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Tozé: o político que é amigo dos surfistas vai ter muitas saudades disto

António José Correia, Tozé para os amigos e para quase toda a gente, deixou de ser presidente da Câmara Municipal de Peniche no dia em que arranca a nona edição do Meo Rip Curl Pro. Na véspera, entre abraços, selfies, fotografias e conversas, arranjou um tempo para nos dizer que mesmo indo assistir à prova, pela primeira vez do lado de fora, está “felicíssimo”

Diogo Pombo

Pedro Mestre/WSL

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Está que nem um miúdo feliz, maravilhado com o que tem à volta, a tentar desfrutar tudo tão intensamente quanto possível por saber que, a partir de amanhã, nunca mais poderá viver estas coisas assim.

Ele como é um miúdo grande, com pouco cabelo branco, óculos a descansar sobre o nariz que paira sobre o bigode emblemático. Todo risos e sorrisos, vestido com um casaco aberto, a mostrar uma t-shirt alusiva a Peniche, abusando do telemóvel para tirar fotografias a quem está sentado ao seu lado: Gabriel Medina, John John Florence, Frederico Morais, Vasco Ribeiro e Jordy Smith. São surfistas, dos melhores do mundo, e estão ali sentados para a conferência de imprensa que apresenta o Meo Rip Curl Pro Portugal.

E Tozé ri-se, sorri, mete conversa, capta fotografias e está irrequieto, hiperativo, a aproveitar isto como se fosse a primeira vez, porque é a sua última vez.

Tozé, a alcunha carinhosa de António José Correia, está a um dia de deixar de ser o presidente da Câmara Municipal de Peniche. A lei da limitação de mandatos existe e força-o a abandonar o cargo que ocupou desde 2005 e que o fez coincidir – e ser um dos responsáveis, sejamos justos – em trazer o evento que pelo nono ano seguido faz desta cidade do oeste uma paragem do circuito mundial de surf.

O ainda autarca está “feliz, felicíssimo” e “já com saudades” por antecipação. São as primeiras palavras que me diz quando, já não há um apertão de mão, um abraço repentino, alguém para cumprimentar efusivamente ou uma enésima selfie para tirar. Tozé segura nas mãos a réplica do troféu de campeão mundial de surf; é grande, mas não tão grande como o original.

Foi a surpresa com que Francisco Spínola, o organizador da prova, fechou a conferência. “Não estava à espera. Isto é efémero, mas, a partir de agora, tenho o compromisso de, todos os anos, defender este troféu”, assume.

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A forma como o fará, explica, será na praia, com os pés na areia, a vibrar com o que costumava ver lá de cima no palanque da organização. No espaço onde, com os anos, diz ter criado e fomentado amizades. “Praticamente todos os surfistas são meus amigos. Estive sempre ali a falar com o John John, a fazer-lhe a tradução do que se estava a passar”, atira, rindo, congratulando-se com o inglês que foi limando com os anos. Começou ferrugento, que a sua segunda língua é o francês.

A cada edição da etapa do circuito mundial de surf, em Peniche, organiza um jantar com os brasileiros do circuito. Já afirmou ter uma empatia especial com Mick Fanning, australiano que é tricampeão mundial. Sempre se meteu com eles, os surfistas, e procurou confraternizar, razão pela qual o consideraram o the coolest mayor on tour, logo na primeira edição.

O chavão ficou e a reputação perdurou enquanto em Peniche iam brotando bares, restaurantes, hotéis e negócios à medida que o surf ali foi ficando. “Hoje temos quase 500 unidades de alojamento local e mais de 3.000 camas”, enumera, dizendo deixar para Henrique Bertino, independente que o vai suceder no cargo, “um caderno de encargos para certificar Peniche como destino de surf”, para o presidente eleito “perceber a força disto”.

A ideia é continuarmos a falar sobre o evento, os surfistas, as experiências que teve e gostou – e as que não gostou. E como foi organizar isto durante tantos anos. Mas as pessoas, os apertos de mão, os abraços e as selfies não descansam e Tozé, em poucos minutos, cede aos pedidos.

Despede-se e das últimas coisas que diz é que, agora, vai “estar sempre na areia”.