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O que raio fazem os surfistas quando não há competição? (onde se fala de turismo, vinho e de tostas mistas)

Segunda-feira não houve competição em Supertubos, o chamado lay day. Houve profissionais a aproveitarem para visitar Óbidos, outros a ponderarem gastar três mil euros numa garrafa de vinho e quiçá alguns a fazer fila para comer uma tosta mista. João Kopke é um surfista profissional, mas não está em Peniche para competir na etapa do circuito mundial de surf - vai lá à caça de histórias para contar na Tribuna Expresso.

João Kopke

Laurent Masurel/WSL

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6:30 da manhã. Um batido de energia com um sabor duvidoso e um café. Fatos molhados na varanda para a mochila, quatro pranchas de surf para dentro do carro. “Good morning John, how did you sleep?” - Pat O’Connell (team manager da Hurley internacional) para John John Florence. “Like a champ, thanks.”

Chegando aos Super, ainda de noite, wax na prancha e para a água. O mar está pequeno e, na hora do primeiro call é anunciado que ficamos para amanhã.

À hora que se sai da surfada matinal de reconhecimento, obrigatória para qualquer surfista de profissão, o dia ainda mal começou para o trabalhador lisboeta que dá agora a primeira trinca na meia torrada. Portanto, há algumas horas livres pela frente e, hoje, não se trabalha.

A questão que se põe é, o que raio fazem os pros quando não os estamos a ver a dar tubos na tela dos nossos computadores?

Bem, considerando que o trabalho desta gente é andar à volta do mundo a surfar, os dias em que não há competição são uma espécie de mini-férias. Ser surfista nem sempre é fácil, mas, também, nem sempre é difícil.

É o famoso lay day de Peniche.

A terra do mundial é um lugar extremamente favorecido no que toca a ondas. Toda a gente conhece os Supertubos, as imagens das suas ondas são difíceis de ignorar. Mas os Super são apenas um dos deleites que fazem com que esta região do mundo seja uma das preferidas do circuito mundial para muitas das super estrelas do surf. É por isso que, normalmente, os lay days são tão ou mais carregados de ação do que os dias de campeonato. Quem faz a festa são as dezenas de fotógrafos e produtores de vídeo que emigram para Peniche durante esta semana.

Vestir uma licra num campeonato deste nível é vestir também uma grande pressão. Se caírem, os atletas correm o risco de se despedirem mais cedo da competição, o equivalente a um mau mês de vendas lá na empresa. Portanto, quando os vemos nos live streams estamos a ver surfistas ligeiramente inibidos pela força da responsabilidade, a utilizar apenas uma parte dos seus arsenais técnicos de modo a garantir a passagem para o próximo round.

Quando surfamos ao lado de um surfista deste top 34 descontraído, a história é bem diferente. Estão a divertir-se, a tentar ultrapassar os seus próprios limites e a fazer filmes para as marcas que os patrocinam. Se juntarmos a isto o facto de a costa de Peniche e arredores ser a casa de algumas das melhores, e mais sozinhas, ondas do mundo, temos a receita para momentos de surf inesquecíveis que passam ao lado dos radares de surf menos atentos.

Damien Poullenot/WSL

Foi numa dessas sessões, na Baía, que Kelly Slater protagonizou a primeira rotação no ar de 540º. Vejam aqui, mas não fiquem tontos. Foi também numa destas sessões, nos Belgas, que Kolohe Andino fez o que foi até hoje, talvez, uma das melhores ondas já filmadas de sempre.

Da Nazaré à Ericeira, portanto, suspeito que os dias mais divertidos para esta malta, quando está em Portugal, sejam aqueles em que não soam as buzinas na praia.

Mas, hoje, por causa do vento, apenas os Supertubos produziam boas ondas, apesar de estar pequeno. Quem aproveitou foi o staff – sim, uma equipe com cento e poucas pessoas, normalmente surfistas, que viajam à volta do mundo para trabalhar… o que acham que eles fazem nas horas de almoço? Mas, do lado das celebridades das ondas, apesar das aparições na praia de surfistas como o Gabriel Medina ou o Filipe Toledo, o dia tirou-se para aproveitar Portugal.

Houve quem tivesse ido beber um copo de vinho, ontem à noite, a Lisboa. O Mineirinho (Adriano de Sousa) ponderou a compra de uma garrafa de Porto de três mil euros. Se a comprou ou não, permanece um mistério. Depois do surf, Felipe Toledo foi a Óbidos com a família e o seu amigo ainda em prova, Miguel Pupo. Acompanhou-os uma pequena equipa de cinema.

Por algum motivo que me escapa, o surf profissional possui o segundo melhor circuito de golf do mundo, ficando apenas atrás do circuito mundial de Golf. A maior parte dos surfistas do tour, a começar pelo rei, Kelly Slater, adora dar umas tacadas. Estando uma boa parte desta comunidade hospedada em Praia D’El Rei, a etapa portuguesa do World Tour acaba por criar um campeonato paralelo nos verdes relvados dos resorts a norte de Peniche. Um dia destes, talvez, sejam também estes heats de taco na mão transmitidos em direto.

E há um lugar onde nos encontraremos seguramente com quase todo o contingente do top 34.

Antes das estradinhas de terra que dão para os beach breaks dos Belgas, onde começa o aglomerado de hostels de surf, existe um cantinho onde, às seis e meia da tarde, sai uma fornada de pão fresco. A “Ferreleja” não dá altas ondas. Mas, num dia em que ondas escasseiam, os pros do surf fazem muito bem em contentar-se com uma bela tosta mista.

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