele quando saía da água?
Vi toda a gente com um grande sorriso na cara, acabavam a onda mesmo contentes. Primeiro, a onda é muito comprida, nem tinha essa noção até estar lá a ver. É quase um minuto e meio na onda, é compridíssima. Há partes em fazes manobras, outras em que estás dentro de um tubo. Tens um misto que, às vezes, é difícil apanhar no mar. Ou vais para uma onda em que é quase só para fazer tubos, ou para outra em que é mais manobras. Ali tens uma mistura de tudo um pouco, onde também podes fazer aéreos. É giro, com certeza que é engraçado, também porque podes lá estar com os teus amigos todos.

Entre um dia perfeito no Guincho e um perfeito na onda do Kelly Slater, o que escolhias?
Preferia o Guincho, o mar. Acho que quase todos os surfistas prefeririam o mar. É a maneira como aprendemos a surfar. Isto, basicamente, é uma ideia nova, como tudo, e tudo o que é novo custa a aceitar ao início. Pronto, acho que faz sentido haver uma etapa lá, também para trazer mais espetadores e haver algo diferente.

Talvez seja bom para atrair pessoas que não vejam tanto surf, por cortar com o tempo morto em que se está à espera que entrem ondas.
Sim, pode ser menos aborrecido. Há heats em que, por vezes, não vêm ondas durante 10 minutos. Ali é uma coisa constante, ondas que aparecem de três em três minutos, para a esquerda e para a direita, e aparecem de certeza. E é uma onda boa atrás da outra. É nisso que é bom e que poderá trazer pessoas que não se interessam muito por surf.

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    Aos 13 anos, Teresa Bonvalot já competia e, aos 15, foi campeã nacional. Hoje nem 17 tem e vai competir, pelo quarto ano seguido, na etapa do circuito mundial de surf feminino, em Cascais. Teresa Bonvalot ainda se lembra de dizer, na primeira entrevista que deu, que "queria ser o Kelly Slater em versão feminina". Falámos com ela e ambição é coisa que continua a não lhe faltar