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O bom rapaz

Frederico Morais é o número 11 do ranking mundial de surf. É talvez o melhor surfista nacional de sempre e pode ser a aposta para os Jogos Olímpicos de 2020. Retrato de um cavalheiro à entrada para um mês louco de ondas em Portugal

Ricardo Marques e José Carlos Carvalho

JOSÉ CArlos carvalho

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À entrada de Carcavelos, para quem vem de Lisboa pela Marginal a caminho de Cascais, há um cartaz, que nada tem a ver com política ou eleições. É o de um miúdo louro, despenteado, com a barba por fazer e ar de quem acabou de desembarcar no porto mais próximo e se prepara para conquistar a aldeia. Sem fazer reféns. Sem pestanejar.

“O que é que estou a pensar?”, pergunta o miúdo, divertido. “O que é que há para pensar? Ou para dizer?”, diz, meio envergonhado. Está parado à beira da estrada a olhar para a sua cara enorme no cartaz e parece escapar-lhe a magia da coisa. Aos 25 anos, Frederico Morais tornou-se maior do que ele próprio — e ele já é suficientemente alto. Com 1,85 metros, é um dos surfistas mais altos no Top 32 do WCT, a elite do surf mundial. É também um dos candidatos a rookie do ano, tornou-se rapidamente o adversário que ninguém quer ter pela frente e, a três etapas do fim do campeonato (com um segundo lugar e dois quintos lugares), parece já ter garantido definitivamente a requalificação. Está a caminho, ou já lá chegou (depende das opiniões), de se tornar o melhor surfista português de todos os tempos. Mas quando se vê diante do estranho espelho fica calado.

Até ao fim de outubro, Frederico Morais vai passar muitos dias em Portugal. Coisa rara, mas compreensível. A época alta das ondas nacionais começa quando acaba a época balnear e, no espaço de poucas semanas, a zona de costa que vai de Carcavelos a Peniche torna-se o epicentro do surf profissional mundial — e o país agradece. O negócio do surf, em todas as suas vertentes, das mais óbvias às menos conhecidas, vale mais do que 400 milhões de euros por ano em Portugal e a modalidade tornou-se uma fonte de receitas indispensável em várias regiões. Por isso, ganhou peso político e, a caminho das eleições que amanhã se disputam, o assunto tornou-se tema de campanha. Pelo menos em Peniche, onde se disputa a penúltima etapa do milionário circuito mundial de surf, o WCT. Um verdadeiro tsunami que, apesar de gigante, não dá sinais de parar de crescer.

“O mar hoje não mexe”, constata Frederico Morais, de olhos postos na piscina de água salgada que vai de Carcavelos até ao continente americano. Quase parece agradecido por não ter de ir surfar. Vinte e quatro horas antes estava nas Caraíbas a filmar uma sessão de surf para o seu patrocinador (“Não posso dizer onde, pediram-nos sigilo absoluto. Mas foi numa ilha que escapou aos furacões. As ondas estavam muito boas, sim, mas, infelizmente, foi por causa do furacão”). Voou para a Florida, apanhou um táxi até Miami (“Não deu para ver nada”), entrou no avião, viu um filme a bordo e aterrou em Lisboa, almoçou sushi num restaurante em São Pedro do Estoril e, agora mesmo, depois de ver o mar, está sentado nas escadas a ser fotografado para este artigo. Pode parecer muito, mas a vida corre-lhe bem. Muito bem.

De Vilamoura para o mundo

“O ano está a correr lindamente, já tive três bons resultados e faltam três etapas para acabar o ano, uma delas em Peniche”, explica. Na verdade, faltam quatro. Ou cinco. De uma forma simples, o circuito mundial de surf está dividido em dois. Há um circuito de qualificação (QS) com provas em todo o mundo, umas mais valiosas do que outras em termos de pontos e de prémios em dinheiro, e em que podem competir todos os surfistas. Frederico é a cara do EDP Billabong Pro Cascais. Depois, há o Championship Tour (CT), reservado aos 32 melhores do mundo: 11 provas em 11 ondas excecionais. Neste momento, faltam França, Peniche (Morais também está no cartaz à entrada de Supertubos, mas a surfar) e Havai. No fim, os dez melhores do QS entram para o lugar dos últimos 10 do CT — ainda que os surfistas do CT possam entrar nas provas do QS e, assim, garantir a qualificação de uma outra forma. E é tudo igual no lado feminino (a etapa do CT feminino decorre em paralelo com o QS masculino de Cascais). Parece complicado, mas é errado julgar que o surf é uma coisa simples. Nunca foi.

