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Os murros de Frederico Morais no fim

Acabou sentado na prancha e a dar murros furiosos na água enquanto soava a buzina para o fim da bateria. Frederico Morais, único surfista português no circuito mundial de surf, foi eliminado do Meo Rip Curl Pro, em Peniche, por Mick Fanning, à quinta ronda

Diogo Pombo

Pedro Mestre/WSL

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Frederico está sentado na prancha, com o sol a adormecer à sua frente. O mar reflete o tom laranja do dia a tornar-se em noite, o vento é quase inexistente e a paisagem é bonita para os olhos. A água agita-se, por segundos: ele começa a esmurrá-la, furiosamente, de costas para a praia, frustrado pelo que acaba de suceder, enquanto uma buzina ecoa no ar.

Chegou ao fim o último heat do dia, o derradeiro da quinta ronda da competição, a meia hora terminal para Kikas em Supertubos. Acabou de ser eliminado por Mick Fanning, desfecho feio, o oposto do que fora em 2015.

E que bonito fora há uns anos.

Ele era um novato conhecido nosso e desconhecido dos melhores, presenteado com um wildcard, a alimentar-se com o apoio das gentes da sua terra para ir a Peniche divertir-se e dar o seu melhor. Foi para a água e coincidiu com o avô de todo o surfista, o deus das ondas que pulou do céu e desceu ao mar para ser onze vezes campeão do mundo, Kelly Slater. Eliminou-o, antes de também se livrar de uma espécie de tio, longe de ser uma divindade, mas senhor de três títulos mundiais e de um talento que é o melhor da sua geração, Mick Fanning.

Essa boniteza de Frederico Morais viu-se em 2015, era ele um convidado em Peniche, um jovem ainda a aventurar-se no circuito de qualificação e aqui competiu em Supertubos pela diversão e experiência.

O Frederico deste ano, adulto, surfista da elite e parte integrante dos melhores, que se arrisca a ser o melhor estreante da temporada e a terminar no top-10 do ranking, reencontrou o tal tio que já passou por vários maus bocados - há dois anos teve o seu pior ano, em que foi atacado por um tubarão na África do Sul, a meio de uma prova, perdeu um irmão e separou-se da mulher. Mick Fanning recuperou, curou-se, regressou esta época ao circuito a tempo inteiro e eles reencontraram-se em Peniche.

Laurent Masurel/WSL

O australiano ganhou ao português na primeira ronda e os caminhos da repescagem fizeram-nos coincidir, de novo, à quinta ronda. Com menos tubos, tamanho e massa de água, as ondas testaram-lhes mais a técnica e diversidade de manobras, jogo em que os 36 anos de Fanning são especialistas.

O seu estilo rápido, veloz, ziguezagueante, que parece descobrir potência a cada corte que dá na água, vai acrescendo notas ao 8.50 que regista logo à primeira onda. Kikas rema atrás da desvantagem durante um heat inteiro, incapaz de arrancar do estilo fluído, limpo e certinho dos seus cutbacks alguma coisa (5.17 e 4.83 são as suas melhores notas) que dê para ameaçar a liderança de Fanning.

É o fim de Kikas em Peniche, este ano, um final que é os murros que dirige à água. Tem as costas voltadas para a praia e a multidão que se acendia cada vez que ele pisava a areia, corria para o mar e de lá saía com um resultado que lhe deixava continuar em prova.

Ele sempre disse que adorava isto, que isto o empurrava, que tudo isto era o que mais gostava e queria.

Mas Frederico ficou sem isto por culpa do australiano que já ganhou duas vezes em Peniche e, também, se dá bem com estas águas. "Para um rookie ele é extremamente esperto e confiante no que faz. É muito bom", elogia Mick Fanning, já na areia, o discurso apologético do vencedor.

Com razão, porque Frederico Morais é esperto, é confiante, é muito bom no que faz, mas queria fazer mais à frente de quem torce por ele: "É um surfista incrível, seria sempre ser difícil. Devia ter sido paciente, não fui e, às vezes, isso custa-te um heat. Estou triste porque é uma competição em casa, queria chegar mais longe".

O Meo Rip Curl Pro termina amanhã, na quarta-feira, e já não terá portugueses no mar.

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    O português foi derrotado por Kanoa Igarashi e Josh Kerr na quarta ronda, em Peniche, mas bom desta derrota é que ainda não perdeu tudo. Frederico Morais ficou em último lugar do seu heat e foi repescado para a quinta ronda, onde os perdedores têm uma derradeira hipótese de continuarem vivos na prova