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Gabriel Medina, o voador que aterrou em Peniche

O brasileiro que tentou uma manobra aérea em todas as ondas da final venceu o Meo Rip Curl Pro, na praia de Supertubos. Gabriel Medina ganhou a etapa portuguesa pela primeira vez, derrotando Julian Wilson, escalou até ao segundo lugar do ranking e adiou a decisão do título mundial para o Havai

Diogo Pombo

Damien Poullenot/WSL

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Pensem comigo, por um momento: as ondas têm a vida dependente em ventos e ondulações e as direções que elas tomam, fundos do mar e tendências das marés, coisas que, alinhadas, foram massas de água que despertaram a curiosidade dos primeiros humanos que pensaram em arranjar forma de aproveitar isto que o mar lhes dava.

Inventaram pranchas, concluíram que se podiam colocar de pé sobre elas e deslizar nas ondas, desenhando curvas e manobras nas paredes destas ondas. Rasgar, cortar e manobrar. No tempo que se inventou o surf, ninguém era tão vanguardista ao ponto de pensar no quão à frente estariam Gabriel Medina e Julian Wilson em Supertubos, a mostrarem como a teoria da evolução também se aplica a homens que vivem em cima de uma prancha.

O brasileiro e o australiano, velhos inimigos de uma animosidade que vem de 2012, quando Wilson ganhou a Medina na final, aqui em Peniche. A decisão de agora decide-se numa manhã de ondas escassas, apenas aceitáveis e suficientes para o mínimo que se exigem a uma prova do circuito mundial de surf. E eles, com o metro, metro e meio com que as massas de água carregam sobre a praia, optam por tentar voar o mais possível e ignorar as pequenas paredes que se forma à sua frente.

Gabriel é quem mais o faz porque o brasileiro é assim - destemido, agressivo e amigo do risco, tão habituado a manobras aéreas que lhe saem naturalmente, sem problemas, com a aparente facilidade de quem bebe um copo de água. O físico que tem a mais que quase todos os surfistas do circuito deixa-o apanhar 14 ondas em 35 minutos, voando em praticamente todas e aterrando dois aéreos que lhe dão um 6.93 e um 6.33.

O último surge a, mais ou menos, dois minutos do final, algo apressado e pressionado porque, pouco antes, Julian Wilson entra e escapa do único tubo do heat. O australiano, errático na escolha de ondas e falível nos aéreos que não aterra, fica a liderar apenas durante segundos. O melhor que faz com as nove ondas que lhe dão boleia é o 6.27 nessa pequena gruta.

Um breve resumo da final por João Kopke, surfista profissional que esteve em Peniche a colaborar com a Tribuna Expresso, durante o campeonato.

Medina riposta logo, outro aéreo vistoso e agressivo, aterrado com braços a abanar em festejo. Ele sabe que ganha o Meo Rip Curl Pro ali, pela primeira vez, na praia que vibra e está atrás do brasileiro por não haver mais portugueses para apoiar.

Sai da água em ombros, um dos deles é o do padrasto, Charles, depois de a mãe o beijar incessantemente.

Celebra e sorri e está em êxtase pelos 10.000 pontos que recebe e o deixam no segundo lugar do ranking, estrondosa ascensão aqui na Europa: o brasileiro também venceu, há semanas, o evento na praia de Hossegor, em França. “Agora vou pensar no título, antes não estava a pensar. Quero tanto surfar em Pipe, adoro aquela onda, nada é impossível”, admite, no final, com o gigante troféu nas duas mãos e no topo do palanque da praia.

E para nós, que gostamos de surf e apenas vemos os surfistas a serem incríveis, é tudo bom, pois os resultados de Peniche fazem com que o título mundial se decida no Havai, em dezembro, no último evento do ano.

Há quatro atletas - John John Florence, Gabriel Medina, Jordy Smith e Julian Wilson - com a matemática do lado deles para serem campeões e a onda de Pipeline, talvez a mais perigosa e desafiante do circuito, vai decidir tudo.