Frederico Morais, que começou a brincar nas ondas com uma prancha de bodyboard em Vilamoura no verão, é a prova disso. É também a prova de que, sim, por vezes há ondas no verão em Vilamoura. E, segundo João Valente, editor e proprietário da “Surf Portugal” e um dos mais profundos conhecedores do surf nacional, Frederico é, acima de tudo, um sinal dos tempos. “Antes dele, nunca houve um surfista que tenha, desde uma idade tão tenra, sido preparado para o surf enquanto carreira desportiva — uma vez que o próprio conceito do surf como carreira desportiva, a par de desportos, digamos, convencionais, é em si algo de relativamente novo”, explica. “O facto de vir de uma família com forte cultura desportiva de competição também contribuiu para essa diferenciação face a todos os demais”, acrescenta Valente.

Caminho. A história que começa com uma prancha de bodyboard em Vilamoura tem no pai de Frederico, Nuno, um personagem fundamental. Foi o seu primeiro treinador e juntos sonharam um futuro que agora começa a dar frutos. Aos seis anos Frederico escreveu à “Surf Portugal”, de João Valente, e garantiu que “ainda iam ouvir falar” dele. Dezanove anos e muitas viagens, mais ou menos solitárias, depois, Kikas abriu a sua própria escola de surf, para dar de volta aos miúdos o que o mar lhe deu

Caminho. A história que começa com uma prancha de bodyboard em Vilamoura tem no pai de Frederico, Nuno, um personagem fundamental. Foi o seu primeiro treinador e juntos sonharam um futuro que agora começa a dar frutos. Aos seis anos Frederico escreveu à “Surf Portugal”, de João Valente, e garantiu que “ainda iam ouvir falar” dele. Dezanove anos e muitas viagens, mais ou menos solitárias, depois, Kikas abriu a sua própria escola de surf, para dar de volta aos miúdos o que o mar lhe deu

d.r.

O melhor português dentro de água não passa despercebido em terra. “Viste? Era o Frederico Morais. Ele sorriu para mim...”, diz baixinho uma miúda, de 13 ou 14 anos, para as duas amigas. Caminham as três no paredão de Carcavelos, em sentido contrário ao de Frederico. “A verdade é que nunca me senti superior aos outros miúdos. O meu pai e o meu tio, ambos muito ligados ao desporto, ensinaram-me desde muito cedo que não podemos estar na nossa zona de conforto. Sempre me incutiram o contrário.

Quando a pessoa se encosta para relaxar à sombra da bananeira, o comboio passa e já é difícil voltar a apanhá-lo. Temos de estar sempre à procura de sair da zona de conforto”, assegura Morais, que começou cedo a sair. “O meu pai sempre procurou levar-me para a Austrália, para o Havai, em viagens com outros surfistas, outras realidades, precisamente para não ficar nessa zona de conforto.”

A conversa é sobre percursos. “Claro que isto de sair, de viajar, não é possível para toda a gente. Tive apoios desde muito cedo, o que também ajudou. É uma facilidade, sem dúvida. Ou uma não dificuldade. Mas também não deve ser uma desculpa para não fazer. Temos o caso do Adriano de Souza, que foi campeão do mundo há dois anos. Nasceu sem um tostão, ele próprio conta a história, e não o vejo a arranjar desculpas. Arranjou nisso uma força para lá chegar. Há muitas histórias assim e não vejo isso como uma coisa boa ou má. Todos os caminhos têm obstáculos, escolhas, decisões. Se calhar houve dificuldades que tive e que outros não tiveram. E o contrário também é verdade...”

Manual do bom surfista

O sonho de ser surfista não foi coisa de uma noite, de um dia. “É algo que foi crescendo”, confessa. Uma onda depois da outra. Uma praia a seguir a outra. Cada vez mais exigente, mas sempre com o pai ao lado. Nuno Morais, antigo campeão de râguebi pelo Cascais, fisioterapeuta feito treinador de surf, fato vestido e barbatanas nos pés a empurrar o miúdo para as ondas. “Sem ele, sem a minha família, nada disto seria possível. Foi fundamental. Puxava por mim e ambos procurávamos mais, queríamos sempre algo para nos desafiar, algo diferente”, reconhece Frederico Morais, que também foi buscar inspiração ao tio, Tomaz Morais, antigo jogador e selecionador nacional de râguebi. O último livro que leu — sobre a seleção neozelandesa de râquebi — foi-lhe sugerido pelo tio. E, a meio da conversa, cita o livro de Tomaz Morais. “Não há nada melhor do que a lição que dá titulo ao livro: compromisso, nunca desistir. É o querer sonhar mais alto. No surf e na vida.”

