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As coisas boas de Supertubos, as más e a que Strider gostava de ter estado a fazer

Strider Wasilewski é um comentador da WSL e uma das vozes, e caras, mais ouvidas e vistas para quem acompanha as etapas do circuito mundial de surf. O americano passa o primeiro dia do Meo Rip Curl Pro, em Peniche, dentro e fora de uma tenda e não dentro de água, a comentar o que se passa sentado numa prancha: "É quem eu sou. Para mim é mais natural estar dentro de água, é mais desafiante ter que fazer entrevistas ou comentário aos heats"

Diogo Pombo

Pedro Mestre/WSL

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São muitas e várias as queixas que se podem fazer com origem numa coisa boa: o difícil, o longe e o entediante que pode ser, e certamente é, para estacionar o carro; os poucos metros quadrados de areia, minguantes à medida que o dia e a maré avançam, disponíveis; e os desproporcionais milhares de pessoas que há na praia de Supertubos, em Peniche, que agravam as duas queixas anteriores.

A coisa boa é estar tudo aqui para assistir ao primeiro dia do Meo Rip Curl Pro, a etapa portuguesa do circuito mundial de surf, concentração de histeria, interesse, curiosidade e, repetindo, de gente.

É uma espécie de acumular contínuo de pessoas, um afluente de formigas que têm o areal como formigueiro para tapar, que começa às 7h45 - ou é suposto começar. O primeiro dia de competição é igual a qualquer outro que se siga. O call, que é a chamada para os surfistas se apresentarem na praia, é sempre a essa hora. No caso deste sábado, a conjugação entre a ondulação, a maré, o vento aconselha os organizadores da prova a esperarem até às 9h e, aí, a adiarem mais o arranque, até às 10h.

E as pessoas a chegarem e as tais possíveis queixas a agravarem-se.

Mas é pela boa causa, o primor de se poder ver de perto ondas de dois metros para cima, fortes, tubulares, assustadoras, a quebrarem com homens de pé em pranchas tentam não serem quebrados por elas.

Tipos como Mick Fanning, Jack Freestone ou Vasco Ribeiro, únicos a se enfiarem em tubos que valem pontuações de nove para cima (cada onda é pontuada numa escala de zero a 10), que deixam as pessoas, na praia, a irradiar gritos, palmas e exclamações de alegria por testemunharem o que não conseguem ver - o momento mais privado e íntimo do surf, quando um surfista está a brincar com a sorte de ser mastigado por uma onda, envolto em água, escondido de tudo.

O australiano Fanning obriga Frederico Morais, o português do circuito que motiva histeria sempre que pisa a areia, a surfar a segunda ronda dos perdedores (no domingo). O também nascido na ilha-continente Freestone é o primeiro a dar espetáculo a sério. O português Vasco, detentor de um wildcard, sobrevive à repescagem eliminando Owen Wright, um dos melhores do circuito, com a melhor nota (9.37) do dia.

E as pessoas que tapam a areia com gente malucas por estarem a presenciar tudo isto, enquanto alguém tem de tentar filtrar tudo isto a quem não tem o privilégio de aqui estar.

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Eis a razão para Strider Wasilewski estar hora sim, hora não, contido numa tenda, protegido do sol que carrega com força sobre a praia. Tem que estar num sofá, vidrado numa televisão que filtra com atraso o que está a acontecer lá fora, a falar para um microfone e a ouvir o que lhe chega pelos auscultadores. Para quem acompanha o circuito mundial de surf pela WSL, a entidade que manda em tudo isto, ele é uma das vozes e caras mais repetidas.

Aos 44 anos, este americano loiro de cabelo e com a pele enrugada e ressequida pela relação diária com a água salgada, Strider é um dos comentadores do circuito e apanho-o quando, por fim, pode descansar.

O sol está quase a ir adormecer e ele, sozinho e concentrado no telemóvel, está nas traseiras do palanque da competição. “Estou uma hora dentro da sala e uma hora cá fora, vamos intercalando. Só que, na minha hora cá fora, tenho que fazer as coisas coloridas. Portanto, continuo a trabalhar. Basicamente, trabalho o dia todo”, diz, com frases curtas, visivelmente cansado.

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Ele preferia ter passado alguns momentos na água, não a surfar - como gostaria -, mas sentado numa prancha, de fato vestido, com um microfone na mão e uma câmara para a qual falar.

Em grande parte das 11 etapas do circuito há um comentador in loco, alguém que discurse sobre o que se passa no local onde as coisas se passam. Quase como um comentador no meio de um campo de futebol, se tal fosse possível: “Prefiro estar dentro de água, sim, muito mais, porque isso é quem eu sou, muito mais do que estar dentro da cabine, a falar. Mesmo assim desfruto do que faço. Para mim é mais natural estar dentro de água, é mais desafiante ter que fazer entrevistas ou comentário aos heats. Se estiver no mar tenho que pensar e atuar mais no momento, improvisar. Isso tem mais a ver comigo”.

Pergunto se é pelo poderio das ondas que existem no sábado e pela ausência de um canal de passagem calmo (onde se pode remar até ao pico onde as ondas quebram) que passa o dia em terra. “Os produtores acharam que não o devíamos fazer, não sei porquê. Eu só trabalho aqui! Provavelmente porque não há um canal definido, sim”, resume, reforçando que sempre fez saber que é aí que gosta de estar: “Comecei a comentar há três anos, quando foi criada a WSL. Queria mesmo fazer isto e eles deixaram-me, basicamente. Depois, com o tempo, fui melhorando e eles concordaram em ficar comigo”.

É lá que adora improvisar entre o que acontece e o que sabe, de antemão, com a “muita pesquisa” que faz e “as muitas coisas” que lê sobre os surfistas. “Vou investigando o que eles andam a fazer, para tentar estar a par de tudo, incluindo as pranchas que andam a usar. Tento saber a história da vida deles, tanto quanto possível, para tentar ter alguma intimidade com eles também. Depois, claro, há o bom de podermos conviver com eles, porque são bons tipos e todos têm uma boa história para contar”, diz, sobre o trabalho que faz em casa.

Já grande parte da gente que invade a praia se encaminha para casa quando o cansaço e a cara fatigada de Strider Wasilewski aconselham ao fim da conversa. Despedimo-nos, ele volta a forcar-se no telemóvel, sozinho e calado. Minutos depois, quando este texto já se escreve, aparece de novo na televisão, contido na mesma tenda, a falar para o mesmo microfone e a escutar o que lhe dizem durante o resumo do dia.

E ele continua com cara de quem preferia estar noutro sítio.

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