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A repetição de John John

O surfista havaiano pode sagrar-se campeão mundial pela segunda vez nas mesmas ondas, em Peniche. E falou à Tribuna Expresso antes de a etapa portuguesa do circuito mundial de surf

Diogo Pombo

FOTO BUDA MENDES/GETTY IMAGES

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Toda a pergunta tem um contexto, e o contexto deste surfista magro, mas bastante alto, de cabelo loiro esbranquiçado e pele avermelhada, ar de turista saxónico que nunca conheceu o sol, é o seguinte: John John Florence talvez seja o melhor surfista do mundo e, se não for, é certamente quem combina mais talento natural com o estilo descontraído e com a capacidade de fazer as coisas espantosas que realiza em cima de uma prancha.

John John Florence é havaiano, nasceu em Oahu, uma ilha que tem algumas das maiores, mais fortes, mais difíceis e, por conseguinte, mais perigosas ondas do planeta. Como a Pipeline. Tem 24 anos, com 2 já nadava, com 5 aprendeu a surfar, aos 13 entrou na Vans Triple Crown do Havai, o conjunto de provas mais prestigiante da modalidade; no ano passado sagrou-se, por fim, campeão do mundo pela primeira vez, uma décima parte do que o vizinho, amigo e quase mentor, Kelly Slater, já conseguiu. É a clássica história do menino prodígio que ultrapassou as etapas todas até concretizar o seu potencial: transformar-se no maior atleta do planeta de uma modalidade que ainda não deu tudo o que tem para dar. Tal como ele, mas sobre isso já falaremos.

Mesmo assim, se obrigassem John John Florence a optar, aqui (num hotel em Peniche) e agora (véspera do início do MEO Rip Curl Pro*), entre o segundo título mundial ou partir num veleiro numa viagem à volta do mundo, a escolha seria óbvia. “Faria essa viagem”, diz John John ao Expresso. O surfista tornou-se campeão mundial há um ano em Portugal e pode garantir o novo título mundial no mesmo lugar, ou melhor, no mesmo mar, mas nem dois segundos demora a pensar na resposta. E explica-nos porquê.

É que por muito talentoso, espetacular, promissor e, por vezes, superior aos restantes surfistas que pareça, ele encara o surf pelo prazer que lhe dá e não pela competição em que o coloca. “É o sonho da minha vida, sabes? É isso que quero fazer, portanto escolheria a viagem. Gosto mesmo muito de velejar, tem sido uma grande parte da minha vida no último par de anos”, resume, pouco incomodado pelas câmaras de televisão ou pelas máquinas fotográficas que o querem captar, pelas pessoas que fazem fila para o cumprimentar, pela atenção que gera ser campeão mundial. O havaiano é um fenómeno de popularidade, mas não parece ter consciência disso.

O senhor cool

John John Florence está tranquilo, anormalmente relaxado para quem é líder do ranking, venceu o título em Peniche no ano passado e pode ganhá-lo aqui de novo se Jordy Smith não chegar aos quartos de final e ele surfar até à final. Ou, então, até é normal, porque ele é mesmo desligado: em 2016, ficou “nervoso” porque só se apercebeu de que “tinha hipótese de vencer o título na conferência de imprensa” antes do evento. “Simplesmente adoro surf, é isso. Não ando nisto só para competir. É superdivertido aprender enquanto competes, mas não encaro ganhar ou perder como uma situação de vida ou de morte. Para mim é tudo diversão”, confessa, como se tudo isto lhe parecesse óbvio.

Está “muito mais relaxado” do que no ano anterior. Sente que ficou “mais esperto” a partir do momento em que o ranking e a competição o ratificaram como o melhor do mundo. O lado bom de surfar para ser melhor do que alguém é o que o leva a melhorar-se. “É porreiro descobrir como lidas com os momentos de pressão, pois é nessas situações que mais aprendes sobre ti próprio. Ficas nervoso e ansioso, mas isso vem no pacote”, relativiza, sobre a vida no circuito que este ano o fez ganhar apenas uma prova, em Margaret River, na costa oeste da Austrália.

A diversão na competição

É curioso que o havaiano possa repetir um título no mesmo lugar, porque o conceito da repetição já lhe está no nome, John John, decisão da mãe quando viu John John Kennedy fazer a histórica continência no funeral de John F. Kennedy. John John Florence foi criado por uma mulher solteira, mãe de três filhos, que os educou a fazê-los brincar no mar que tinham quase como quintal de casa. É provável que a forma como encara a vida tenha que ver com a educação que teve. Ou talvez seja o talento de quem parece precisar de menos trabalho para chegar mais alto: John John já descolava em manobras aéreas que a maioria dos surfistas adultos não alcança; era um miúdo bom, aliás, muito bom, que sempre foi melhorando porque a esperteza lhe fez entender que esse é o benefício da competição. “Cada vez que perco ou cometo um erro penso que posso emendá-lo. O melhor do surf é isso: a competir consegues sempre melhorar, não há limites para quão bom podes vir a ser”. E ninguém sabe, talvez nem ele, como John John se pode tornar melhor.

Até ao início do ano passado, o havaiano limitava-se a surfar para treinar e nunca treinara comendo melhor, indo ao ginásio, fazendo exercícios específicos e funcionais, pensado menos como um atleta de alta competição e mais como alguém que desfrutava da paixão competindo. Achou que ia ser difícil “continuar a puxar” por ele próprio, mas descobriu que havia “tanta coisa ainda por descobrir”. Este ano, o primeiro que fez como campeão mundial em título, “já aprendeu muito mais”, sobretudo sobre ele. Uma vez mais — e repete a ideia — aprendeu a “relaxar”. Como no 24º aniversário, que celebrou na quinta-feira, em Peniche. “Tive um bom dia de praia, a surfar e a fazer bodysurf com alguns amigos que estão cá. Depois tive um bom jantar e pronto, basicamente foi isso: fazer o que faço todos os dias”.

Falando com ele, parece-nos que não há apenas um caminho certo e correto que explique como se chega a campeão do mundo; não se cinge à fome de títulos ou à ambição de ser melhor do que os outros, à resiliência de lutar, sacrificar e roubar horas à vida para as dar ao trabalho. Porque há curvas que têm que ver com a desmotivação natural de quem atinge um objetivo e se pergunta: “E agora? O que farei?”, e fica “triste” pelo “ano incrível” que acabou.

O surf pode ser a maior fatia do bolo da vida dele, mas não é o sonho da vida dele. “Adorava ir até alguns eventos do circuito de veleiro. Quem sabe?”

* O MEO Rip Curl Pro, em Peniche, é a etapa portuguesa do Circuito Mundial de Surf. A prova arranca este fim de semana e prolonga-se, no máximo, até 31 de outubro. A Tribuna Expresso irá fazer a cobertura diária do evento