João Capucho, antigo presidente e hoje administrador não-executivo da Associação Nacional de Surfistas, identifica em Frederico Morais cinco características que podem explicar o sucesso. “Ele tem essas marcas. Dedicação, concentração, esforço, competência e talento”, enumera Capucho. “Tem mais talento do que tinha o Tiago Pires, que tirava muito mais do esforço e da dedicação que punha na sua carreira.” Tiago Pires foi o primeiro português a chegar à elite do WCT e, de certo modo, um exemplo para todos os surfistas nacionais. “O Frederico está num lote de surfistas que tem uma grande margem de progressão. Num desporto tão subjetivo como surf, ele tem uma característica impressionante: não cai, não falha. E, depois, como temos assistido, é muito simpático, muito educado. O tipo é um cavalheiro”, conclui João Capucho.

josé carlos carvalho

Frederico é um profissional em todos os sentidos. Sempre sorridente, responde a todas as perguntas e acede a quaisquer pedidos do fotógrafo. Está há vários minutos encostado a uma grade de ferro, de frente para a câmara. Passa um carro na marginal e apita. Ele acena. Passa outro, de janela aberta, e o condutor grita: “Dá-lhe Kikas!” Kikas, a alcunha de Frederico, acena. Um homem num Mercedes encosta no parque para tirar uma fotografia. “Kikas” sorri. “Conheces estas pessoas?” “Não, nunca as vi na vida.” A pergunta seguinte tem a ver com o apoio do público durante as provas portuguesas (EDP Billabong Pro Cascais, 26 de setembro a 5 de outubro, e o Meo Rip Curl Pro Portugal, de 20 a 31 de outubro). “Tenho a certeza de que vai ser surreal. Tem sido sempre. Tenho sentido esse apoio durante todo o ano e encontrei portugueses em todo o lado, até em Fiji e no Taiti”, recorda. Mas há pressão? “O apoio nunca me fez muita confusão, nem fico mais ou menos nervoso. Sempre tentei canalizar isso como uma energia positiva. Espero que o mar ajude e que Peniche seja um campeonato lindíssimo.”

João Capucho, o homem da ANS, dá um salto em frente a um mês do campeonato em Supertubos. “Vamos ver como lida com aquela gente toda a gritar por ela, mas, se houver ondas em Supertubos, mais direitas do que esquerdas, não tenho qualquer problema em dizer que o Frederico Morais pode ganhar. Escreva isso. Em Peniche, ele pode ganhar.” Frederico admite que a prova de Cascais, o QS, será acima de tudo uma “oportunidade para treinar” — até porque segue para França, para o CT, logo a seguir, antes de voltar a casa. “Tenho a requalificação quase garantida e, por isso, não há aquele stresse de conseguir um bom resultado. Vou desfrutar de estar em casa, experimentar pranchas novas e treinar para as provas que faltam do CT”, explica.

Simplesmente complexo

O surf parece simples, mas é demasiado complicado. Visto da praia são dois tipos com pranchas a apanhar ondas e no fim ganha um. Nada mais errado. Todos os detalhes contam. Não é qualquer onda que serve. Não é qualquer prancha que serve. Não há duas manobras iguais. Não há duas ondas iguais. Não há adversários fáceis. O surf é um desporto cada vez mais tático e que se decide em pormenores. Frederico guarda alguns no telemóvel, onde tem uma enorme lista de notas com pormenores sobre todas as pranchas que usa: onde funcionam, como respondem, o que pode ser melhorado. Tal como as ondas, não há duas iguais e só com uma boa dose de paciência se encontra aquela prancha mágica.

“Para ganhar é preciso saber esperar, deixar passar as ondas mais pequenas e apostar naquelas que nos dão pontos. Tens de tomar decisões a cada instante, dar passos seguros para garantir a vitória. Às vezes é difícil”, reconhece Frederico Morais, que conseguiu o seu melhor resultado este ano em África do Sul, perdendo apenas na final, e por poucas décimas, para o brasileiro Filipe Toledo. “Se tivesse ficado um pouco mais no tubo, talvez a nota tivesse sido melhor. Por outro lado, talvez não fosse suficiente. A pessoa tem de decidir e acho que decidi bem. Todos os meus heats são analisados no fim, com o meu treinador.”

