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Na areia com o povo

Entre os experts, um dos muitos grupos de miúdos de 12 anos e os leigos que se esforçam por entender o que se passa dentro de água. Ao segundo dia de competição em Peniche, João Kopke escreve sobre como é estar na areia, no meio da multidão. João Kopke é um surfista profissional, mas não está em Peniche para competir na etapa do circuito mundial de surf - vai lá à caça de histórias para contar na Tribuna Expresso.

João Kopke

Pedro Mestre/WSL

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Para além da possibilidade de contar orgulhosamente aos meus avós que ando a escrever para o Expresso, colaborar com um título de renome tem as suas óbvias vantagens em Peniche: infiltrar-me em áreas restritas, almoço de graça e uma plataforma de onde se pode ver confortavelmente o campeonato, sentado numa cadeira.

Mas há uma forma de viver o World Tour bem mais divertida: sentado na areia, no meio da multidão que se aglomera à frente do palanque para ver o campeonato. Ou seja, hoje (domingo), o objetivo era passar pela verdadeira experiência de quem peregrina a Peniche para ver os melhores do mundo a surfar.

Portanto, como tantos outros, fiz o farnel em casa, coloquei uma toalha na mala e arranquei para junto do mar. Quando eu cheguei, a maré tinha acabado de dar a volta. Toda vazia a encher. O mar, que não se apresentava tão assustadoramente grande como no dia anterior, tinha certamente, ainda, um tamanho suficiente para que eu pudesse prever que a maré varreria sem piedade a multidão dos seus assentos em algumas horas.

Isto porque o conceito de “primeira fila” é levado muito a sério pelos fãs de ondas em Portugal: enquanto não se molhar mais do que os dedos dos pés, está tudo bem. O problema é que o subir da maré não avisa quando vai encharcar as calças de ganga do adepto distraído. Foram, pois, vários os episódios em que uma linha de gente atrapalhadamente agarrou nas lancheiras e chapéus-de-sol para tentar fugir a uma sessão de surf não intencional, durante a prova.

Claro que, quando isto acontecia, não faltavam os gritos vindos de quem se encontrava à retaguarda, urgindo a quem se havia levantado à pressa que se sentasse rapidamente, pois ninguém queria perder a ação.

Vários são os estilos de pessoas diferentes que se conglomeram nas areias de Supertubos. Do meu lado esquerdo estava um grupo de surfistas, claramente experts no que toca a World Tour. Os que sabem todos os detalhes sobre o funcionamento de competição, de rankings e pontos, e do mar. Pessoas que veiculam conversas ininteligíveis para o público em geral. Temos, por outro lado, a família feliz, atrás de mim, que decidiu passar o domingo no campeonato, montando a infraestrutura de praia no meio das gentes.

O grupo de miúdos de 12 anos que não consegue conter a excitação de estar junto dos seus heróis e, por isso, falam um pouco mais alto do que é socialmente aceitável. Do meu lado direito, por fim, estava o leigo do surf e o seu amigo tentando entender o que raio se estava a passar no mar.

Pedro Mestre/WSL

É engraçado que todas estas pessoas, com motivações face ao surf muito diferentes, vibrem da mesma forma com o 9.7 do Sebastian Zietz ou a queda vistosa do Conner Coffin. Vive-se surf muito intensamente no meio daquela energia.

Um dos momentos mais intensos do dia foi o tão esperado heat em que o número 1 do mundo se defrontaria com o convidado português. De repente, os surfistas que estavam na água perderam toda a atenção do público. Vinha John John a correr e a praia toda colocou os olhos no estreito corredor que dá acesso ao mar aos atletas. Só faltou terem soado trompetes. Mas, quando Vasco Ribeiro começou a fazer o seu percurso para o line up, a praia foi ao rubro e o Vasquinho teve direito ao dobro da atenção dada ao camisa amarela do circuito.

Os campeonatos de surf têm alguns pontos a jogar a seu favor.

A praia funciona como um anfiteatro natural, onde podemos ver, gratuitamente e de bem perto, as performances dos atletas, e ainda se apanha sol. Outra característica interessante do nosso desporto é que, associado à ideia de que estar num mar como o dos Super não é pêra doce, os surfistas vão-se transformando numa espécie de heróis.

É verdade que a valorização de um atleta ao estatuto de herói não é exclusiva do surf. Mas, ao contrário do que se passa, por exemplo, “na bola”, aqui podemos falar com os nossos heróis à sua saída da água, pedir-lhes um autógrafo sem protagonizar uma invasão de campo ou simplesmente fazer-lhes uma festinha na licra de competição (o que é sempre um pouco estranho, mas pode fazer-se).

Quão feliz ficaria um adepto do Real Madrid ao tocar a t-shirt do Ronaldo, no estádio? Esta proximidade é muito aproveitada, especialmente pelos miúdos. Quando algum dos surfistas com mais nome sai da água, rapidamente um grupo de sub-12’s o rodeia e persegue até que são separados por um segurança.

O último herói do dia que a maré me permitiu ver sentado entre a multidão foi o do Kikas. Mais uma vez, o Frederico mostrou-se à altura do desafio imposto pelo taitiano Michel Bourez e deixou o povo contente. Mesmo a tempo, já que o subir da maré acabou com o espetáculo para quem estava sentado na pequena colina que dá para o mar - grupo que me incluía.

Quando a água finalmente me molhou os dedos dos pés, chegou a altura de esperar pelo dia seguinte para ver mais.

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