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Frederico Morais e os 5.03 da frustração

Na gelada manhã de domingo, Frederico Morais garantiu a presença na terceira ronda em Peniche, mas num heat em que esteve à volta de 15 minutos sem apanhar uma onda e acabou com uma pontuação que, aos olhos oficiais, é apenas razoável. A culpa? É do mar

Diogo Pombo

Pedro Mestre/WSL

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O frio, o vento e os ossos a tremerem, os gorros e capuzes a taparem a cabeça e as camadas de roupa a cobrirem o corpo, nada disto combina com areia e água salgada. Com praia.

O dia nasce com sol, mas este cenário tão gélido é o que recebe as pessoas em Supertubos às 7h45, hora marcada pelos organizadores para decidirem se a competição arranca, ou não, 15 minutos depois. É uma agenda que pode ser ingrata e infrutífera para quem ali está para exercer a sua profissão, os surfistas. Imaginem terem que comparecer a essa hora, todos os dias, no local de trabalho, terem que acordar, tomar banho, lavar os dentes, despertar o corpo e sair de casa, sem a certeza de que iriam mesmo para a labuta.

É mais ou menos a incerteza que sempre existe para os surfistas. E para Frederico Morais.

Ele acorda na madrugada de domingo sabendo que vai estar no segundo heat do dia. Chega à praia com o frio, o vento e os ossos a tremerem, roupa abundante, e Kolohe Andino a eliminar Jadson André nas ondas grandes, mas instáveis, a fecharem demasiado rápido e com tubos de vida curta. Ele entra para a água antes das 8h30 e, em meia hora, apanha quatro ondas que são três, porque nem um segundo fica numa delas.

O melhor que o mar frouxo lhe dá é uma pontuação de 2.83, onda em que entra e sai de um tubo mais rápido do que o tempo que demora a escrever o nome dele. É uma pontuação medíocre, diz a cábula da WSL, na parte que explica como se pontuam as ondas surfadas. Tal como o mar, cada vez mais caótico, desordenado e com ondas brancas de espuma e de feitio fechado. Kikas apenas rema e existe durante quase 15 minutos, sem apanhar uma onda, algo que só volta a fazer a segundos do fim. É outra medíocre.

Mas ganha porque o americano Nat Young faz pior para se adaptar às condições que, mesmo seguindo em frente, deixam o português algo chateado, uma felicidade mesclada com frustração. A maré está a vazar até às 11h e isso não ajuda, mesmo que a organização não queira saber. “Espero que as condições melhorem. A maré um bocado mais cheia é capaz de ajudar”, desabafa, já na areia.

Quem manda e decide não o ouve, com certeza, porque o que se diz é que há vontade de espremer o máximo de heats e rondas possíveis, este domingo, para aproveitar o público de fim de semana e precaver o que pode vir na segunda-feira, dia em que se antevê que o mar e as ondas piorem.

A pontuação final de 5.03 faz Frederico Morais sobreviver e ir viver com Vasco Ribeiro para a terceira ronda, os portugueses continuam em prova. É um resultado razoável que deu uma boa notícia a um muito bom surfista (continua a amealhar pontos para ser Rookie do Ano) em ondas, por enquanto, assim-assim.