Richard Marsh, um antigo surfista profissional que se tornou treinador, reparou em Frederico pela primeira vez há oito anos. “Vim a Portugal através da Nike para assistir a um campeonato na Praia Grande e a primeira onda que vi do Frederico foi um air-reverse. Fiquei muito impressionado”, recorda Marsh. (Há um glossário nestas páginas, exatamente para explicar, entre outras coisas, o que é um air-reverse ou tubo). “Este ano, a nossa prioridade foi garantir a requalificação através do CT e continuar a melhorar o surf. Para o próximo ano, creio que será igual: continuar a evoluir e a progredir, como homem e como surfista”, acrescenta.

Há pouco menos de um ano, estavam os dois no Havai a pensar numa espécie de plano de emergência que garantisse a qualificação de Morais para o CT nas duas últimas etapas. “Queríamos ter chegado lá dentro do top 20, mas não aconteceu. Sabíamos que seria muito difícil, mas também estávamos conscientes de que não havia nada a perder. Era preciso dar o máximo em cada onda, em cada manobra. O resto, como se diz, é história”, lembra Marsh. Uma história que fica para a história do surf nacional. “Ninguém faz duas finais no Havai. Foi muito bom”, diz Marsh. “Não foi surpresa nenhuma”, garante João Valente, da “Surf Portugal”, a principal revista da modalidade. “Quem observou o seu percurso ao detalhe, mais atento às notas que marcava do que aos resultados que obtinha, percebia que chegar ao tour era uma questão de tempo e que, uma vez lá, a sua adaptação seria fácil.”

Surpresa. O primeiro grande resultado de Frederico Morais no World Tour 2017 surgiu em Bells Beach, na Austrália, e cedo se percebeu que esta seria a manobra dos pontos. Não há muita gente a atacar a onda com tanta força como o português. Frederico ficou em quinto lugar, tendo sido eliminado pelo brasileiro Caio Ibelli

Surpresa. O primeiro grande resultado de Frederico Morais no World Tour 2017 surgiu em Bells Beach, na Austrália, e cedo se percebeu que esta seria a manobra dos pontos. Não há muita gente a atacar a onda com tanta força como o português. Frederico ficou em quinto lugar, tendo sido eliminado pelo brasileiro Caio Ibelli

FOTO Morgan Hancock/Action Plus / Getty Images

Em teoria, é difícil parecer difícil: os melhores surfistas do mundo sozinhos nas melhores e mais cobiçadas ondas do planeta: da Austrália a Portugal, passando pelos EUA e ilhas do Pacífico, para acabar no Havai. “Quando percebes o que é o tour, o que são aquelas ondas e tudo o que podes aprender... Bom, ai já ninguém quer sair. Acho que nunca houve um surfista que dissesse que queria sair do CT”, descreve Frederico Morais [na verdade, há uns anos, o americano Bobby Martinez anunciou que queria sair do tour, numa célebre entrevista em direto, cheia de palavrões]. “Às vezes não é fácil não ficar deslumbrado, afinal estamos lado a lado com ícones do surf mundial. Surfar contra o Kelly Slater... Mas é possível. Gosto de estar focado no meu surf, de viver a minha pessoa e de não estar focado nos outros.”

Deus, ondas e eleições

A receita está a funcionar. Morais está a poucos pontos de entrar no top 10 mundial, um feito impressionante para um surfista no primeiro ano de CT. Mais uma razão para ajudar ao entusiasmo de Paulo Morais Ferreira, o presidente do Peniche Surfing Clube (PPSC). “Todos nos lembramos da vitória sobre o Slater aqui em Peniche e, há um ano, o Frederico disse que as suas provas preferidas eram Jeffreys Bay e Supertubos. Na África do Sul ficou em segundo, aqui... Vamos ver. Vai ser uma loucura. O ano que ele tem tido. Muito bom. Ele está a chegar à praia”, garante Paulo Ferreira, em sentido literal e figurado também. “Ainda melhor era ter uma final entre ele e o Vasco Ribeiro”, acrescenta, referindo-se ao campeão nacional que vai entrar como convidado no CT. No ano passado, também como convidado, Vasco fez de conta que estava em casa e terminou em terceiro.

