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Os adversários de Kikas: um australiano quase reformado e um japonês que é americano - e quase português

Josh Kerr é um australiano de 33 anos que no final da ronda anterior admitiu estar a pensar retirar-se do circuito. Kanoa Igarashi tem 20, é uma das promessas do tour e está com os pais, o irmão, a namorada (portuguesa) e os amigos em Peniche. Ou seja, está em casa. E são estes dois surfistas a quem Frederico Morais tem de vencer na ronda (terça-feira, a partir das 9h) em que ninguém perde. Como assim?

Diogo Pombo

Pedro Mestre/WSL

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Um americano, que é japonês e quase português e está como se estivesse em casa. Um australiano que ainda hesita um pouco se é mesmo isto que pretende continuar a fazer. Não podiam ser mais diferentes e ambos são os adversários contra quem Frederico Morais terá que surfar na terça-feira, algures a partir das 9h, se a competição retomar à hora prevista.

A quarta ronda é a fase em que alguém ganha e ninguém perde, porque o vencedor segue para os quartos-de-final e os derrotados são repescados para a quinta ronda. Quase, quase uma win-win situation numa prova que pode coroar John John Florence. Mas já chega de repetições. Vamos às histórias.

O japonês que é ‘português’

Os bancos da carrinha grande e espaçosa estão rebatidos, mas não se avista espaço. Tem pranchas amontoadas lá dentro, todas sem quilhas, empilhadas como se fosse uma encomenda industrial para entrega. Parqueada diante de um dos 35 placards que marcam o lugar reservada a cada surfista, a carrinha, com matrícula alemã - um palpite: antes da etapa de Peniche houve a de França e a família terá aproveitado para conhecer algo da Europa, conduzindo -, é do rapaz de olhos cerrados e nome estranho para o português.

É de Kanoa Igarashi, o japonês tornado americano pelos pais que emigraram para o jeito dele melhorar e dar em surfista a sério, na Califórnia. Ele sente-se bem e quase em casa aqui. Passeia sorridente pelo recinto, na praia de Supertubos, mostra-se descontraído, como a postura brincalhona que adota, bem cedo na segunda-feira, quando vê a portuguesa Teresa Bonvalot a passar-se por água doce no chuveiro, acabada de sair do mar, e vai ao seu encontro no palanque do Meo Rip Curl Pro, no dia em que as ondas são pequenas demais para competir.

Será uma das razões pelas quais está feliz e contente: está com a namorada portuguesa no país onde tem vários amigos; os pais, os japoneses que emigraram para ele ser surfista, também vieram; e a prova está-lhe a correr bem; até o irmão mais novo, Keanu, fotocópia dele em versão encolhida e também com jeito para o surf, está em Peniche.

Tanta companhia no país que não lhe é estranho em nada - Kanoa fala português e, dizem-nos, até insiste em falá-lo com os amigos que tem cá -, talvez resultado nas boas prestações de Igarashi nas ondas.

Depois de mal lidar com as bestas de três metros de sábado e nem uma onda apanhar na primeira ronda, prospera com os 15.93 e 11.67 que lhe dão para vencer os seus heats seguintes e chegar aos oitavos-de-final. A vida de Kanoa Igarashi, de 20 anos, é, neste momento, fácil.

E menos complicada que a de Josh Kerr, pelo menos no que consta dentro da cabeça do australiano.

O limbo do australiano

Ele vive esta vida há muitos anos e este ano não tem sido simpático. Os sete 25º lugares e os dois 13º são números de quem está no fundo do circuito, a viver de derrotas e eliminações precoces em todas as etapas, têm-no feito pensar. E logo no evento em que está a surfar melhor, a avançar, a ser falado pelo protagonismo que já teve numa luta lhe diz pouco.

Na tarde de domingo, minutos após John John Florence ter eliminado o português Vasco Ribeiro, ele entra para a água com Jordy Smith. O sul-africano é segundo no ranking e tem de chegar aos quartos-de-final para impedir que o surfista de nome repetido tenha chances de conquistar o título mundial em Supertubos. Mas perde, e perde bem, tão lento, pesado, inerte e mole que parece uma lesma de mar mesmo quando tem a prioridade sobre as ondas. mesmo que Josh Kerr esteja a esforçar-se verdadeiramente por ser o mais lento remador da prova,

Kerr parece estar disposto a deixar Jordy Smith ganhar, mas quem vence é ele, com 8.67 pontos finais que são medíocres por serem a soma das duas melhores ondas. “Sou o fã número um do Jordy e quero mesmo que ele conquiste o título. Espero que ainda tenha hipóteses em Pipeline e o consiga lá”, admite Josh, pés na areia e palavras para o microfone, após a bateria.

Ele vai a caminho de fazer o melhor resultado do seu paupérrimo ano e parece triste. Ou farto das horas gastas em aviões, dos quilos e euros a acumularem nas malas que carregam as pranchas nos aeroportos, dos nove meses de viagens por ano, o ir de um lado para o outro que pode ser o lado mau e detrator da vida de circuito mundial para um surfista que não esteja motivado. Como não aparenta estar Josh Kerr:

“Estou ansioso para virar uma nova página na minha vida depois disto, para avançar e fazer todo o tipo de coisas. Se alguém por aí quiser fazer uma surf trip, estou pronto! Queria dar uma palavra à minha mulher e à Sierra [a filha], que estão num avião neste momento. Ela deu-me um pontapé no rabo por causa deste heat e disse-me que tinha que o ganhar, como presente de despedida. Consegui, querida!”

É o desabafo que o australiano deixa passar antes da confissão que lhe escapa, entre hesitações e pausas, na flash-interview que dá na praia ainda de fato e licra vestidos. “Estou mais ou menos a sentir que isto acabou para mim. Apenas me sinto entusiasmado pelo que vem a seguir, pelo próximo capítulo”, diz, enigmático e inconclusivo, tal e qual um surfista em vias de se retirar.

P.S. Seria bom para o português que um desses perdedores repescados, e possível perdedor repetente, fosse Connor O'Leary. O australiano é o mais próximo perseguidor de Kikas no ranking mundial e está a competir com ele para o título de Rookie do Ano, atribuído ao surfista estreante no circuito que termina o ano com a melhor classificação. O'Leary vai surfar contra John John Florence e Kolohe Andino.

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