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Está tudo maluco

Ondas grandes, sim, ondas perfeitas, não. O primeiro dia de campeonato em Supertubos teve um mar " do or die" e um Vasco Ribeiro a acabar com a melhor onda do dia. João Kopke é um surfista profissional, mas não está em Peniche para competir na etapa do circuito mundial de surf - vai lá à caça de histórias para contar na Tribuna Expresso.

João Kopke

Pedro Mestre/WSL

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O dia 21 de Outubro prometia duas coisas para a costa portuguesa: altas ondas e Peniche ao rubro.

Vislumbrava-se no horizonte o primeiro swell (ondulação, mas swell é mais “trendy") a sério da temporada. Ondas perfeitas e grandes estavam no menu para sábado. Peniche ia “bombar”.

Desta promessa, apenas uma parte se cumpriu. Nós cá do surf temos muitas palavras alusivas ao facto de estarmos um pouco desconfortáveis com o tamanho do mar. Muitas vezes dizemo-las de peito inchado e a rir, para não denotar esse mesmo desconforto: estão umas bombas, está grosso, vêm uns “petardos”… Certamente, hoje em Peniche, qualquer expressão que transmitisse a ideia de que o surfista barrigudo de fim-de-semana não deveria molhar os pés em Supertubos terá sido dita na praia. Portanto, estava grande.

Perfeito, também. Mas não em Supertubos (quem surfou em Carcavelos sabe do que estou a falar). Para quem não é o mais atento espectador deste nosso desporto de ondas, informo-vos de que hoje foi um dia bastante atípico no que toca a scores (médias, mas scores é mais “cool”).

Estamos a falar dos melhores surfistas do mundo e, por isso, normalmente, quando abrimos o site da World Surf League para consultar os resultados e rever as ondas surfadas durante o dia, deparamo-nos com várias médias acima dos 15 pontos (de 0 a 20) protagonizadas por esta malta. Chovem ondas de 9 pontos, é normal haver um 10 perdido, e scores considerados excelentes (acima dos 8 pontos numa escala de 0 a 10) são quase obrigatórios para quem pretende progredir na competição.

Hoje, houve surfistas a chegar ao fim dos heats de meia hora com somatórios inferiores a 1 ponto. Eu até acho que faço umas ondas, mas, quando surfo ao lado de qualquer um destes extraterrestres do surf, fico bastante assustado com o nível. Vamos excluir a hipótese de que ontem à noite houve uma festa algures pela Lourinhã com cerveja portuguesa (as minhas fontes confirmam que tal não sucedeu).

Então, o que aconteceu hoje em Peniche?

Ondas brancas, sets com mais de 3 metros, surfistas a acabar as suas performances 5 minutos antes do fim das baterias, correntes, ventos difíceis e os famosos “close outs” dos Super acima do tamanho recomendado. (Close out é muito mais “groovy” do que dizer “ondas a fechar”). Houve surfistas que, durante as suas entrevistas, não se contiveram a soltar um pequeno palavrão genuíno, denotando que o mar estava realmente difícil.

Mas scores baixos não significam necessariamente que o espetáculo não acontece quando falamos de ondas. Pelo contrário, a outra promessa para este dia cumpriu-se na íntegra: os Supertubos esgotaram a lotação.

Pedro Mestre/WSL

As rotundas de Peniche são excecionalmente conhecidas (à semelhança, aliás, de rotundas oriundas de outros locais) pela sua forma circular e a possibilidade de serem contornadas por uma variedade de veículos. Hoje, serviram muito bem enquanto parque de estacionamento. Ondas grandes e perigosas e surfistas “desesperados” por produzir surf são uma ótima combinação para o espectáculo – o “do or die” aplica-se de uma forma mais literal quando o mar está assim.

Isso faz com que os corações dos espectadores batam bastante mais rápido quando se veem as linhas a entrar no horizonte e os pontinhos negros, que são os surfistas, se começam a posicionar. Os adeptos de surf portugueses são mundialmente conhecidos pela barulheira que fazem (algo que me deixa, enquanto profissional do desporto, muito orgulhoso). O nível de decibéis esteve perigosamente alto na praia. Principalmente, quando começaram a correr na areia os portugueses de serviço: o Kikas e o Vasco Ribeiro.

O Kikas não se encontrou tão bem nas condições de hoje como tem vindo a fazer ao longo do ano, por esse mundo fora. Mas o Vasco sim.

A segunda ronda do campeonato é muito importante, já que é o primeiro round no qual quem perde vai para casa. Se morarmos na Austrália, ir para casa nesta fase é bastante chato, pois a viagem é longa. E é precisamente essa viagem que Owen Wright, um dos seres humanos mais temidos em condições pesadas como as de hoje, terá de fazer, já que o Vasco, com um tubo assustador para a direita, fez a melhor onda do dia, vencendo o heat.

Ainda há duas semanas, com um copo de vinho na mão, num jantar, falei com um Vasco muito descontraído. Como o Kikas no ano passado, o Vasco este ano está à procura da qualificação para o World Tour através do circuito WQS.

Este circuito será talvez um dos maiores desafios que qualquer atleta poderá suportar na sua carreira desportiva, já que os surfistas são confrontados com todo o tipo de condições, uma concorrência brutal e viagens intermináveis. Agora o Vasco está com umas pequenas “férias” no calendário e contou-me que, para ele, este campeonato é do mais divertido e descontraído que a competição lhe pode proporcionar e que o seu objetivo aqui é fazer parte do espetáculo.

Hoje, para os portugueses na praia, a sua onda foi “o” espetáculo. No domingo estaremos lá para ver mais.

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    Strider Wasilewski é um comentador da WSL e uma das vozes, e caras, mais ouvidas e vistas para quem acompanha as etapas do circuito mundial de surf. O americano passa o primeiro dia do Meo Rip Curl Pro, em Peniche, dentro e fora de uma tenda e não dentro de água, a comentar o que se passa sentado numa prancha: "É quem eu sou. Para mim é mais natural estar dentro de água, é mais desafiante ter que fazer entrevistas ou comentário aos heats"