Peniche está na linha da frente do surf em Portugal. Há turistas durante todo ano e uma invasão de gente durante a etapa do mundial (com uma receita média de 13 milhões de euros numa semana). De acordo com um estudo da World Surf League (WSL), entidade responsável pelos circuitos profissionais, o impacto das três provas do mundial de surf organizadas em Portugal em 2014 rondou os 46 milhões de euros. “Peniche é hoje uma marca graças ao surf”, garante Paulo Ferreira, “mas os benefícios são transversais”. A prova definitiva do poder das ondas surgiu há uma semana, quando o PPSC organizou um debate entre todos os candidatos à câmara municipal (faltou um, o do CDS). “Há uns anos não teria sido tão fácil, mas agora conseguimos. E os candidatos percebem que não podem faltar.” Os lugares foram sorteados, as questões escolhidas de entre todas as que foram sugeridas online e ainda houve tempo para perguntas da assistência. “Há visões diferentes sobre o futuro e sobre o papel que o surf pode ter no turismo”, refere o presidente do PPSC. “Creio que foi o único debate deste género em todo o país.”

Frederico Morais disputa o espaço nos cartazes com os candidatos às autarquias, mas a política não é coisa que lhe interesse por aí além. “Não passo cá tempo suficiente para acompanhar”, explica. “Mas vou votar, sim. Acho que é uma obrigação de todos”, acrescenta, algo desconfortável. É quando as questões saltam para um plano mais pessoal que se retrai um pouco. Vai fazer pelos filhos o mesmo que o pai fez por ele? “Isso é uma pergunta difícil. Ainda tenho de ter filhos, não sei se vão querer ser surfistas.” Mas não é algo em que pense? “Penso. Mas tenho 25 anos. Para já estou concentrado no surf, mas sem dúvida que quero ter filhos, ter uma família, criar e viver. E, um dia, se deus quiser, correr o mundo e dar a conhecer todos os sítios que conheci. Como o meu pai fez por mim.” Se deus quiser? A religião é importante? “Um pouco... Não sou praticante...É uma pergunta difícil. É difícil dizer...Acho que são coisas nossas... Da esfera pessoal...”

Fica Frederico sozinho, com o telemóvel na mão, a ver o mar parado de Carcavelos. “Apetecia-me ir dar um mergulho. O mar é sempre especial. Com ondas ou sem ondas, é fabuloso, nem que seja para estar a boiar um bocadinho, a olhar para o céu e a pensar na vida”, conta. Não tem corrido mal. Aos 10 anos, três anos depois de uma célebre carta de intenções dirigida à Surf Portugal, já era campeão sub-12 e repetiu várias vezes o feito em diferentes categorias. Somou-lhe vitórias um pouco por todo o mundo e começou a dar nas vistas. Uma história de sucesso, com um único soluço: uma queixa de violação apresentada por uma raparigas inglesa contra Morais e Vasco Ribeiro durante uma prova no Equador, em 2009. Os portugueses chegaram a estar detidos, mas nunca houve qualquer acusação.

No dia em que Frederico chegou a Portugal vindo das Caraíbas, o assunto do momento no mundo do surf era uma prova especial que decorreu longe do mar, no interior do estado da Califórnia, naquela que é provavelmente uma das melhores ondas do mundo: a piscina de Kelly Slater. A WSL organizou um campeonato apenas para surfistas convidados. Frederico, assim como grande parte dos Top 32, ficou de fora. Se ficou chateado, é suficientemente cavalheiro para disfarçar. “Vi algumas ondas nas redes sociais. Não percebi bem como é que foi feita a escolha dos convidados. Tinha outras obrigações, mas tenho a certeza de que deve ter sido superdivertido. É um sonho. Toda a gente que gosta de surf está doida para experimentar aquela onda...”

O seu treinador, Richard Marsh, não é tão meigo. “Adoro a ideia das piscinas de ondas e estou certo de que farão parte do futuro do surf. Mas, na minha opinião, se um surfista está no top 32 merece uma oportunidade e a WSL não devia ter favoritos. Os eventos servem para isso, para ver quem são os melhores.” O comentário fala tanto para o passado — para a festa exclusiva na piscina de Slater — como para o futuro. É ponto assente que o surf mundial está em mudança. É um daqueles momentos que puxa uma célebre frase de Ivo Andric, em “A Ponte Sobre o Drina”: “Estava-se num período de fronteira entre duas épocas da história humana, de onde era muito mais fácil avistar o fim da época que se encerrava do que o principio dessoutra que se abria.” Há muitos rumores e poucas certezas e ninguém sabe ao certo como vão ser apurados os próximos campeões mundiais. No entanto, ninguém acredita que Frederico Morais não esteja entre a elite. “A WSL gosta e precisa de acarinhar surfistas que promovem a diversidade de nacionalidades no tour.”

