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Kikas: uma questão de buzinas

O surfista preferido da multidão que, no domingo, voltou a encher a praia de Supertubos, teve um dia bom, mas também azarado: os dois heats de Frederico Morais coincidiram com fases moles e frouxas do mar. Mas, mesmo com um susto causado pela buzina que assinalou o fim da sua bateria, ele "tinha a certeza que não tinha feito nada de mal". Não fez e já está na quarta ronda

Diogo Pombo

Pedro Mestre/WSL

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Então é assim:

"É um pouco difícil de explicar. Tinha a prioridade sobre ele, mas se ele se põe primeiro em pé e a buzina toca antes de eu me por em pé, eu estaria a interferir na onda dele. Estamos a falar de milésimos de segundo em que estamos a remar para a onda e não nos apercebemos do contagem. Mas tinha quase a certeza que não tinha feito nada de errado."

A explicação vem da boca sorridente de Frederico Morais. Está com os pés na areia, ainda com a licra vestida, boné sobre o cabelo molhado, a explicar aos jornalistas do que acabou de acontecer.

As palavras que debita, concentrado para ser claro e simples, matam com os quase cinco minutos de dúvidas e hesitações, dos "será que" a pairarem na cabeça de quase toda a gente, mesmo que estejam a desconfiar silenciosamente. É que o heat de Kikas terminou com Kikas em primeiro, com Michel Bourez a precisar de um 3.83 para estragar o ânimo de uma praia e com o taitiano a apanhar uma última onda em sintonia com a buzina que anuncia o fim da bateria.

A tal buzina.

Com a velocidade que a luz tem a mais que o som, visto da praia, é difícil ter certeza do que acontece primeiro - se é Bourez a colocar-se em pé da prancha, se é a buzina a soar, e se Kikas, na mesma onda, se levanta na prancha antes desse alarme. Para destilar mais confusão, é o português que tem a prioridade e, como tal, pode remar para a onda que desejar sem que o adversário possa interferir.

Frederico apanha a onda, levanta-se, mas só porque sim, para garantir que a onda não conta para Michel Bourez, que ainda faz duas manobras e acaba a esbracejar na direção da praia, para os juízes verem. Kikas sai da água e corre para dentro da tenda, Bourez sprinta lá para dentro também.

Parece que procura satisfações com quem pontua e avalia as ondas.

Passam uns dois minutos até que o taitiano, a sorrir, abraça Frederico pelas costas, já ciente de que dúvidas sobre prioridades, buzinas ou possíveis interferências são afogadas com uma assercão dos juízes - além de não haver interferência, a buzina já tinha soado quando ambos os surfistas se colocam de pé na tal última onda.

Não há necessidade para os búúús ou assobios do público, menos ainda para as caras sérias de Frederico Morais e Michel Bourez. O português segue para a quarta ronda e sobrevive a um dia em que o mar parece não gostar dele e, como uma criança com tendência patológica para amuar, se põe de trombas para ele.

Durante a hora que o português está na água (meia hora de manhã, outra à tarde), as ondas pioram, os tubos escasseiam, o tamanho diminui, o vento aumenta, parece que tudo fica menos propício. "Parece que o mar acalma um bocado e não há muitas ondas", lamenta, embora feliz da vida por seguir em prova

Mesmo que no mar em fases murchas de ondas (apenas surfou duas contra Michel Bourez), o português continua no Meo Rip Curl Pro e garantido é que, pelo menos, vai surfar mais duas vezes: caso perca na quarta ronda, a que não tem perdedores, é repescado para a quinta ronda; se vencer, Frederico Morais segue para os quartos de final.

E não há buzina que mude isto.

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