De olho na medalha

O próximo ano vai ser tão importante como o que estás prestes a chegar ao fim. Marsh já disse que o fundamental para Frederico Morais é evoluir. João Capucho prevê que, nos próximos tempos, Morais seja o único português. “É uma utopia pensar que pode haver mais. Como estão as coisas, é muito exigente e não é fácil contrariar o peso dos atletas brasileiros, australianos e americanos, com um nível altíssimo”, esclarece. Já João Valente salienta que há margem para progressão (o glossário pode ser útil). “Arriscando destoar da unânime euforia nacional, acho que o Kikas ainda tem muito por onde evoluir. Já este ano deu sinais dessa evolução, principalmente de backside, onde não era tão forte. Mas mesmo de frontside acho que ele pode ser mais solto, ainda o acho muito ‘duro’, principalmente em ondas mais pequenas”, explica João Valente, sublinhando também a necessidade de mostrar o que vale em ondas como as de Fiji e do Taiti.

Frederico concorda que pode estar muito mais à vontade em algumas ondas. “É uma questão de ir lá, apanhar boas ondulações, conhecer a onda. Arranjar tempo para surfar nesses locais.” O surfista português é a cara de uma equipa onde entram os pais, o treinador, a pessoa que trata dos compromissos com os media e com as marcas, a pessoa que trata do físico e a outra, responsável pelo lado psicológico, mais a a pessoa que trata dos hotéis e dos voos. “Não me queixo da minha vida, nunca. Passo o ano a viajar para sítios de sonho, para fazer surf. Mas se há algo que mudava, se pudesse, era os voos. Estamos sempre de um lado para o outro, com sacos de pranchas atrás. Às vezes não é fácil, mas pronto...”

Dentro de dois anos, Frederico Morais pode muito bem estar a caminho de um destino distante. Os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, serão os primeiros a incluir o surf na lista de modalidades. “Claro que gostava de ir, era um orgulho poder representar o surf português nos jogos olímpicos, mas ainda há pouca informação. Ainda não está bem definida a logística”, admite o surfista. O Expresso sabe que a nível da modalidade já estão a ser feitas várias diligências com vista à preparação dos atletas, mas ainda não é conhecida a informação oficial do comité olímpico — entretanto, os australianos já escolheram o selecionador: Bede Durbidge, que deve deixar o top 32 no final do ano. João Capucho vai ainda mais longe e admite que a escolha das duas cidades olímpicas seguintes, Paris e Los Angeles, é um sinal muito positivo para a modalidade. “São zonas de surf, com ondas. Em Los Angeles teremos Huntington Beach e em Paris, o surf deverá ser na Bretanha ou em Hossegor”, prevê. Hossegor é o palco da etapa do CT que antecede Peniche.

As medalhas, para já, não passam de uma ideia. É mais importante saber que objetivos traça um surfista que, caso não haja grandes surpresas, termina o ano à beira, ou dentro, do top 10 mundial? “Ainda falta acabar este, ver como corre e depois delinear objetivos. Claro que penso nisso, mas tem de ser uma coisa de cada vez. A pessoa aponta sempre para melhor.” Frederico é cauteloso com o futuro, mas não é indiferente. Abriu uma escola de surf com amigos. “Não é para criar atletas. É uma escola de iniciação, uma forma de dar de volta um pouco daquilo que o mar nos deu. Há muitas lições no surf. Lidar com o medo, respeitar os outros, respeitar a natureza, conviver em harmonia”, explica. E mais para a frente? Daqui a 10 anos? “Não sei. Talvez possamos conversar outra vez nessa altura.”

Frederico Morais acha mesmo que tem uma vida simples e, garante, não a trocaria por nada. Faz o que gosta e sente-se “realizado” por saber que pode inspirar outros miúdos a viverem os sonhos. “Seja no surf ou noutra coisa qualquer.” Nunca pensou a sério no que faria se não fosse surfista. “Provavelmente seria atleta noutra modalidade, algo que me permitisse competir.” Não há ondas em Carcavelos e o último dia de verão está tão quente que parece o primeiro. Está bandeira verde e a praia quase deserta. Junto ao areal nasce a pequena cidade que vai acolher a prova do QS. Cabina de juízes, cabina de atletas, de media, rampas de skate, tendas e tendinhas. E lá em cima, junto à estrada, meio de costas para o mundo do surf, estão os cartazes do ‘votem em mim’. Frederico anda por aí.

Ligação. Não é possível falar de Frederico Morais sem falar do pai, Nuno Morais, antigo campeão nacional de râguebi, fisioterapeuta e um autodidata do surf. O surfista reconhece que a família é seu porto seguro. Aprendeu com o pai a lição mais importante: procurar estar sempre fora da zona de conforto. Exceto quando estão ambos na garagem, a ver as pranchas que Kikas vai usar nos próximos campeonatos. Estar em casa, nos dias que correm, não é só confortável, é um luxo

Ligação. Não é possível falar de Frederico Morais sem falar do pai, Nuno Morais, antigo campeão nacional de râguebi, fisioterapeuta e um autodidata do surf. O surfista reconhece que a família é seu porto seguro. Aprendeu com o pai a lição mais importante: procurar estar sempre fora da zona de conforto. Exceto quando estão ambos na garagem, a ver as pranchas que Kikas vai usar nos próximos campeonatos. Estar em casa, nos dias que correm, não é só confortável, é um luxo

josé carlos carvalho

GLOSSÁRIO BREVE

Campeonatos

Portugal vai receber três eventos da World Surf League: um do circuito de qualificação (QS) e dois do Championship Tour (CT): um masculino e um feminino. A prova do QS começou a 26 e termina a 5 de outubro, em Cascais. Carcavelos é a praia principal e o Guincho é a alternativa mais provável. É particularmente importante porque é uma das mais valiosas em termos de pontos, cruciais numa altura em que estamos cada vez mais perto do fim da época. Em paralelo, decorre o Cascais Women’s Pro, do circuito CT feminino. Em outubro, de 20 a 31, decorre em Peniche o Meo Rip Curl Pro. As datas indicadas constituem uma janela de oportunidade, de modo a garantir que a prova decorra nas melhores condições possíveis de mar e de vento. Todas as provas são transmitidas em direto na internet.

Funcionamento

Os campeonatos de surf organizam-se por rondas, colocando frente a frente os surfistas mais bem classificados com os do fundo da tabela. Não há limite para o número de ondas que podem apanhar, mas apenas as duas melhores são consideradas. Cada onda é avaliada por cinco juízes internacionais, com base em critérios definidos pela WSL (tamanho da onda, velocidade das manobras, variedade...), e a nota final é a média das três notas intermédias. Na primeira ronda, há três surfistas dentro de água e nenhum perde. O vencedor segue para a ronda 3 e os outros dois disputam a ronda 2 — essa sim a eliminar. O formato repete-se na ronda 4: o vencedor segue para os quartos de final e os derrotados lutam na quinta ronda por um lugar nos quartos de final. A partir daí, é sempre a eliminar.

Esquerdas e direitas

As ondas rebentam paralelas à praia, mas o ponto de vista que interessa é o do surfista. Para quem está na praia, uma esquerda é uma onda que rebenta para o lado direito; uma direita é o contrário, vai rebentando para o lado esquerdo. Os surfistas, consoante o pé que colocam atrás, podem ser regulares (pé direito), como Frederico Morais, ou goofys (pé esquerdo)

Frontside

Quando um surfista faz surf de frente para a onda. É o que acontece a um regular numa direita (ver fotografia de Morais nestas páginas, nas direitas de Bells Beach)

Backside

O contrário. O surfista fica de costas para a onda. Exemplo: um regular numa esquerda

Tubo

É o prato forte de muitas das etapas do circuito, Peniche incluído. O surfista atravessa o interior da onda, deslocando-se e envolvendo-se no espaço vazio criado entre a crista e a base da onda.

Air-reverse

É uma das dezenas de manobras à disposição dos surfistas. Além das clássicas, como o tubo ou o cutback (inverter a direção da prancha e levá-la de volta à espuma), nas suas inúmeras variações, os aéreos são o cartão postal do surf moderno. No air-reverse, o surfista lança-se no ar e faz uma rotação completa para aterrar na base da onda.